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A mentalidade que leva longe no fisiculturismo

Lucas Garcia no centro do palco do prejulgamento da categoria 212 do Mr. Olympia 2026, em Las Vegas

Tem um momento, dentro de toda preparação para o palco, em que a fome aperta, o sono não é suficiente, o corpo dói e a vontade de sair de casa despenca. É exatamente nesse momento, não no dia da competição, que se decide que tipo de atleta alguém vai ser. Já acompanhei de perto essa fase com muitos atletas de fisiculturismo, assim como foi com o Lucas Garcia, atual TOP 2 da 212 do Olympia, e posso garantir: o que separa quem chega inteiro ao palco de quem chega sobrevivendo não é só a dieta, nem o protocolo de treino. É a cabeça que ele carrega durante os meses de preparação, muito antes de qualquer holofote.

Lucas Garcia no centro do palco do prejulgamento da categoria 212 do Mr. Olympia 2026, em Las Vegas
Lucas Garcia (centro) no prejulgamento da 212 do Olympia 2026. Foto: reprodução/Generation Iron

Vale ser honesto sobre isso: fisiculturismo de alto nível é sacrifício real. Restrição calórica prolongada, rotina rígida, oscilação de humor, isolamento social que aparece quase sem perceber. Ninguém que já passou por uma prep de verdade vai dizer que é fácil. A diferença não está em fingir que não pesa: está em decidir o que fazer com esse peso.

1. Saia da caverna

Um dos erros mentais mais comuns na preparação é o atleta se trancar. Cancela compromissos, se afasta de amigos, corta conversas, vira o “monge da dieta”, e chama isso de foco. Só que isolamento prolongado não é disciplina, é fuga. Ele tira o atleta do contato com a vida real, com as pessoas que sustentam ele emocionalmente, e transforma a prep num túnel sem luz, onde cada semana parece mais pesada que a anterior. Sair da caverna significa continuar presente: ir ao aniversário, sentar à mesa com a família mesmo levando a marmita, manter as conversas que não têm nada a ver com macros. A preparação física não pode custar a vida social e emocional do atleta, porque é exatamente essa vida que dá sustentação para ele aguentar a preparação.

2. A competição diária

O erro de enquadramento mais caro no fisiculturismo é tratar a competição como um evento único, distante, no fim de um túnel de meses. Isso transforma cada dia da prep em “só mais um dia de espera”, e espera cansa, esvazia, pesa. A virada de chave é entender que a competição já está acontecendo, todos os dias: contra a preguiça de acordar mais cedo para o cardio, contra a vontade de pular uma refeição, contra o cansaço que pede uma desculpa fácil. Cada dia em que o atleta cumpre o que prometeu a si mesmo é uma competição vencida, e ele não precisa esperar o palco para saber se está ganhando. Essa é a mentalidade do Lucas: a preparação de 2027 começou no dia seguinte do palco de 2026, o placar de hoje já foi fechado antes de dormir.

Os cinco primeiros da categoria 212 do Mr. Olympia 2026 com as medalhas no palco, Lucas Garcia em segundo a partir da esquerda
O top 5 da 212 no Olympia 2026, com Lucas Garcia de prata. Foto: reprodução/transmissão Olympia

3. Ninguém te obrigou, e isso é o ponto

Ninguém empurrou nenhum fisiculturista para cima de um palco. Foi escolha. E é exatamente aí que mora a força mental que separa quem vai longe de quem desiste no meio: quando a dificuldade é fruto de uma escolha própria, reclamar dela é uma contradição. O sacrifício não é uma imposição externa que o atleta precisa suportar: é o preço de algo que ele mesmo decidiu que queria construir. Reconhecer isso todos os dias muda completamente a relação emocional com a fome, com o cansaço, com a rotina apertada: eles deixam de ser um fardo imposto e passam a ser a prova concreta de que o atleta está indo atrás do que escolheu.

4. Honrar e aproveitar até os momentos mais difíceis

A parte mais avançada dessa mentalidade não é só aguentar a dificuldade: é encontrar sentido dentro dela. Aproveitar não significa que a fome vai parar de incomodar ou que o cansaço vai deixar de existir; significa que o atleta escolhe atravessar esses momentos com presença, em vez de contar os dias com ressentimento. É a diferença entre “faltam 40 dias pra essa tortura acabar” e “estou vivendo o processo que escolhi, com tudo que ele exige de mim, hoje”. Esse segundo estado de espírito não é ingenuidade: é a versão mais madura de encarar um objetivo que a pessoa mesma decidiu perseguir.

Lucas Garcia com a medalha de prata da categoria 212 do Mr. Olympia 2026 nos bastidores, em Las Vegas
Lucas Garcia com a prata da 212 nos bastidores do Olympia 2026. Foto: reprodução/BRA 1

5. Vencer é o processo. O palco é consequência.

Se a identidade do atleta depende do resultado do julgamento no palco, ele vive meses inteiros como devedor de uma resposta que só vem no fim. Se a identidade dele está em ter honrado cada dia da preparação (o cardio que fez mesmo cansado, o jantar que não pulou, a saída social que manteve sem sabotar a dieta), então a vitória já aconteceu repetidas vezes antes de qualquer avaliação de banca. O resultado no palco, seja qual for, é consequência de um processo que já foi, em si, uma sequência de vitórias diárias. É essa mentalidade que vejo sustentando o trabalho do Lucas Garcia: ele não está esperando o palco para saber se está vencendo. Ele já sabe, porque decide isso todos os dias.

Leia também: Lucas Garcia é vice no Mr. Olympia 2026 e sobe um degrau na 212 · Lucas Garcia, o engenheiro que virou top 3 do Olympia: a arte de falhar

Perguntas frequentes

Qual é o erro mental mais comum na preparação para o fisiculturismo?

Se isolar. O atleta cancela compromissos, se afasta dos amigos, vira o “monge da dieta” e chama isso de foco. Isolamento prolongado não é disciplina, é fuga: tira o atleta do contato com as pessoas que o sustentam emocionalmente e deixa cada semana da prep mais pesada.

Como manter a cabeça durante a prep de fisiculturismo?

Tratando a competição como algo que acontece todos os dias, e não só no palco. Cada dia em que o atleta cumpre o que prometeu a si mesmo (o cardio, a refeição, a rotina) é uma competição vencida, e isso tira da prep a sensação de espera que cansa e esvazia.

Por que a preparação não deve custar a vida social do atleta?

Porque é justamente a vida social e emocional que dá sustentação para o atleta aguentar a preparação. Continuar presente, indo ao aniversário e sentando à mesa com a família mesmo com a marmita, protege a cabeça durante meses de restrição.

O resultado no palco define o fisiculturista?

Não. Se a identidade depende do julgamento da banca, o atleta vive meses como devedor de uma resposta que só vem no fim. Quando a identidade está em honrar cada dia da preparação, a vitória já aconteceu muitas vezes antes do palco, e o resultado vira consequência.

Quem é Lucas Garcia?

Fisiculturista brasileiro da categoria 212, atual top 2 do Olympia. Ele trabalha a preparação mental com o treinador Nicholas Pasqualetto, e a mentalidade dele é tratar cada dia da prep como uma competição: a preparação de 2027 começou no dia seguinte ao palco de 2026.

Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.

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