Pela primeira vez desde 2019, homens e mulheres profissionais disputam o Mundial de Ironman no mesmo dia em Kona, no Havaí. A largada é neste sábado, 10 de outubro, no píer de Kailua, para 3,8 km de natação no mar, 180 km de bicicleta entre campos de lava e uma maratona de 42,2 km no calor da ilha.
O masculino chega sem o campeão. O norueguês Casper Stornes, vencedor em Nice no ano passado com 7h51min39s, quebrou a clavícula e uma vértebra num treino no Havaí e não larga. No feminino, a também norueguesa Solveig Løvseth defende o título conquistado em Kona em 2025, com 8h28min27s, diante de três ex-campeãs mundiais, da recordista da maratona do percurso e da tetracampeã mundial de 70.3.
Horário de Brasília e onde assistir
Os profissionais largam às 6h20 no horário do Havaí, e as profissionais, dez minutos depois. O Havaí está sete horas atrás de Brasília e não adota horário de verão, então a programação de sábado fica assim:
- Elite masculina: 6h20 no Havaí, 13h20 de Brasília.
- Elite feminina: 6h30 no Havaí, 13h30 de Brasília.
- Faixas etárias: a partir das 6h38 no Havaí, 13h38 de Brasília.
Pelo ritmo dos recordes do percurso, o campeão deve cruzar a linha por volta das 21h de Brasília, e a campeã, perto das 22h. O sinal oficial é gratuito, no canal da Ironman no YouTube e no site da Ironman Pro Series, com narração em inglês. Desde 2025, a Ironman também tem acordo com a ESPN para exibir a Pro Series, Mundial incluído, no Disney+ na América Latina e no Caribe. Os detalhes estão no guia onde assistir ao Ironman Kona 2026.
Kona volta a ser um dia só
Desde a pandemia, o Mundial andou dividido. Em 2022, homens e mulheres correram em Kona em dias diferentes. De 2023 a 2025, os títulos se alternaram entre o Havaí e Nice, na França. Em abril de 2025, a Ironman anunciou a volta ao formato de um dia, que segundo a empresa era o preferido da comunidade.
A edição reúne 2.548 triatletas de 85 países, 110 deles profissionais. “Kona é o auge do esporte, e é onde as pessoas querem estar”, disse Diana Bertsch, vice-presidente sênior da Ironman, à imprensa havaiana.
O dia único trouxe uma regra nova. Pela primeira vez em Kona, a distância mínima entre bicicletas é de 20 metros, e não mais de 12. Segundo o analista Thorsten Radde, da revista Triathlete, a mudança dificulta os grandes pelotões no começo do ciclismo masculino e deve deixar o ritmo mais irregular.
O percurso: mar, lava, vento e calor
A natação é um vaivém de 3,8 km na baía de Kailua. O ciclismo sai da cidade pela rodovia Queen Ka’ahumanu, a Queen K, atravessa os campos de lava e sobe até o retorno em Hawi, no norte da ilha, antes de voltar a Kona. A maratona segue pela Queen K até o Energy Lab, trecho sem sombra e sem brisa do mar, e termina na Ali’i Drive.

O vento é o adversário do pedal. No trecho entre Kawaihae e Hawi sopram os mumuku, rajadas cruzadas que os moradores conhecem bem e que chegam a empurrar a bicicleta para o lado. As palmeiras de Waikoloa, por volta do km 48, funcionam como medidor não oficial: se estão inclinadas, o vento está forte, e ele costuma aumentar ao longo da manhã.
O calor completa o quadro. Em 2025, com a temperatura perto de 32 °C em Kailua-Kona, as duas líderes da prova feminina abandonaram na maratona.
Masculino: sem Stornes, quatro ex-campeões na largada
Stornes caiu na quinta-feira, 24 de setembro, num treino ao lado do compatriota Gustav Iden, com a ilha sob os ventos do furacão Nolo, que passava ao sul do Havaí. “Aparentemente, uma tempestade está chegando à ilha, e eu dei azar: veio uma rajada forte na roda da frente, ela torceu, eu perdi o controle da bicicleta e voei por cima do guidão”, contou num vídeo no Instagram. Quebrou a clavícula e fraturou a terceira vértebra lombar. A queda está contada em Casper Stornes cai no Havaí e perde a defesa do título em Kona.
Mesmo sem o campeão, a largada tem quatro ex-campeões mundiais com seis títulos somados: o alemão Patrick Lange (2017, 2018 e 2024), o norueguês Gustav Iden (2022), o também norueguês Kristian Blummenfelt (campeão na edição disputada em St. George, nos Estados Unidos, em 2022) e o francês Sam Laidlow (2023, em Nice). Os favoritos, porém, saem da temporada de 2026.
Sam Laidlow está invicto em quatro provas no ano. Em julho, venceu o Challenge Roth, na Alemanha, com 7h21min04s, a melhor marca já registrada na distância, 20 segundos abaixo do tempo que Blummenfelt tinha feito no Ironman Texas, em abril. A estratégia do francês é conhecida: abrir vantagem na bicicleta e segurar na corrida. Em Kona, ela nunca fechou a conta. Em 2022, ele chegou à segunda transição com mais de seis minutos de frente e foi alcançado por Iden nos quilômetros finais. Em 2024, desceu da bicicleta com quase oito minutos sobre o grupo principal e terminou em 18º.
Kristian Blummenfelt, campeão olímpico em Tóquio, venceu o 70.3 de Oceanside e o Ironman Texas, com 7h21min24s, e foi segundo no Mundial de 70.3, em setembro, em Nice, 18 segundos atrás do neozelandês Hayden Wilde. Em Roth, correu a maratona em 2h29 e mesmo assim não alcançou Laidlow, que tinha descido da bicicleta quase 13 minutos à frente.

Marten Van Riel, belga, ganhou o Ironman Lake Placid em julho com 7h41min57s, mais de oito minutos abaixo do recorde da prova, na primeira vitória dele na distância. Antes, tinha sido segundo no Texas. Gustav Iden, campeão de 2022 e dono do recorde da maratona de Kona (2h36min14s), foi segundo em Frankfurt, atrás de Stornes, e quarto no Mundial de 70.3.
Lange, aos 40 anos, faz a última prova em Kona: vai se aposentar no Challenge Roth de 2027. Dono do recorde do percurso, 7h35min53s em 2024, segue entre os melhores corredores do pelotão, mas tem perdido tempo demais na bicicleta, segundo a Triathlete. Há dois anos, também chegou fora da lista de favoritos e saiu com o terceiro título. O dinamarquês Magnus Ditlev, vice em 2024, completa a lista.
Feminino: Løvseth defende o título contra quatro rivais
Løvseth venceu Kona em 2025 na terceira prova de Ironman da carreira e na estreia em Mundiais. Começou a maratona quase seis minutos atrás da americana Taylor Knibb, assumiu a ponta quando Knibb desabou a cerca de 2,5 km da chegada e segurou a britânica Kat Matthews por 35 segundos. “Sinto muito pela Taylor e pela Lucy. Não é o jeito que eu queria passar nenhuma das duas”, disse depois da prova.
Em 2026, a norueguesa venceu o Ironman Texas, em abril, com 8h11min09s, e o Ironman Hamburgo, em junho, com 8h11min11s, prova que valeu o título europeu. Foi quarta no Mundial de 70.3, em setembro. As principais adversárias:
- Kat Matthews (Grã-Bretanha): vice-campeã mundial em 2022, 2024 e 2025 e dona do recorde da maratona feminina em Kona, 2h47min23s, feito no ano passado. Em março, venceu o Ironman Nova Zelândia com 8h28min55s, recorde da prova.
- Laura Philipp (Alemanha): campeã mundial em 2024, em Nice, e terceira em Kona em 2025. Foi segunda em Hamburgo, 1min18s atrás de Løvseth, e em agosto venceu o Ironman Kalmar, na Suécia, com 8h13min37s e 18 minutos de vantagem.
- Lucy Charles-Barclay (Grã-Bretanha): campeã em 2023, com o recorde do percurso (8h24min31s), e quatro vezes vice. Saiu da água em primeiro em todas as seis largadas em Kona. Em 2025, liderou parte da maratona e abandonou no Energy Lab, a cerca de 15 km da chegada. Neste ano, voltou de uma cirurgia no tendão para vencer o Ironman Lanzarote pela terceira vez.
- Taylor Knibb (Estados Unidos): conquistou em 12 de setembro, em Nice, o quarto título mundial de 70.3, com 4h19min24s, recorde do percurso e mais de quatro minutos de vantagem. Em Kona, liderou boa parte da maratona de 2025 até desabar no fim.
O roteiro esperado repete o de 2025: Charles-Barclay e Knibb tentam abrir vantagem na natação e na bicicleta, e Løvseth, Matthews e Philipp apostam na corrida. A canadense Paula Findlay, que venceu o Ironman Lake Placid na estreia na distância, é a novata a observar.
Brasil em Kona: Pâmella Oliveira e 95 amadores
Pâmella Oliveira é a única brasileira entre os profissionais, somando homens e mulheres. Atleta olímpica em Londres 2012 e no Rio 2016 e tetracampeã do Ironman Brasil, de 2022 a 2025, ela garantiu a vaga com o segundo lugar no Ironman Brasil deste ano, em 31 de maio, em Florianópolis: 8h46min46s, atrás da argentina Romina Biagioli, que também está em Kona. Larga com o número F49.
Nas faixas etárias, o Brasil é o sétimo país com mais inscritos, com 95 atletas, segundo levantamento da newsletter House of Pace no rastreador oficial da Ironman. A categoria mais cheia é a masculina de 45 a 49 anos, com 18 brasileiros. Entre eles está Fernanda Keller, seis vezes terceira colocada em Kona, inscrita na categoria de 60 a 64 anos. A trajetória dela no Havaí está em Fernanda Keller: 23 anos seguidos no Ironman do Havaí.
Quanto vale o título
Cada prova profissional distribui US$ 375 mil, US$ 750 mil no total, pagos até o 15º lugar. O campeão e a campeã levam US$ 125 mil cada, e o 15º colocado, US$ 3 mil. Para comparar, o Ironman Brasil inteiro paga US$ 40 mil em prêmios. O peso desse cheque na carreira de um profissional está em quanto ganha um atleta de Ironman.
O que Kona ensina sobre alta performance
A prova feminina de 2025 resumiu Kona em poucas horas. Charles-Barclay e Knibb tinham a corrida nas mãos e perderam para o calor. Løvseth, quase seis minutos atrás na saída da bicicleta, venceu porque chegou ao fim com o corpo funcionando. Matthews, mesmo com a maratona feminina mais rápida da história do percurso, ficou a 35 segundos.
A rotina de Matthews mostra o que decide a prova: gelo no boné e dentro do macacão em todos os postos de hidratação e frequência cardíaca mais baixa do que usaria em outro clima. Em Kona, o plano não é só ritmo, é temperatura.
O mesmo vale para Laidlow, que precisa decidir quanto gastar na bicicleta sabendo que já liderou duas vezes ao fim dos 180 km sem vencer. E vale para o amador que vai largar às 13h38 de Brasília: em Kona, a prova não se ganha na primeira metade, mas se perde nela. Stornes lembra a outra lição, mais dura: vento e azar não estão sob controle de ninguém. A resposta a eles, sim.
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