Enric Mas precisou de três segundos lugares, da queda do melhor ciclista do mundo e de duas semanas defendendo uma camisa que ele mesmo se recusou a vestir no primeiro dia. Neste domingo (13), em Granada, o espanhol da Movistar cruzou a linha de chegada abraçado aos seis companheiros de equipe e confirmou o título da Vuelta a España 2026.
Foram 73h52min55s de prova, com 2min15s de vantagem sobre o esloveno Primoz Roglic, tetracampeão da corrida, e 2min44s sobre o austríaco Felix Gall. Aos 31 anos, na 16ª grande volta que disputou, Mas ganhou a primeira da carreira. E devolveu à Espanha um título que não ficava em casa desde Alberto Contador, em 2014.
“Foi um dia para lembrar, uma Vuelta especial, e foi maravilhoso”, disse o campeão. “Acho que esta é a especial.”
A camisa que Mas não quis vestir
Tadej Pogacar dominou a primeira semana. Venceu o contrarrelógio inaugural em Mônaco e as etapas de Andorra e Castellón, e chegou ao fim da sétima etapa com 3min50 de vantagem sobre Mas. Na oitava, em 29 de agosto, a caminho de Xeraco, o esloveno caiu e deixou a corrida de ambulância, com fraturas na clavícula esquerda e na sétima vértebra cervical.
A liderança passou para Mas com apenas 1min de vantagem sobre Roglic e 1min11 sobre Gall. No pódio daquele dia, ele recebeu a camisa vermelha, mostrou ao público e não a vestiu. “Tadej caiu, eu não ganhei a camisa vermelha. Não vesti-la agora é uma forma de mostrar respeito a ele”, explicou.
À imprensa espanhola, resumiu o desconforto: “Não gosto de ser líder por causa da queda de um rival, mas o ciclismo e a vida têm dessas coisas”. A Atleta Pro detalhou na época o abandono e o boletim médico do esloveno.
Aitana: a liderança herdada vira liderança conquistada
A resposta veio no dia seguinte. A nona etapa tinha 166,6 km e quase 5 mil metros de subida, com chegada no Alto de Aitana. Mas atacou a 3 km do fim, deixou para trás todos os rivais, incluindo o britânico Oscar Onley, e venceu. Tirou 12 segundos de Roglic e 18 de Gall, e a vantagem na geral subiu para 1min18.
Ele seguiu somando nas montanhas. Em Calar Alto, na 12ª etapa, ganhou mais 27 segundos sobre Roglic. Na Sierra de La Pandera, na 14ª, chegou junto de Gall, 25 segundos à frente do esloveno. Foi para o segundo dia de descanso com 2min10 de folga.
A reportagem da Atleta Pro antes da semana decisiva já apontava onde estava o perigo: o contrarrelógio de Jerez.
O contrarrelógio que podia virar a corrida
O contrarrelógio sempre foi o ponto fraco de Mas, e a 18ª etapa, em Jerez de la Frontera, tinha 32,1 km quase planos. Roglic precisava de algo perto de 90 segundos para colocar a camisa vermelha em risco. Tirou 33.
Dan Bigham, da Red Bull-Bora-hansgrohe, admitiu que o espanhol andou bem mais rápido do que os modelos da equipe de Roglic previam. “Era o tempo que queríamos perder”, disse Mas. A vantagem caiu para 1min37 e não mudou na 19ª etapa, em Peñas Blancas, quando Roglic atacou no fim da subida e Mas respondeu na hora.

Collado del Alguacil: a última montanha
No sábado (12), a 20ª etapa tinha de novo quase 5 mil metros de subida e terminava no Collado del Alguacil, com 8,3 km a 9,8% de inclinação média. Roglic atacou sem nada a perder. Mas respondeu e ainda ganhou 38 segundos, fechando a diferença final em 2min15s. A etapa ficou com o basco Mikel Landa, e o americano Sepp Kuss, campeão da Vuelta em 2023, usou a subida para saltar do 11º para o 5º lugar na geral.
“É a primeira vez na minha vida que me sinto assim”, disse Mas na chegada. À imprensa espanhola, contou que se viu campeão ainda no começo da etapa: “Com as pernas que tínhamos como equipe, me vi ganhador da Vuelta quase desde o início”.
No domingo, os 112 km em Granada, com circuito final ao redor da Alhambra, não mexeram na classificação: os tempos da geral foram tomados a 9,8 km da chegada. O norueguês Tobias Halland Johannessen, da Uno-X Mobility, venceu a etapa no sprint contra o italiano Alessandro Romele, da XDS Astana.
Classificação final da Vuelta a España 2026
| Pos. | Ciclista | Equipe | Tempo |
|---|---|---|---|
| 1 | Enric Mas (ESP) | Movistar | 73h52min55s |
| 2 | Primoz Roglic (ESL) | Red Bull-Bora-hansgrohe | +2min15s |
| 3 | Felix Gall (AUT) | Decathlon CMA CGM | +2min44s |
| 4 | Richard Carapaz (EQU) | EF Education-EasyPost | +6min54s |
| 5 | Sepp Kuss (EUA) | Visma-Lease a Bike | +8min45s |
| 6 | Oscar Onley (GBR) | Netcompany INEOS | +9min28s |
| 7 | Jakob Omrzel (ESL) | Bahrain Victorious | +10min38s |
| 8 | Clément Berthet (FRA) | Groupama-FDJ United | +11min41s |
| 9 | Cristián Rodríguez (ESP) | XDS Astana | +11min59s |
| 10 | Harold Tejada (COL) | XDS Astana | +12min51s |
Nas outras classificações, o belga Wout van Aert levou a camisa verde de pontos, com 326, e o prêmio de ciclista mais combativo. O colombiano Santiago Buitrago ficou com a de montanha (78 pontos), Oscar Onley virou o primeiro britânico a vencer a de melhor jovem, e a Decathlon CMA CGM ganhou por equipes.
Três vezes vice: a carreira que esperou oito anos
Mas tinha 23 anos quando terminou a Vuelta de 2018 em segundo, atrás do britânico Simon Yates. Repetiu a posição em 2021, atrás de Roglic, e em 2022, atrás do belga Remco Evenepoel. Em 2024, foi terceiro. Nascido em Artà, cidade de 8,6 mil habitantes em Maiorca, correu três temporadas na equipe de base da fundação de Alberto Contador, que o apontava como seu sucessor.
O caminho até Granada teve mais tropeço do que a lista de pódios sugere. Segundo a agência EFE, Mas passou por tratamento para o medo de descer montanhas, atravessou fases de desânimo com as críticas e ficou meses parado depois de uma tromboflebite na perna esquerda durante o Tour de France de 2025. Em 2026, antes da Vuelta, tinha sido 24º na Volta da Catalunha, 32º no Giro d’Italia, 12º na Volta à Suíça e 5º na Volta a Burgos.
Eusebio Unzué, chefe da Movistar, resumiu o que faltava ao espanhol: “Faltava confiança ao Mas. Faltava a ele o que os grandes corredores precisam para ter resultado: confiança em si mesmo”. Segundo o dirigente, a equipe tirou Mas do Tour de France para reconstruir essa confiança com foco na Vuelta.
Espanha e Movistar voltam ao topo
O título tem peso duplo. Mas é o primeiro espanhol a vencer a Vuelta desde Contador, em 2014, e o primeiro a ganhar qualquer grande volta desde o próprio Contador, no Giro de 2015. Para a Movistar, é a primeira Vuelta desde Nairo Quintana, em 2016, e a primeira grande volta desde Richard Carapaz, no Giro de 2019.
O prêmio oficial pelo título é de 150 mil euros, cerca de R$ 890 mil, dentro de uma premiação total de 1.116.210 euros, a menor das três grandes voltas. É menos de um terço dos 500 mil euros pagos ao vencedor do Tour de France. No ciclismo, a maior parte da renda de um campeão vem do contrato com a equipe, como mostra o guia de quanto ganha um ciclista profissional.
O que a Vuelta de Enric Mas ensina sobre alta performance
A primeira lição está no pódio de Xeraco. Mas tinha acabado de assumir a liderança da corrida mais importante do país dele e escolheu não vestir a camisa. Não foi falsa modéstia, foi leitura correta do que tinha acontecido. A liderança só passou a ser dele de fato no dia seguinte, em Aitana, quando atacou e venceu. Herdar uma posição e sustentar essa posição são tarefas diferentes, e só a segunda depende do atleta.
A segunda está no contrarrelógio. Mas não precisava vencer em Jerez, precisava perder pouco. Atleta que conhece a própria fraqueza não tenta escondê-la no dia da prova: define quanto pode ceder e treina para ceder menos. Os 33 segundos eram o plano, e o plano foi cumprido.
A terceira é sobre derrota. Três segundos lugares e um terceiro poderiam ter virado rótulo de eterno vice, e por anos viraram. Unzué diz que faltava confiança, não perna. A resposta da Movistar foi escolher prioridade: tirar o Tour do calendário e montar a temporada em torno da Vuelta. Derrota é evento, não identidade. O que decidiu este ciclo foi o significado que Mas e a equipe deram aos anteriores.
Três vices até o título: o que separa o talento do campeão
Na Atleta Pro Academy, atletas aprendem a transformar derrota em próximo ciclo, ao lado de gente que compete de verdade.
Foto destacada: Enric Mas de camisa vermelha na 9ª etapa da Vuelta 2026, no Puerto de Tudons (Yannick1 / CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons).






