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Enric Mas herda a Vuelta de Pogacar e encara a semana decisiva

Pelotão da Vuelta a España 2026 na largada em Andorra la Vella, com o líder de camisa vermelha

Havia uma Vuelta a España até a tarde de 29 de agosto e passou a existir outra a partir dali. Nos primeiros sete dias, Tadej Pogacar tinha transformado a prova espanhola em exibição: três vitórias de etapa, a camisa vermelha desde o contrarrelógio inaugural em Mônaco e 3min50 de vantagem sobre o segundo colocado. Na oitava etapa, a 33 quilômetros da chegada em Xeraco, o esloveno atingiu uma pedra na pista, caiu e não conseguiu voltar para a bicicleta.

O diagnóstico encerrou de vez a corrida dele: fratura da clavícula esquerda e fratura da sétima vértebra cervical, a C7. A camisa vermelha passou, por herança, para as costas de Enric Mas. Faltando nove etapas para a chegada em Granada, no dia 13 de setembro, o espanhol da Movistar lidera a prova mais dura do calendário espanhol com 1min18 de vantagem e a chance mais concreta da carreira de ganhar uma grande volta.

A queda que reabriu a corrida

Pogacar chegou à Espanha depois de vencer o quinto Tour de France e liderava a Vuelta com folga desde o primeiro dia. Venceu o contrarrelógio de 9 quilômetros em Mônaco, o circuito de Andorra la Vella e a etapa de Castellón. A queda na oitava etapa, vencida no sprint pelo francês Bryan Coquard, interrompeu o que já parecia decidido.

O esloveno foi levado de ambulância ao hospital e operado da clavícula esquerda, com uma placa fixada por parafusos. A fratura na C7 não apresentou deslocamento e deve consolidar sozinha, sem cirurgia. Ele recebeu alta e voltou para casa, em Mônaco, para começar a reabilitação. A presença no Mundial de estrada, marcado para 27 de setembro em Montreal, ficou em aberto: o chefe da UAE Team Emirates afirmou que a recuperação a tempo “não parece fácil” e que a prioridade agora é a saúde do atleta.

A Atleta Pro já detalhou o abandono e o boletim médico do esloveno e, antes disso, a liderança construída em Andorra.

Enric Mas, da Movistar, em ação durante um contrarrelógio individual
Enric Mas, líder da Vuelta 2026, nunca venceu uma grande volta. Foto: Wikimedia Commons (CC0)

Enric Mas venceu no Aitana e assumiu o comando

Herdar uma camisa por acidente não costuma bastar em três semanas de corrida. Mas fez questão de carimbar a liderança no dia seguinte ao abandono. Na nona etapa, com chegada no Alto de Aitana, o espanhol venceu à frente do britânico Oscar Onley e de Primoz Roglic, no terreno que sempre foi o melhor dele: subida longa e de inclinação constante.

As duas etapas seguintes foram de trégua para a classificação. A décima, entre Alcaraz e Elche de la Sierra, com 184,7 quilômetros, ficou com o francês Bastien Tronchon, da Groupama-FDJ, em 4h07min41, à frente de Magnus Cort e Thibau Nys. Mas cruzou em 36º, com o mesmo tempo. Na 11ª, em Lorca, o britânico Matthew Brennan, da Visma-Lease a Bike, ganhou o sprint sobre Coquard e Jordi Meeus e chegou à terceira vitória de etapa nesta Vuelta.

O peso do que está em jogo é maior do que a diferença no relógio. Mas terminou a Vuelta em segundo lugar três vezes: 2018, 2021 e 2022. Nunca venceu uma grande volta. E a Espanha não tem um campeão de grande volta desde Alberto Contador, na Vuelta de 2014.

Primoz Roglic, da Red Bull-Bora-hansgrohe, no meio do pelotão durante uma etapa
Roglic tem quatro títulos da Vuelta e está a 1min18 da liderança. Foto: Wikimedia Commons (CC0)

Roglic, 36 anos, e o recorde à espreita

O nome que aparece a 1min18 é o pior recado possível para quem lidera. Primoz Roglic tem 36 anos e quatro títulos da Vuelta a España: 2019, 2020, 2021 e 2024. É o recorde da prova, empatado com o espanhol Roberto Heras. Nenhum ciclista em atividade conhece melhor o formato de subidas curtas e explosivas que define a corrida espanhola.

A temporada de 2026 do esloveno da Red Bull-Bora-hansgrohe não foi das melhores, e ele também caiu na primeira semana. Ainda assim, o histórico dele em Vuelta é de quem escala a forma ao longo das três semanas em vez de chegar pronto. Em terceiro está o austríaco Felix Gall, da Decathlon CMA CGM, a 1min39. O equatoriano Richard Carapaz e o colombiano Harold Tejada também aparecem no top 10.

As outras camisas

A disputa por pontos tem dono provisório e sobrenome conhecido: Wout van Aert, da Visma-Lease a Bike, lidera a classificação por pontos com 57 de vantagem sobre o companheiro de equipe Matthew Brennan. A camisa de montanha está com o colombiano Santiago Buitrago, da Bahrain Victorious. A branca de melhor jovem é de Oscar Onley, da Netcompany INEOS, que também briga pelo pódio geral. Na classificação por equipes, a Decathlon CMA CGM lidera com quase 43 minutos de folga.

A edição de 2026 é a 81ª da Vuelta, com 21 etapas e mais de 3.300 quilômetros divididos entre Mônaco, França, Andorra e Espanha. A terceira etapa, entre Gruissan e Font Romeu, foi neutralizada e depois cancelada a cerca de 15 quilômetros do fim por causa de uma tempestade de granizo. Na sétima, vencida pelo norueguês Andreas Leknessund, os corredores da Noruega usaram braçadeiras pretas, um dia depois da morte do rei Harald V.

Pelotão da Vuelta a España 2026 em estrada de montanha nos Pirineus de Andorra
O pelotão da Vuelta 2026 nas montanhas de Andorra, antes da entrada na Andaluzia. Foto: Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Calar Alto e La Pandera decidem a segunda semana

A Andaluzia é onde a liderança de Mas vai ser testada de verdade. Nesta quinta-feira, 3 de setembro, a 12ª etapa liga Vera ao Observatório de Calar Alto, em Almería: 166,6 quilômetros, cinco montanhas pontuadas e mais de 4.500 metros de ganho de altitude. Nos 40 quilômetros finais, o pelotão encadeia Velefique, com 13,1 quilômetros a 7,2% de inclinação média, e Calar Alto, com 16,9 quilômetros a 5,6% até um cume acima dos 2.100 metros.

O segundo teste chega na 14ª etapa, com final na Sierra de la Pandera, subida exposta ao sol e com rampas de até 11% nos três quilômetros derradeiros. Depois do segundo dia de descanso, o roteiro ainda guarda um contrarrelógio de 32 quilômetros, terreno historicamente favorável a Roglic, e duas jornadas de montanha antes da etapa final em Granada, de 99 quilômetros, no dia 13.

Em outras palavras: 1min18 é vantagem, não é segurança. Uma subida de 17 quilômetros basta para virar a Vuelta.

O que isso ensina sobre alta performance

A Vuelta de 2026 já entregou duas lições que valem para quem treina longe do WorldTour.

A primeira é sobre o que está fora do controle do atleta. Pogacar não perdeu a corrida por falta de forma, tática ou treino. Perdeu por causa de uma pedra na pista. Planejamento de temporada que depende de um único evento é planejamento frágil. Atleta amador tende a apostar tudo em uma prova-alvo e trata qualquer imprevisto como fracasso da preparação. A leitura correta é outra: o processo continua servindo mesmo quando o resultado do dia é roubado.

A segunda é sobre o que acontece quando a porta abre. Enric Mas recebeu a liderança sem disputá-la e poderia ter passado a semana apenas se defendendo. Escolheu vencer no Alto de Aitana no dia seguinte, ampliando a vantagem no melhor terreno dele. Oportunidade herdada só vira resultado quando existe base pronta para sustentar a chance. Ele não construiu a forma quando a camisa chegou. Construiu antes, ao longo de meses, e por isso pôde usá-la.

Nove etapas, duas montanhas decisivas e um contrarrelógio separam o espanhol de encerrar 12 anos de jejum do ciclismo do país em grandes voltas.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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