Kei Nishikori jogou a última partida da carreira nesta quinta-feira (1º), em Tóquio, no mesmo torneio que venceu em 2012 e 2014. O japonês de 36 anos perdeu para o americano Frances Tiafoe, cabeça de chave 2, por 6/4 e 6/4, na primeira rodada do ATP 500 do Japão, e deixou a quadra do Ariake Coliseum aplaudido de pé.
Ele sai como o tenista masculino mais bem-sucedido da história do Japão: número 4 do mundo em 2015, 12 títulos de ATP, finalista do US Open de 2014 e bronze olímpico no Rio. Sai também com uma das estatísticas mais raras do circuito, a de quem quase sempre vencia quando o jogo chegava ao set decisivo. O adversário que ele não conseguiu derrotar foi o próprio corpo: foram cirurgias no cotovelo, no pé e no quadril.

O último jogo: 6/4 e 6/4 no Ariake Coliseum
Nishikori anunciou em abril que 2026 seria a última temporada dele no circuito. Em junho, a organização do Japan Open confirmou que a despedida seria em casa. Foi a 12ª participação dele no torneio, onde chegou com 24 vitórias e 9 derrotas.
O sorteio colocou do outro lado da rede o segundo favorito da chave. Tiafoe fechou em dois sets, mas não teve vida fácil: o japonês, hoje 436º do ranking, segurou o americano até o fim e o obrigou a trabalhar no game em que sacou para fechar a partida.
Depois do último ponto, a organização exibiu um vídeo de homenagem com mensagens de grandes nomes do circuito, entre eles Novak Djokovic. Ainda na quadra, Nishikori abraçou a esposa, que também chorava, a família e a equipe que o acompanhou por anos.
“Fui tomado por uma sensação de perda”
Na entrevista depois do jogo, Nishikori admitiu que não esperava se emocionar. “Antes da partida, eu não imaginava que fosse chorar. Mas no momento em que o jogo terminou, fui tomado por uma sensação de perda”, disse.
A frase seguinte resume a fase final da carreira: “Ainda estou frustrado com o jeito como termino a carreira. Ao mesmo tempo, sinto que dei tudo.” Ao público, agradeceu: “Terminei meu último jogo no Japão, foi um grande momento para mim. Obrigado por apoiar minha carreira de quase 20 anos.”
Na véspera do início do torneio, ele já tinha dito ao site da ATP que vivia sentimentos misturados. “Estou animado por jogar no Japão. Mas também sei que este é o meu último momento.”
De Matsue para a Flórida aos 14 anos
Nascido em Matsue, na província de Shimane, em 29 de dezembro de 1989, Nishikori começou a jogar aos 5 anos. Aos 14, se mudou para a IMG Academy, em Bradenton, na Flórida, sem falar inglês. Virou profissional em 2007.
O primeiro título veio cedo. Em 2008, aos 18 anos, ele saiu do qualifying como 244º do mundo e venceu o ATP de Delray Beach, batendo o americano James Blake na final por 3/6, 6/1 e 6/4. Foi o primeiro título de ATP de um japonês em 16 anos.
O Japão tinha uma meta declarada para ele: superar Shuzo Matsuoka como o homem mais bem colocado do país na história do ranking. Nishikori fez isso em outubro de 2011, quando a semifinal do Masters de Xangai o levou ao 30º lugar. Mais tarde, seria o primeiro homem do país a entrar no top 10.
2014: a final do US Open três semanas depois de uma cirurgia
A melhor temporada veio em 2014, o primeiro ano com Michael Chang, campeão de Roland Garros em 1989, na equipe técnica. Foram 54 vitórias, 14 derrotas e quatro títulos.
O US Open daquele ano quase não aconteceu para ele. Em 4 de agosto, Nishikori operou o pé direito para retirar um cisto, a três semanas do início do torneio, e chegou a Nova York como dúvida. Nas oitavas, venceu o canadense Milos Raonic em 4h19 de jogo, numa partida que terminou às 2h26 da madrugada e igualou o encerramento mais tardio da história do torneio até então. A marca hoje é bem mais tarde: em 2026, Shelton e Alcaraz terminaram às 3h33.
Nas quartas, Nishikori bateu o suíço Stan Wawrinka, cabeça de chave 3, por 3/6, 7/5, 7/6 (7), 6/7 (5) e 6/4. Na semifinal, derrubou o número 1 do mundo, Novak Djokovic, em quatro sets.
Era a primeira vez que um homem asiático chegava a uma final de Grand Slam em simples. Na decisão, perdeu para o croata Marin Cilic por 6/3, 6/3 e 6/3. Semanas depois, ganhou Tóquio pela segunda vez. Em março de 2015, chegou ao 4º lugar do ranking, a melhor posição de um asiático na história do circuito masculino.

O rei do set decisivo
Com 1,78 m e sem um saque que decidisse pontos sozinho, Nishikori compensava com velocidade, antecipação e a capacidade de redirecionar a bola. O que mais chamava atenção, porém, era o que acontecia quando a partida apertava.
Segundo a ATP, ele venceu 72,5% dos sets decisivos que disputou na carreira (158 vitórias e 60 derrotas), a terceira melhor marca da história. Em quintos sets, o aproveitamento foi de 78,4% (29 vitórias e 8 derrotas).
Foi nesse tipo de jogo que nasceu a medalha de bronze dos Jogos do Rio, em 2016. Na disputa do terceiro lugar, ele derrotou Rafael Nadal por 6/2, 6/7 (1) e 6/3 e deu ao Japão a primeira medalha olímpica no tênis em 96 anos.
Kei Nishikori em números
| Marca | Número |
|---|---|
| Títulos de ATP | 12 (mais 15 vice-campeonatos) |
| Vitórias no circuito | 452 |
| Melhor ranking | 4º do mundo (março de 2015) |
| Sets decisivos | 158 vitórias e 60 derrotas (72,5%) |
| Quintos sets | 29 vitórias e 8 derrotas (78,4%) |
| Vitórias sobre o Big Three | 7 (Federer 3, Nadal 2, Djokovic 2) |
| ATP Finals | 4 participações, 2 semifinais |
| Grand Slam | Final do US Open 2014 |
| Olimpíadas | Bronze no Rio 2016 |
| Premiação na carreira | Mais de US$ 26 milhões |
| Último título | Brisbane, 2019 |
O corpo cobrou a conta
Se o placar apertado raramente intimidava Nishikori, o físico o tirou de quadra várias vezes. Em 2009, aos 19 anos, ele operou o cotovelo direito. Em agosto de 2017, uma lesão no tendão do punho direito encerrou a temporada dele. Em outubro de 2019, veio nova cirurgia no cotovelo, seguida por testes positivos de covid que o mantiveram longe do circuito até setembro de 2020.
A fase mais dura começou em janeiro de 2022, com uma cirurgia artroscópica no quadril esquerdo. Ele perdeu a temporada inteira e, quando se preparava para voltar, machucou o tornozelo no treino. Depois vieram problemas no tornozelo direito e no joelho esquerdo em 2023, além de uma lesão na virilha e dores no ombro em 2024.
Mesmo assim, voltou. Em agosto de 2024, chegou às quartas de final do Masters 1000 de Montreal, as primeiras nesse nível em cinco anos, e foi indicado ao prêmio de retorno do ano da ATP. Em janeiro de 2025, aos 35 anos, alcançou a final em Hong Kong.
“Eu me acostumei com a jornada, com a luta”, disse ele ao site da ATP em 2025. “Você tem que tentar ter paciência, senão fica muito difícil.” O ombro voltou a incomodar depois do torneio de Houston, naquele mesmo ano, e o ranking caiu até o 436º lugar com que ele se despediu.

As homenagens
Djokovic, derrotado por Nishikori naquela semifinal de 2014, destacou a “resiliência e o espírito de luta” do japonês. “Seu trabalho duro depois das lesões e das adversidades é realmente admirável”, disse o sérvio na mensagem de despedida.
Rafael Nadal escreveu que “sempre foi um prazer dividir a quadra” com ele. O australiano Alex de Minaur o chamou de “lenda absoluta” e elogiou a esquerda de duas mãos. O grego Stefanos Tsitsipas escreveu em japonês que o “estilo de jogo único” de Nishikori trouxe “enorme orgulho e emoção ao Japão”. Carlos Alcaraz, Grigor Dimitrov e Andy Murray também deixaram mensagens.
Tóquio segue com Alcaraz
Sem o anfitrião, o ATP 500 de Tóquio vai até 6 de outubro. Carlos Alcaraz, cabeça 1 e atual campeão, estreou com vitória sobre o americano Alex Michelsen por 7/6 (1), 4/6 e 6/1 e chegou a seis vitórias em seis jogos no Ariake Coliseum. Na mesma semana, em Pequim, Djokovic chegou a 30 vitórias sem derrota no China Open.
No Brasil, o torneio passa na ESPN e no Disney+, sem opção em TV aberta. Por causa das 12 horas de fuso, os jogos caem de madrugada e no início da manhã. O guia completo está em onde assistir ao ATP 500 de Tóquio.
O que Nishikori ensina sobre alta performance
Set decisivo se ganha antes dele começar. Vencer 72,5% dos sets decisivos ao longo de quase duas décadas não é sorte de um dia bom. É a soma de preparo físico para chegar inteiro ao fim, rotina para não acelerar quando o placar aperta e repertório para mudar o plano no meio do jogo. Quem só treina o golpe bonito perde o terceiro set.
A aposta começa cedo e custa caro. Sair de casa aos 14 anos, sem falar a língua do país, foi a escolha que o colocou no nível do circuito. Toda carreira de ponta tem uma fase em que o atleta troca conforto por ambiente, e o ambiente certo encurta anos de caminho.
O corpo é parte do plano, não um detalhe. Cirurgias no cotovelo, no pé e no quadril e uma lista longa de lesões tiraram de Nishikori temporadas inteiras. Alta performance que dura é a que respeita carga, recuperação e sinais de alerta. Como mostrou o caso de Bia Haddad e João Fonseca, cuidar do atleta inteiro é o que mantém a carreira de pé.
O último resultado não define a carreira. Nishikori se despediu com uma derrota e admitiu a frustração. Ao mesmo tempo, disse que deu tudo. O 6/4 e 6/4 contra Tiafoe é só uma linha na estatística. A final de 2014, o bronze no Rio e o caminho que ele abriu para o tênis asiático ficam.
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