Diogo Moreira cruzou a linha de chegada da corrida sprint do GP do Japão em quarto lugar, a 0s246 de Enea Bastianini. Minutos depois, a direção de prova puniu Jorge Martín e Bastianini por exceder os limites da pista na última volta, e o brasileiro da LCR Honda foi promovido ao segundo lugar, atrás de Marc Márquez. Foi o primeiro pódio de Moreira na MotoGP, no sábado (3), em Motegi.
O resultado encerrou um jejum de 19 anos: nenhum brasileiro subia ao pódio da classe principal do Mundial de Motovelocidade desde Alex Barros, terceiro no GP da Itália de 2007. No domingo (4), Moreira caiu sozinho na nona volta da corrida principal, quando era o oitavo, e não pontuou. Márquez venceu as duas provas do fim de semana e chegou a dois pontos de Martín na briga pelo título.

Como o pódio veio: a última volta e a pintura verde da curva 10
A sprint de Motegi teve 12 voltas, metade da distância da corrida de domingo. Moreira largou em nono, posição conquistada no Q2 com 1min42s916, dois milésimos à frente do companheiro de equipe, Johann Zarco. A pole ficou com Martín, que bateu o recorde da pista com 1min42s371.
A corrida mudou na primeira volta. Na curva 3, Álex Márquez tocou em Pedro Acosta e Fabio Di Giannantonio, e os três foram ao chão. O espanhol da Gresini foi considerado responsável e recebeu duas voltas longas de punição para cumprir no domingo. A volta longa é um desvio mais extenso numa área marcada da pista, que custa alguns segundos ao piloto.
Com o acidente, Moreira ganhou posições e passou a andar no grupo que brigava pelo pódio, ao lado de Bastianini, Marco Bezzecchi e Ai Ogura. Numa mesma manobra, passou Ogura e Bezzecchi, que disputavam posição entre si, e assumiu o quarto lugar. Nas voltas finais, Martín perdeu aderência no pneu traseiro e o brasileiro se aproximou da dupla à frente.
Na última volta, Martín e Bastianini disputavam o segundo lugar e os dois tocaram a pintura verde na saída da curva 10, que leva à reta oposta. Pelo regulamento, qualquer infração de limite de pista na última volta custa uma posição automaticamente. Martín foi rebaixado para terceiro e Bastianini, para quarto. Na pista, a diferença entre os três tinha sido de menos de três décimos.
Os dois punidos reagiram de formas diferentes. “Estou um pouco bravo comigo mesmo por ter tocado no verde, porque no fim era uma posição livre, que era minha”, disse Martín, segundo o Motorsport.com. Bastianini contestou: “Acho um pouco injusto, porque não ganhei vantagem nenhuma.”
O resultado oficial da sprint ficou assim:
| Pos. | Piloto | Equipe | Diferença |
|---|---|---|---|
| 1º | Marc Márquez | Ducati Lenovo | 20min50s376 |
| 2º | Diogo Moreira | LCR Honda | +2s754 |
| 3º | Jorge Martín | Aprilia Racing | +2s466 (punido em uma posição) |
| 4º | Enea Bastianini | Tech3 KTM | +2s508 (punido em uma posição) |
| 5º | Ai Ogura | Trackhouse Aprilia | +5s992 |
| 6º | Marco Bezzecchi | Aprilia Racing | +6s984 |
| 7º | Johann Zarco | LCR Honda | +8s088 |
Os nove pontos do segundo lugar foram a maior pontuação de Moreira num sábado em 2026. Antes, o melhor resultado dele em sprint tinha sido o sétimo lugar, na Hungria e em Aragão.
19 anos depois de Alex Barros
O último brasileiro no pódio da classe rainha tinha sido Alex Barros, terceiro colocado no GP da Itália de 2007, em Mugello, com a Ducati da equipe Pramac d’Antin, atrás de Valentino Rossi e Dani Pedrosa. Barros deixou a MotoGP no fim daquela temporada, e o Brasil passou 18 anos sem piloto no grid até a chegada de Moreira, em 2026.
Há duas marcas novas no resultado de Motegi. Moreira é o primeiro brasileiro a subir ao pódio de uma corrida sprint, formato que a MotoGP adotou em 2023. E deu à Honda o primeiro pódio da fabricante em 2026: em 16 etapas, nenhum piloto da marca japonesa tinha terminado entre os três primeiros, nem no sábado nem no domingo. O pódio veio na pista que pertence à própria Honda, no GP de casa da fabricante.
Moreira comemorou no Instagram ainda no sábado, com a legenda “First sprint podium in motogp” (“primeiro pódio de sprint na MotoGP”) e um recado em português: “Nos vemos amanhã”.
Veja a publicação de Diogo Moreira sobre o primeiro pódio na MotoGP
“Não é um resultado de verdade”: o que Moreira disse
O brasileiro foi o primeiro a colocar o pódio em perspectiva. “Sei que não é um resultado de verdade. Hoje eu tive sorte, mas de qualquer forma estou super feliz. Um pódio na MotoGP é incrível”, disse, no comunicado da Honda. “Na última volta eu estava ali. Com mais uma volta, eu poderia ter conseguido. Depois de cruzar a linha, percebi que estava no pódio. Para mim, para a equipe e para a Honda, isso é muito importante.”
Aos jornalistas, citou o acidente da primeira volta como parte da sorte. “Volta a volta eu fui me sentindo mais confortável, fui forçando mais, e a moto estava lá”, afirmou, segundo o Motorsport.com. “Na última volta, vi que eles tocaram no verde e naquele momento percebi que estava no pódio.”
E já projetou o domingo sem euforia: “O ritmo hoje foi bom. É como eu disse, não é um resultado de verdade. Amanhã vamos brigar pelo top 8 ou top 6.”

Domingo: queda na curva 9 quando era o oitavo
Na corrida de 24 voltas, Moreira largou outra vez em nono. Perdeu uma posição para Francesco Bagnaia na primeira volta, recuperou o lugar logo em seguida e, na volta 7, subiu para oitavo, aproveitando as voltas longas cumpridas por Álex Márquez. O ritmo acompanhava o do sábado: as voltas dele caíram de 1min44s9 para 1min43s945 na oitava passagem.
Na nona volta, o brasileiro perdeu o controle da Honda na curva 9 e foi parar na brita, sem envolver outro piloto. Abandonou ali. A LCR informou pelas redes sociais que ele saiu bem da queda. O próprio Moreira resumiu o domingo no Instagram poucas horas depois: “Caí hoje! Desculpa, equipe! Semana que vem tem outra corrida!”
O domingo também foi ruim para o restante da LCR. Zarco largou com duas voltas longas de punição, aplicadas porque tentou religar a moto na pista durante o warm-up, caiu na volta 20, voltou à prova e terminou em 20º, duas voltas atrás. O melhor piloto da Honda foi Luca Marini, em décimo.
Márquez vence as duas e deixa o título a dois pontos
À frente, o fim de semana foi de Marc Márquez. No domingo, Martín largou da pole e liderou as dez primeiras voltas, até o piloto da Ducati passar por dentro na curva 9, na volta 11. A partir dali, Márquez abriu cerca de um segundo e venceu com 1s363 de vantagem. Bezzecchi completou o pódio, 0s078 à frente de Bastianini.
Foi a sexta vitória de Márquez em corridas de domingo em 2026. Com 37 pontos no fim de semana, contra 27 de Martín, o espanhol cortou a diferença de 12 para 2 pontos. Márquez ainda não é campeão e a decisão segue aberta, com uma vantagem no critério de desempate: em caso de empate em pontos, vale o número de vitórias em GPs, e aí o placar é de 6 a 1 a favor dele.
A classificação do Mundial depois do GP do Japão, segundo os números oficiais da MotoGP:
| Pos. | Piloto | Equipe | Pontos |
|---|---|---|---|
| 1º | Jorge Martín | Aprilia Racing | 333 |
| 2º | Marc Márquez | Ducati Lenovo | 331 |
| 3º | Marco Bezzecchi | Aprilia Racing | 284 |
| 4º | Pedro Acosta | Red Bull KTM | 243 |
| 5º | Ai Ogura | Trackhouse | 237 |
| 14º | Diogo Moreira | LCR Honda | 74 |
Restam seis etapas: Indonésia, Austrália, Malásia, Catar, Portugal e Valência. Cada fim de semana distribui até 37 pontos para quem vence sprint e corrida. A prévia do Atleta Pro mostrou como Martín e Márquez chegavam a Motegi, com o espanhol da Aprilia 12 pontos à frente. Acosta, que tinha vencido na Áustria, foi sétimo no domingo depois de cair na sprint.
Onde Moreira está no campeonato
O abandono não mudou a posição de Moreira. O brasileiro segue em 14º, com 74 pontos, oito à frente de Fabio Quartararo, da Yamaha. Entre os pilotos da Honda, só Luca Marini, com 104, tem mais pontos que ele. Zarco, companheiro de LCR, soma 48.
Na disputa de melhor estreante do ano, a vantagem é ampla. Moreira tem 56 pontos a mais que o turco Toprak Razgatlioglu, tricampeão do Mundial de Superbike, que estreia na MotoGP pela Pramac Yamaha e soma 18. O melhor resultado do brasileiro numa corrida de domingo continua sendo o sexto lugar no GP da Hungria, em junho. O guia de pilotos da MotoGP 2026 mostra o grid completo e onde a LCR se encaixa entre as equipes.
Próxima etapa: GP da Indonésia, em Mandalika
A MotoGP volta à pista na semana seguinte, de 9 a 11 de outubro, no circuito de Mandalika, na Indonésia. É uma pista boa de lembrar para Moreira: foi lá que ele venceu na Moto2 em 2025, uma das quatro vitórias do ano em que foi campeão mundial da categoria.
A Indonésia está 11 horas à frente de Brasília. Os horários oficiais, convertidos:
- Classificação: sexta-feira (9), Q1 às 23h50, e sábado (10), Q2 à 0h15
- Corrida sprint: sábado (10), às 4h
- Corrida da MotoGP: domingo (11), às 4h
A ESPN tem os direitos do Mundial de Motovelocidade no Brasil em 2026, e as etapas passam na ESPN 4 e no Disney+. A alternativa oficial é o MotoGP VideoPass. Canais, narração e preços estão no guia de onde assistir à MotoGP em 2026.
O que Motegi ensina sobre alta performance
Moreira tratou o pódio de sábado com a mesma régua que aplicou à queda de domingo. Chamou o segundo lugar de “não é um resultado de verdade”, reconheceu que a sorte pesou e apontou o que de fato era dele: o ritmo, que foi melhorando volta a volta até alcançar o grupo da frente. No domingo, não culpou pneu, pista nem moto. Escreveu “desculpa, equipe” e olhou para a próxima corrida.
É o comportamento que separa estreante que evolui de estreante que oscila. Um pódio herdado não vira identidade, e uma queda também não. O que fica de Motegi, para o atleta de qualquer modalidade, é o dado que se repete: em 16 etapas, Moreira é o único piloto da Honda a ter subido ao pódio em 2026, numa moto que ninguém mais levou até lá. Processo mais tempo continua sendo igual a resultado, e a próxima chance é em uma semana.
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