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História da Alpinestars: da bota de motocross ao airbag da MotoGP

Marc Márquez com macacão da Alpinestars em Mugello, em 2013, ao lado do logotipo da Alpinestars

Em 31 de maio de 2013, no treino de sexta-feira do GP da Itália, em Mugello, Marc Márquez perdeu a Honda no fim da reta mais rápida do campeonato a 337,9 km/h. O espanhol, então estreante na MotoGP, foi ao chão e se levantou com o queixo cortado e o ombro machucado. Os dados divulgados depois mostraram que o airbag dentro do macacão inflou em 0,050 segundo e estava cheio 0,030 segundo antes de o corpo tocar o chão.

O macacão era da Alpinestars, empresa que tinha começado 50 anos antes numa oficina de couro no interior do Vêneto, fazendo botas de caminhada e de esqui. A história da Alpinestars é a de uma marca familiar italiana que cresceu ouvindo pilotos: primeiro no motocross, depois na motovelocidade e na Fórmula 1 e, em 2026, no equipamento de Diogo Moreira na MotoGP.

O que é a Alpinestars e de onde vem a marca

A Alpinestars é uma fabricante italiana de equipamento de proteção para o esporte a motor, fundada em 1963 por Sante Mazzarolo, artesão do couro, na região de Asolo, província de Treviso, no Vêneto. A sede continua em Asolo, e a empresa continua nas mãos da família.

Sante era de Coste di Maser, vilarejo vizinho de Asolo, no pé dos Alpes. Os primeiros produtos da marca foram botas de caminhada e de esqui de couro. A virada veio quando o motocross começou a se espalhar pela Europa e Sante desenhou uma bota pensada só para a modalidade, segundo a empresa a primeira criada para esse tipo de pilotagem.

O nome é a tradução para o inglês de Stella Alpina, como os italianos chamam a edelvais, flor que cresce no alto das montanhas da região. Como o nome é em inglês, a pronúncia também segue o inglês: algo como “álpain stárs”.

Par de botas de motovelocidade Alpinestars S-MX pretas com a estrela da marca
Botas Alpinestars S-MX: a marca nasceu fazendo botas. Foto: Ocdp (CC BY-SA 3.0)

A história da Alpinestars começa no motocross

Foi o motocross que fez a Alpinestars. O belga Roger De Coster participou do desenvolvimento da primeira bota de motocross da marca e virou um de seus primeiros embaixadores. No começo dos anos 1970, deu à empresa o primeiro título mundial da modalidade. De Coster foi cinco vezes campeão mundial das 500cc.

A bota mudou algumas vezes até chegar à Super Victory, lançada no começo daquela década. O modelo tinha uma placa de aço inoxidável na canela, patenteada pela Alpinestars, que dava um nível de proteção que o motocross ainda não conhecia e virou a marca visual da bota. Ao longo dos anos 1970, a Super Victory foi usada por campeões em todo o mundo.

O motocross segue no centro do catálogo até hoje, com a linha de botas Tech, que vai do modelo de entrada Tech 1 ao topo Tech 10. O portal acompanhou a edição de 2026 do Motocross das Nações, a prova por países da modalidade.

Pilotos de motocross levantam areia em curva diante do público no GP das Nações de 1976, na Holanda
Roger De Coster (atrás) persegue o soviético Moiseev no GP das Nações de 1976, em Sint Anthonis, na Holanda. Foto: Hans Peters/Anefo, Nationaal Archief (CC0)

Do barro para o asfalto: Kenny Roberts e a motovelocidade

Ainda nos anos 1970, Sante Mazzarolo começou a desenvolver produtos para a motovelocidade. O americano Kenny Roberts virou o campeão mais conhecido da marca no Mundial ao conquistar o primeiro título das 500cc, em 1978.

O passo seguinte foi geográfico. Em 1986, Gabriele Mazzarolo, filho de Sante, abriu a Alpinestars USA em Los Angeles. A empresa também testou outras modalidades: em 1990, levou o americano Mike Kloser ao pódio do Mundial de downhill de mountain bike.

Na metade dos anos 1990, a Alpinestars lançou a primeira linha de vestuário técnico, com luvas e jaquetas, e em 1999 começou a desenvolver macacões de couro de alta performance para a motovelocidade. Desde então, a lista de campeões da MotoGP com a marca inclui Mick Doohan, Nicky Hayden, Casey Stoner, Jorge Lorenzo e Marc Márquez.

Casey Stoner inclina a Ducati vermelha em curva, com macacão da Alpinestars, em 2010
Casey Stoner com a Ducati em 2010: o australiano foi um dos campeões da MotoGP vestidos pela Alpinestars. Foto: David DeHetre (CC BY 2.0)

Fórmula 1: das sapatilhas ao macacão de Lando Norris

A Alpinestars entrou no automobilismo no começo dos anos 1990, com sapatilhas de pilotagem, e calçou pilotos da Fórmula 1 e da Indy ao longo da década. Em 2000, abriu um departamento só de macacões para carros.

Os títulos vieram em sequência: Petter Solberg no Mundial de Rali em 2003, Kurt Busch na NASCAR em 2004 e Fernando Alonso na F1 em 2005, que a empresa trata como o início de uma série contínua de campeões. Michael Schumacher e Jenson Button também correram com a marca.

Em 2026, segundo a própria Alpinestars, o grid da F1 tem cinco equipes vestidas por ela:

  • McLaren: Lando Norris, campeão de 2025, e Oscar Piastri
  • Racing Bulls: Liam Lawson e Arvid Lindblad
  • Haas: Esteban Ocon e Oliver Bearman
  • Alpine: Pierre Gasly e Franco Colapinto
  • Cadillac: Valtteri Bottas e Sergio Pérez

Cada kit é feito sob medida e segue a norma FIA 8856-2018 de proteção contra fogo, que vale para macacão, luvas, sapatilhas, balaclava, meias e roupa de baixo. O equipamento precisa funcionar num cockpit que passa dos 50 °C, com o piloto acima de 170 batimentos por minuto durante mais de 60 voltas.

Tech-Air: o airbag que levou oito anos para chegar à MotoGP

O Tech-Air é o airbag eletrônico da Alpinestars para motociclistas. O desenvolvimento começou em 2001, a estreia na MotoGP foi em 2009 e a versão integrada ao macacão de couro topo de linha chegou ao público em 2011. Na época, foi apresentado como o primeiro airbag a proteger todo o tronco com uma central eletrônica independente da moto.

A escolha pelo acionamento eletrônico tem uma razão técnica: ao estudar as alternativas, a empresa concluiu que um sistema mecânico não dispara rápido o bastante para proteger o piloto já no primeiro impacto. A central eletrônica fica no próprio equipamento e decide sozinha, sem depender da moto.

A queda de Márquez em Mugello virou a vitrine do sistema. A central detectou o acidente 0,08 segundo antes do primeiro contato com o chão e encheu as bolsas em 0,05 segundo. O sensor registrou 25 g, o máximo que conseguia medir. Márquez saiu com machucados no queixo e no ombro e correu no mesmo fim de semana. Em 2024, a tecnologia chegou à terra, com o lançamento do Tech-Air MX para o motocross.

Diogo Moreira e o Brasil na lista da Alpinestars

Desde 2026, Diogo Moreira corre na MotoGP com equipamento completo da Alpinestars. O contrato de três anos foi revelado em novembro de 2025, quando o brasileiro trocou a REV’IT, que o acompanhou na Moto3 e na Moto2, pela marca italiana para a estreia na categoria principal com a LCR Honda.

O valor não foi divulgado oficialmente. A imprensa estima cerca de 1 milhão de euros pelas três temporadas, sem contar bônus por desempenho. O capacete segue com a KYT, parceira de Moreira desde as categorias de base.

A temporada já deu retorno ao patrocinador: Moreira encerrou um jejum de 19 anos do Brasil no pódio da MotoGP. Para o piloto, o acordo mostra que equipamento também é fonte de renda, e não só custo, quando o atleta chega ao topo.

Quem é o dono da Alpinestars e quanto a empresa fatura

A Alpinestars é uma empresa privada e familiar. Gabriele Mazzarolo, filho do fundador, comanda a companhia desde 1993, quando a comprou dos pais, e participa da operação do dia a dia. Sante Mazzarolo morreu em 1º de maio de 2020, aos 91 anos, lembrado pela imprensa do Vêneto como o artesão que inventou a bota de motocross. As filhas Gloria e Lucia também trabalham na empresa.

Por ser fechada, a Alpinestars não publica resultados como uma companhia de bolsa, mas a unidade italiana, registrada em Asolo, deposita o balanço anual no registro de empresas do país. Os números são estes:

AnoFaturamentoLucro líquido
2023298,4 milhões de euros15,3 milhões de euros
2024278,4 milhões de euros9,2 milhões de euros
2025327,2 milhões de euros19,8 milhões de euros

Os valores são da Alpinestars S.p.A., a unidade italiana, e podem não incluir as operações de outros países. Segundo a empresa, são cerca de 700 funcionários no mundo, com escritórios em Los Angeles, no norte da Itália, em Tóquio e em Bangkok. O catálogo também cresceu: em 2023, a marca lançou o Supertech R10, seu primeiro capacete fechado para o asfalto.

O que a história da Alpinestars ensina sobre alta performance

A primeira lição está na origem do produto. A bota de motocross nasceu com Roger De Coster dentro do projeto, e o Tech-Air foi calibrado com dados coletados de pilotos em pista. Atleta que sabe descrever o que sente, com precisão, ajuda a construir o próprio equipamento, e esse retorno vale tanto para a marca quanto para o resultado dele.

A segunda é sobre tempo. O airbag levou oito anos de desenvolvimento até a MotoGP e dez até o público. Nenhuma das inovações que hoje parecem óbvias saiu pronta: foram décadas de versão, teste e ajuste, o mesmo processo que separa o atleta que evolui do atleta que só treina.

A terceira está em Mugello. Márquez caiu a 337,9 km/h e correu no domingo. Proteção é o que permite a uma carreira durar. No esporte a motor, e em qualquer modalidade, alta performance é a que se sustenta por muitos anos, não a que aparece num pico e some na primeira queda.

Perguntas frequentes sobre a Alpinestars

O que é a Alpinestars?

É uma fabricante italiana de equipamento de proteção para motociclismo e automobilismo, como botas, macacões, luvas, jaquetas, airbags e capacetes. Foi fundada em 1963 e veste pilotos da MotoGP, do motocross e da Fórmula 1.

De onde é a marca Alpinestars?

Da Itália. A empresa nasceu em 1963 na região de Asolo, na província de Treviso, no Vêneto, onde mantém a sede. Também tem escritórios em Los Angeles, Tóquio e Bangkok.

O que significa o nome Alpinestars?

É a tradução para o inglês de Stella Alpina, nome italiano da edelvais, flor que cresce no alto das montanhas da região onde a empresa foi fundada.

Quem é o dono da Alpinestars?

A empresa é privada e da família Mazzarolo. Gabriele Mazzarolo, filho do fundador Sante Mazzarolo, comanda a companhia desde 1993.

Quanto a Alpinestars fatura?

A Alpinestars S.p.A., unidade italiana da empresa, faturou 327,2 milhões de euros em 2025, com lucro de 19,8 milhões de euros, segundo o balanço registrado na Itália.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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