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Rybakina é a nova número 1 do mundo e faz história pelo Cazaquistão

Elena Rybakina comemora ponto com o punho cerrado, sorrindo, em quadra de tênis

Elena Rybakina perdeu o primeiro set, ficou calada, escondeu a frustração e virou o jogo. A vitória por 3/6, 6/1 e 6/4 sobre a chinesa Zheng Qinwen, nas quartas de final do US Open, levou a cazaque à primeira semifinal da carreira em Nova York. Também garantiu a ela o topo do ranking mundial.

Na atualização da WTA de segunda-feira (14), Rybakina passa a ser a número 1 do mundo pela primeira vez. Aos 27 anos, ela é a 30ª mulher a chegar ao topo desde que o ranking foi criado, em 1975. Ninguém do Cazaquistão, homem ou mulher, tinha chegado lá antes.

A virada contra Zheng que valeu o topo

Rybakina chegou às quartas precisando de uma vitória. Chegar à semifinal bastava pra tomar a liderança de Aryna Sabalenka, qualquer que fosse o resultado do resto do torneio.

O começo foi ruim. Zheng, que veio do qualifying e já tinha eliminado Iga Swiatek na rodada anterior, fechou o primeiro set em 6/3. A cazaque respondeu com um 6/1 no segundo e segurou o terceiro por 6/4.

“Foi uma batalha comigo mesma, com muitas emoções”, disse Rybakina depois do jogo. Sobre o ranking, ela minimizou: “É só um número agora. Claro, estou na semifinal, então meu objetivo é ganhar o torneio. É uma conquista incrível, mas você sabe como tudo muda rápido no tênis.”

A 30ª número 1 e a primeira do Cazaquistão

A lista das tenistas que chegaram à liderança da WTA desde 1975 tem agora 30 nomes. Rybakina entra nela com uma marca de idade: tem 27 anos e 89 dias. Entre as que estrearam no topo, só a alemã Angelique Kerber era mais velha, com 28 anos e 238 dias, em setembro de 2016.

O dado que mais pesa, porém, é geográfico. O Cazaquistão nunca tinha colocado um tenista no topo do ranking, nem no masculino nem no feminino. Rybakina já tinha dado ao país o primeiro título de Grand Slam em simples, em Wimbledon 2022, com vitória sobre Ons Jabeur por 3/6, 6/2 e 6/2.

“É história para o meu país”, afirmou. “Não tenho muito tempo para ir para casa, mas quando vou é ótimo. Vejo muitas crianças nos clubes olhando o que eu faço.”

Elena Rybakina com viseira branca e raquete vermelha em quadra do US Open 2024
Rybakina no US Open 2024. Foto: Ocoudis (CC0)

De Moscou ao Cazaquistão: a troca de bandeira em 2018

Rybakina nasceu em Moscou, em 17 de junho de 1999. Até os 19 anos jogava pela Rússia. Em 2018 trocou de nacionalidade esportiva e passou a representar o Cazaquistão, que ofereceu o que a federação russa nunca tinha dado: dinheiro, estrutura e base de treino. Na época, ela considerava jogar tênis universitário nos Estados Unidos.

“Mudei minha cidadania para o Cazaquistão porque eles acreditaram em mim e fizeram a oferta”, explicou em 2020, em entrevista à WTA.

A própria atleta conta que o topo nunca foi um plano de infância. “Nunca pensei que seria profissional, ou que sequer jogaria esse tipo de torneio”, disse em Nova York. A decisão de seguir carreira só veio aos 17 anos.

Como ela tirou 6.520 pontos de diferença em nove meses

No fim de 2025, a distância entre as duas parecia intransponível. Sabalenka fechou o ano com 9.870 pontos, e Rybakina, com 4.350. Eram 6.520 pontos de diferença.

Quando o US Open começou, a vantagem da bielorrussa tinha caído para 414 pontos, e a liderança passou a depender só de Rybakina. O Atleta Pro já tinha mostrado essa conta na prévia da semana decisiva do US Open.

O que fechou essa diferença foram dois jogos contra a própria Sabalenka. Em novembro de 2025, Rybakina venceu a final do WTA Finals, em Riad, sem perder nenhum jogo na semana e com o maior prêmio da história do torneio, US$ 5,235 milhões. Em 31 de janeiro de 2026, bateu Sabalenka de novo, na final do Australian Open, por 6/4, 4/6 e 6/4. No set decisivo, chegou a estar perdendo por 3 a 0.

“O foco principal, para mim e para a equipe, é ganhar títulos, e o ranking vem depois”, resumiu.

Os números da temporada que sustentam a liderança

A WTA contabilizou o desempenho de Rybakina desde o fim do US Open de 2025. É o recorte que explica a liderança:

  • 62 vitórias, a maior marca do circuito
  • 6 finais e 4 títulos: Ningbo, WTA Finals, Australian Open e Stuttgart
  • 16 vitórias sobre jogadoras do top 10, seis a mais que qualquer outra (16 vitórias e 6 derrotas, aproveitamento de 72,7%)
  • 394 aces e 1.569 winners, líder do circuito nas duas estatísticas
  • 65,5% dos break points salvos, a melhor marca entre quem jogou pelo menos 10 partidas

Em 2026, somou ainda os vices em Indian Wells e no WTA 1000 do Canadá e a semifinal em Miami. Na carreira, são 13 títulos da WTA.

Há também o retrospecto contra quem estava no topo. Rybakina tem 9 vitórias e 8 derrotas contra a número 1 do momento e já venceu 9 das últimas 10 mulheres que ocuparam a liderança. A única exceção é a australiana Ashleigh Barty.

Elena Rybakina de branco na quadra de grama de Wimbledon 2026
Rybakina em Wimbledon 2026. Foto: Daniel Cooper (CC BY-SA 4.0)

O fim de 99 semanas de Sabalenka no topo

A troca encerra uma sequência de 99 semanas seguidas de Sabalenka na liderança, iniciada em outubro de 2024. Somando uma passagem anterior, em 2023, a bielorrussa acumula 107 semanas como número 1, a 10ª maior marca da história. Terminou 2024 e 2025 no topo.

A diferença entre as duas no ranking é pequena, e a própria Rybakina reconhece que a liderança pode durar pouco. “Você nunca sabe quanto tempo vai ficar lá”, disse. “Vou valorizar isso mais quando terminar a carreira. Agora é ótimo, mas estou aqui para ganhar o título.”

Semifinal contra Coco Gauff

O próximo passo é a semifinal contra a americana Coco Gauff, 4ª do mundo. Do lado masculino, o torneio já perdeu o atual campeão: Ben Shelton eliminou Carlos Alcaraz às 3h33 da manhã, no jogo mais tarde da história do US Open.

Quem quiser acompanhar a reta final encontra canais e horários no guia de onde assistir ao US Open 2026 no Brasil.

O que isso ensina sobre alta performance

A liderança de Rybakina não saiu de uma semana brilhante. Saiu de um ano inteiro: 62 vitórias, seis finais e presença em quase todo torneio grande do calendário. Em janeiro, ela estava 6.520 pontos atrás. Em setembro, estava na frente. Talento ela sempre teve, e já tinha um Wimbledon desde 2022. O que mudou foi o volume de processo acumulado ao longo do tempo.

O segundo ponto é a ordem das prioridades. A frase “o foco é ganhar títulos, e o ranking vem depois” parece protocolo, mas descreve um método. A atleta que joga pelo número não controla o número, porque ele depende também das adversárias. A que joga pelo título controla o que acontece dentro da quadra. O ranking veio como consequência.

O terceiro está nos momentos em que ela esteve atrás. Perder o primeiro set para Zheng, estar 3 a 0 abaixo no set decisivo da final do Australian Open: nos dois casos o placar mostrava uma derrota em andamento, e Rybakina tratou cada um como algo passageiro, não como sentença. “Foi uma batalha comigo mesma”, ela disse. Quem joga alto nível sabe que essa é a disputa que decide as outras.

Por fim, a leitura que ela mesma fez do topo. Rybakina não comemorou o posto como destino final. Disse que não sabe quanto tempo vai ficar lá e que só vai dar o devido valor quando parar de jogar. Chegar ao topo por uma semana depende de um bom momento. Continuar lá depende da mesma rotina que a levou até ele.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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