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Vincent Luis vence Kona na estreia e Knibb leva o título no último km

O triatleta francês Vincent Luis, com coroa e colar de folhas havaianas, abre os braços na chegada do Mundial de Ironman 2026 em Kailua-Kona

O francês Vincent Luis foi ao Havaí para a primeira e, segundo ele mesmo, última prova da carreira em Kona. Saiu de lá campeão mundial de Ironman. No sábado, 10 de outubro, Luis completou os 3,8 km de natação, 180 km de bicicleta e 42,2 km de corrida em 7h47min27s, assumiu a ponta a cerca de oito quilômetros da chegada e segurou o norueguês Gustav Iden, que terminou 1min36s atrás.

A prova feminina teve o fim mais duro do dia. A norueguesa Solveig Løvseth, campeã de 2025, liderava com mais de um minuto de vantagem quando perdeu o equilíbrio e caiu a cerca de um quilômetro da linha. A americana Taylor Knibb, que tinha abandonado a mesma prova um ano antes, passou e venceu em 8h36min29s. Løvseth se levantou, terminou caminhando, em oitavo, e depois disse estar bem.

Como Vincent Luis venceu na estreia

Luis saiu da água em 48min31s, colado no grupo da frente, num mar agitado pela chuva da madrugada. Na bicicleta, fez 4h15min42s e desceu para a maratona em sexto, cerca de seis minutos atrás do dinamarquês Magnus Ditlev, que chegou na frente à segunda transição e liderou quase toda a corrida.

A maratona decidiu tudo. Luis correu ao lado do norueguês Kristian Blummenfelt por volta da metade, deixou o campeão olímpico para trás no Energy Lab, o trecho mais quente e sem vento do percurso, e foi tirando a diferença de Ditlev, que passou a parar nos postos de hidratação para pegar gelo. Por volta do km 34, no posto da milha 21, o francês passou o dinamarquês. Ditlev, vice-campeão em 2024, não terminou a prova.

Iden passou por Ditlev no mesmo posto e chegou a ficar a 44 segundos de Luis, com a maratona mais rápida entre os 15 primeiros, 2h36min58s. Não foi suficiente. Luis fechou a corrida em 2h38min36s e voltou a abrir mais de um minuto na última milha. “Passei por uns lugares escuros nos últimos 3 ou 4 km”, disse o francês depois da prova.

O americano Matthew Marquardt completou o pódio, em 7h49min59s. O italiano Gregory Barnaby foi o quarto, e o francês Pierre Le Corre, o quinto. Blummenfelt terminou em oitavo.

O primeiro francês campeão em Kona

Luis tem 37 anos e nasceu em Vesoul, no leste da França. Fez carreira no triatlo olímpico, de distância curta: foi campeão mundial da ITU em 2019 e 2020 e ganhou o bronze no revezamento misto dos Jogos de Tóquio. Só passou a correr a distância do Ironman em 2025. Kona foi a terceira prova dele no formato, depois do quarto lugar no Challenge Roth, na Alemanha, no ano passado, e do quarto lugar no Ironman Texas, em abril, que garantiu a vaga no Mundial.

Com o resultado, Luis virou o primeiro francês a vencer o Mundial de Ironman no Havaí. O título mundial da distância já tinha ido para a França uma vez, com Sam Laidlow, em 2023, mas naquele ano a prova masculina foi disputada em Nice. Laidlow largou em Kona neste sábado e abandonou antes da milha 4 da maratona, com um problema circulatório na perna esquerda.

Antes da largada, Luis tinha anunciado que Kona seria a última prova da carreira. Depois da chegada, abriu uma porta. “Tenho algumas noites para decidir o que vou fazer da minha vida agora”, disse.

A punição de Iden e o título da Pro Series

A diferença entre Luis e Iden na chegada, 1min36s, foi menor do que a punição que o norueguês cumpriu no ciclismo: três minutos na tenda de penalidade por andar no vácuo. “Na minha opinião, foi um pouco bobo, porque levei por não ter recuado rápido o bastante”, disse Iden. Marquardt, terceiro colocado, também parou três minutos na tenda pela mesma infração.

O segundo lugar teve compensação. Iden, campeão em Kona em 2022, somou pontos suficientes para ganhar a Ironman Pro Series, o circuito da temporada, por 53 pontos de diferença sobre o alemão Jonas Schomburg, que foi o sétimo no Havaí. O título do circuito vale um bônus de US$ 200 mil.

Feminino: Knibb lidera, Løvseth passa

Taylor Knibb fez a prova que tinha prometido. Saiu da água 1min26s atrás da britânica Lucy Charles-Barclay, revezou a liderança com ela no ciclismo e chegou à segunda transição com 3min06s de vantagem sobre a britânica e 4min48s sobre Løvseth. Charles-Barclay, campeã em 2023, abandonou a maratona perto do km 28, como já tinha acontecido em 2025.

Løvseth veio de trás, como no ano passado. Passou Charles-Barclay antes da milha 10 e alcançou Knibb por volta do km 34, no mesmo posto de hidratação onde Luis tinha assumido a prova masculina. A americana passava mal no Energy Lab e chegou a abaixar o macacão até a cintura para se refrescar. Quando Løvseth passou, Knibb não reagiu. “Pensei: não posso brigar, porque se eu brigar, vou perder”, contou depois.

A decisão veio do ano passado. Em 2025, Knibb liderava a maratona em Kona e não terminou a prova, a poucos quilômetros da chegada. “Eu tinha que aprender com o ano passado e simplesmente chegar até a linha”, disse a americana, que neste ano já tinha ganhado o quarto título mundial de Ironman 70.3, em setembro, em Nice.

A americana Taylor Knibb, emocionada, com coroa e colar de folhas havaianas depois de vencer o Mundial de Ironman 2026 em Kona
Taylor Knibb depois da vitória em Kona: um ano antes, ela não tinha terminado a prova. Foto: Sean M. Haffey/Getty Images for IRONMAN (divulgação)

O último quilômetro de Løvseth

Com cerca de três quilômetros para o fim, Løvseth tinha mais de um minuto de frente. Pouco depois, a norueguesa começou a cambalear, parou e caiu. Levantou, voltou a cair e ficou alguns minutos no asfalto. Knibb passou por ela a cerca de um quilômetro da linha.

Løvseth se levantou de novo e completou o trecho final caminhando, ao lado do público, até cruzar a chegada em oitavo lugar, com 9h02min09s, 25min40s depois da vencedora. Na área de chegada, abraçou Knibb. “É doloroso de ver”, disse a americana sobre a cena.

Segundo a revista Triathlete, a norueguesa recusou atendimento médico na hora. À imprensa norueguesa, disse que ainda não sabe exatamente o que aconteceu, que provavelmente foi algum tipo de superaquecimento e que vai investigar a causa. O diretor esportivo da equipe, Frode Viberg Jermstad, disse ao jornal VG que o esforço extremo, somado a pouca reposição de alimento e sais, deve ter contribuído, e que ela melhorou depois de receber comida e sais por alguns minutos. Não houve boletim médico oficial, e a causa não foi confirmada clinicamente. Løvseth disse que já se sente bem melhor.

A Ali'i Drive, avenida à beira-mar de Kailua-Kona, no Havaí, com palmeiras e a torre de uma igreja ao fundo, trecho final da maratona do Ironman
A Ali’i Drive, em Kailua-Kona, onde termina a maratona do Mundial de Ironman. Foto: dronepicr (CC BY 2.0)

Kona já viu esse roteiro. Em 1982, Julie Moss desabou perto da chegada, foi ultrapassada e terminou a prova se arrastando, cena contada em Julie Moss em Kona: a queda que salvou o Ironman. Em 1995, Paula Newby-Fraser caiu perto da linha quando liderava e viu a americana Karen Smyers passar.

Philipp vice e campeã da temporada

A alemã Laura Philipp, campeã mundial em 2024, saiu da água em 30º lugar, 8min34s atrás da líder, e foi subindo posições até terminar em segundo, em 8h39min34s, com a maratona mais rápida entre as 15 primeiras, 2h50min43s. O resultado deu a ela o título da Ironman Pro Series feminina e o bônus de US$ 200 mil. A suíça Julie Derron, em Kona pela primeira vez, completou o pódio, em 8h46min25s, mesmo depois de uma punição por vácuo no ciclismo. A britânica Kat Matthews foi a quarta.

O calor e a umidade cobraram caro dos dois lados. Além de Charles-Barclay, Laidlow e Ditlev, o alemão Patrick Lange, tricampeão mundial, abandonou com cãibras na última participação em Kona antes da aposentadoria. Segundo a Triathlete, 22 profissionais não terminaram: 11 homens e 11 mulheres.

Brasileiros em Kona

Pâmella Oliveira, única brasileira entre os profissionais, saiu da água no grupo que perseguia Charles-Barclay, mas abandonou antes da maratona, segundo a Triathlete e o registro de resultados da PTO, a associação dos triatletas profissionais.

Nas faixas etárias, onde o Brasil tinha perto de 100 inscritos, sete brasileiros terminaram entre os cinco primeiros das categorias, segundo a TriSport Magazine. Fellipe Santos foi o brasileiro mais rápido, com 8h46min59s e o segundo lugar na categoria de 35 a 39 anos. Entre as mulheres, Ana Augusta foi vice na categoria de 40 a 44 anos, com 9h47min46s. A prévia da prova, com o perfil dos favoritos, está em Mundial de Ironman 2026: Kona reúne homens e mulheres no mesmo dia.

Quanto valeu o título

Luis e Knibb levaram US$ 125 mil cada pela vitória em Kona. Iden e Philipp somaram ao prêmio da prova os US$ 200 mil da Pro Series, valor maior do que o cheque do próprio campeão mundial. A conta completa de quanto um profissional ganha na distância, entre prêmios, bônus e patrocínio, está em quanto ganha um atleta de Ironman.

O que Kona 2026 ensina sobre alta performance

Os dois títulos foram decididos por quem administrou melhor o próprio limite, e não por quem foi mais rápido em algum trecho. Luis desceu da bicicleta seis minutos atrás e não tinha a maratona mais rápida do dia. Venceu porque chegou ao km 34 com o corpo funcionando, enquanto Ditlev, líder durante quase toda a maratona, já não conseguia correr.

Knibb fez o caminho inverso do ano passado. Em 2025, a americana tinha a prova nas mãos e não terminou. Em 2026, quando Løvseth passou, escolheu não responder ao ataque e correr no ritmo que a levaria até a linha. A lição vale para qualquer atleta de endurance: o plano não termina na estratégia de prova, ele inclui saber quando não brigar.

O caso de Løvseth lembra a outra metade da conta. Calor, umidade e reposição de sais são variáveis de treino e de nutrição, não detalhe de dia de prova. Em Kona, quem ignora o termômetro paga no último quilômetro, mesmo sendo a atleta mais forte do pelotão.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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