Ashlin Barry comemorou o aniversário de 19 anos de um jeito que ninguém no pelotão previa, nem ele. Na sexta-feira (25), em Montreal, no Canadá, o americano passou cerca de 130 km no ataque, os últimos 30 km completamente sozinho, e cruzou a linha com 53 segundos de vantagem para ganhar a prova de estrada sub-23 do Mundial de Ciclismo.
É a primeira vez que um americano vence a categoria, disputada desde 1996. “Honestamente, não achei que fosse possível. Pensei que, no máximo, conseguiria uma medalha ou um bom resultado”, disse Barry depois da chegada.
Como Ashlin Barry venceu o Mundial sub-23 em Montreal
O percurso não dava descanso. Foram 13 voltas de 13,4 km no circuito do Mont-Royal, 174,2 km no total e 3.497 metros de subida acumulada. Cada volta passava pela Voie Camillien-Houde, subida de 1,67 km com média de 7,4% e trechos de 10%, pelo Chemin de la Polytechnique, com rampas acima de 11%, e pelo falso plano da Avenue du Parc até a linha de chegada.
A fuga que decidiu a corrida se formou na quarta volta, depois de uns 40 km. O eslovaco Samuel Novák atacou, e Barry fez a ponte junto com o australiano William Heffernan, o britânico Mattie Dodd e o dinamarquês Kristian Egholm. No fim da sexta volta, o grupo tinha mais de 2 minutos.
A 75 km do fim, Dodd atacou, a cooperação acabou e Egholm ficou para trás. O dinamarquês se recuperou, voltou ao grupo e acelerou na Camillien-Houde. Só Barry acompanhou, e os dois seguiram juntos na frente. A cerca de 30 km da chegada, com duas voltas pela frente, o americano deixou o dinamarquês para trás.
Os perseguidores chegaram a 20 segundos dele na penúltima subida. No toque do sino, a diferença tinha voltado para 40 segundos. Na linha, eram 53. Barry fechou a prova em 4h17min35s, média de 40,6 km/h num percurso com mais de 3 mil metros de desnível.
O espanhol Héctor Álvarez, bronze no contrarrelógio sub-23 da mesma semana, levou a prata, e o norueguês Jesper Stiansen, o bronze, os dois no mesmo tempo. “O Ashlin simplesmente foi mais forte”, resumiu Álvarez. Nenhum ciclista corria com rádio: a diferença só aparecia a cada passagem pela linha.

O fator aero: o que o contrarrelógio tem a ver com a vitória
A revista americana Velo foi atrás do “como” e chegou a uma palavra: aerodinâmica. Barry faz parte do grupo da perseguição por equipes dos Estados Unidos, na pista, de olho em Los Angeles 2028, e passa boa parte da temporada ajustando a posição no estilo contrarrelógio. No dia 21, quatro dias antes do título, foi quarto no contrarrelógio sub-23 de Montreal. Em 2025, tinha sido vice-campeão mundial júnior da especialidade, em Kigali, por menos de 7 segundos.
O próprio ciclista ligou uma coisa à outra. “Não fiz muito trabalho aerodinâmico na bike de estrada, mas nas últimas semanas treinei muito na bike de contrarrelógio. Entre as subidas, consegui ficar muito eficiente e economizar energia. Isso pode ter feito a diferença no fim”, disse à Velo.
A física explica por que isso pesa tanto. A resistência do ar cresce com o quadrado da velocidade, e a potência necessária para vencê-la cresce com o cubo. Num circuito em que o trecho plano entre as subidas é rápido, o ciclista que corta o vento com menos esforço gasta menos energia na mesma velocidade. E quem persegue precisa de uma potência desproporcional para tirar poucos segundos. A tese da Velo é que o ciclismo de estrada atual, com material e posições cada vez mais rápidos, deixa menos tempo para fechar diferença.
A tática ajudou. Sem rádio, nenhuma seleção quis assumir sozinha a perseguição. A Espanha trouxe a diferença para menos de 30 segundos a 30 km do fim, e não foi o suficiente.
Nada disso estava no roteiro. “Não poderia ter sido mais oposto ao que era o plano”, disse o diretor da seleção americana, Mike Creed, à Escape Collective. Barry confirmou: “Eu não tinha um roteiro. Só tinha uma ideia do que conseguiria fazer. Mas o que eu fiz não foi nada do que eu esperava”.
Quem é Ashlin Barry, filho de medalhista olímpica
Barry nasceu em Girona, na Espanha, em 25 de setembro de 2007, e cresceu em Toronto, no Canadá, onde mora com a família. Tem 1,92 m e dupla cidadania. Representava o Canadá até dois anos atrás, quando passou a correr pelos Estados Unidos, país da mãe, pensando nos Jogos de Los Angeles.
O ciclismo vem de casa. A mãe, Dede Demet-Barry, foi campeã mundial júnior de estrada e medalha de prata no contrarrelógio olímpico de Atenas 2004. Em 2002, venceu a etapa da Copa do Mundo disputada justamente no Mont-Royal, o circuito onde o filho foi campeão. O pai, o canadense Michael Barry, correu três Olimpíadas e se despediu do ciclismo no GP de Montréal de 2012, com Ashlin na beira da estrada. Em 2012, Michael admitiu ter usado doping entre 2003 e 2006, quando corria pela US Postal e pela Discovery, e cumpriu seis meses de suspensão.
Ashlin corre pela equipe de desenvolvimento da Visma-Lease a Bike, que o contratou em dezembro de 2024. Foi a primeira vez que a equipe holandesa assinou com um ciclista tão jovem já com vaga garantida no time principal. Em 2026, ele foi campeão americano sub-23 de estrada, venceu uma etapa do Olympia’s Tour, na Holanda, e já correu pelo time do WorldTour. “Tenho contrato para subir ao time do WorldTour da Visma. Não sei se vai ser no ano que vem ou no seguinte”, contou à Cyclingnews.

Henrique Bravo é o melhor brasileiro, em 19º
O Brasil teve Henrique Bravo no segundo grupo perseguidor. O ciclista da Soudal Quick-Step Devo terminou em 19º, a 1min19s de Barry, com 4h18min54s. Antes da prova, a Cyclingnews tinha apontado Bravo como a melhor chance brasileira de camisa arco-íris na categoria.
O Mundial termina neste domingo (27), com a prova de estrada masculina de elite: 273,7 km e 3.803 metros de subida no mesmo circuito, das 10h às 16h40 no horário de Brasília. Sem Tadej Pogacar, fora da temporada desde a queda na Vuelta, o favoritismo fica com Remco Evenepoel, que ganhou o quarto contrarrelógio seguido na abertura da semana, e com o mexicano Isaac del Toro, vencedor do GP de Montréal.
O que isso ensina sobre alta performance
A vitória de Barry junta três lições que valem para qualquer ciclista, do sub-23 ao amador do fim de semana.
A primeira é que velocidade de graça existe. O watt mais barato é o que não precisa ser produzido. Horas de treino na posição de contrarrelógio viraram, numa prova de estrada com 3.500 metros de subida, energia guardada para os últimos 30 km.
A segunda é o ritmo. Com cerca de 130 km de fuga pela frente, Barry administrou o esforço. “Só tentei não me exceder nem passar do meu limite, e segui forçando, comendo e bebendo o máximo possível”, disse à federação americana. Comer e beber durante mais de quatro horas de esforço é parte da tática, não detalhe.
A terceira é a decisão. O plano da seleção era outro. Quando a corrida abriu uma porta, ele se comprometeu com ela e não olhou para trás. Plano serve para preparar a leitura da prova, e quem corre precisa saber a hora de trocá-lo.
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