Na quarta-feira, 28 de outubro, o pátio de uma empresa em Ball Ground, cidade pequena da Geórgia, nos Estados Unidos, vira ponto de largada. Da porta da FuelTech USA, braço americano da fabricante gaúcha de injeção eletrônica, sai uma caravana de carros preparados que vai rodar quatro dias até Las Vegas, sede do SEMA Show, a maior feira de customização automotiva do mundo, de 3 a 6 de novembro.
No comboio estão Anderson Dick, fundador da FuelTech, e Tiago Kfouri, o TK, do canal Macchina, cercados de uma turma de brasileiros que cresce a cada edição. TK estima pelo menos 50 carros na estrada este ano. A graça, como mostrou a viagem do ano passado, é chegar rodando, e não em cima de um trailer.

O que é o SEMA Show e por que o Brasil está lá
SEMA é a sigla da Specialty Equipment Market Association, a associação americana do mercado de peças, acessórios e preparação de veículos. A feira que ela organiza todo ano ocupa os pavilhões do Las Vegas Convention Center e é, antes de tudo, um evento de negócios: o público geral só entra na sexta-feira, 6 de novembro, dia do SEMA Fest.
Os números da organização dão a escala. São mais de 153 mil participantes, mais de 70 mil compradores e tomadores de decisão e cerca de 2.600 profissionais de imprensa e criadores de conteúdo. Um em cada cinco compradores vem de fora dos Estados Unidos, e o Brasil aparece em 4º lugar entre os países que mais mandam visitantes, atrás apenas de Canadá, México e Austrália.
A FuelTech estreou como expositora em 2022. Para uma marca nascida em Porto Alegre, dividir o pavilhão com as maiores empresas de performance dos Estados Unidos é vitrine. E a caravana virou a forma mais barulhenta de chegar até ela.
O roteiro: quatro dias da Geórgia a Las Vegas
O trajeto da caravana, pelo roteiro que TK divulgou aos seguidores, tem quatro etapas e paradas que qualquer fã de carro reconhece:
- 28 de outubro: Ball Ground, na Geórgia, até Little Rock, no Arkansas.
- 29 de outubro: o dia mais longo, 715 milhas (cerca de 1.150 km) de Little Rock até Amarillo, no Texas, com parada em Oklahoma City na oficina do Murder Nova, o Chevrolet Nova de Shawn Ellington, do reality Street Outlaws (Corridas Proibidas, no Brasil).
- 30 de outubro: de Amarillo a Flagstaff, no Arizona, com jantar em Sedona.
- 31 de outubro: de Flagstaff a Las Vegas pela Rota 66, passando por Seligman e Nelson, com encontro no Eldorado Dry Lake, um lago seco perto da cidade.
- 1º de novembro: dia final da NHRA Nevada Nationals, etapa da principal categoria de arrancada dos Estados Unidos, no The Strip, do Las Vegas Motor Speedway.
- 3 a 6 de novembro: SEMA Show.
No anúncio da viagem, em agosto, Anderson comparou a distância de mais de 3.000 km a sair de São Paulo e chegar a Belém do Pará em poucos dias.
Anderson Dick, o anfitrião da largada
Engenheiro eletricista formado pela UFRGS, Anderson Dick fundou a FuelTech em 2003, a partir de um módulo de injeção para carros de corrida montado como projeto de conclusão de curso. Duas décadas depois, a marca gerencia carros de arrancada que passam de 2.000 cavalos e mantém a sede americana em Ball Ground.
No ano passado, ele fez a travessia ao volante do DeLorean com motor V8 de Ferrari que a FuelTech apresentou no SEMA 2024. Havia aposta entre os amigos sobre em quantas milhas o carro subiria no trailer, e o palpite mais comum era 200. Foram 3.200 km rodando até Las Vegas, com chuva fora do roteiro e trecho com 7 graus. No fim, Anderson classificou o DeLorean como um dos carros mais confiáveis que tem.

O comboio levava a própria equipe de apoio: dois mecânicos, um tuner, um funileiro e o próprio Anderson cuidando da calibração. Teve gente pegando avião no Brasil só para levar peça, e tinta de funilaria atravessando o oceano em frasco de 100 ml.
Para 2026, o projeto que Anderson mostrou no pátio da FuelTech USA é uma Mercedes com motor V12 de Pagani, que obrigou a cortar o capô para caber. A lista de peças é a de sempre na casa: bobinas de Honda NSX, 16 borboletas de Suzuki Hayabusa, câmbio de BMW M3 convertido para manual e uma embreagem de 130 mm, do tamanho da de uma moto.
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TK e o Calvette: 5.281 km com transmissão ao vivo
TK sai antes de todo mundo. No domingo, 25, ele deixa St. Cloud, na Flórida, ao volante do Calvette, um Corvette C4 1984 com motor V8 5.7 e câmbio automático, comprado barato e em estado ruim. O apelido veio da pintura, que escorreu como cal na primeira lavagem.
O primeiro destino é Bowling Green, no Kentucky, onde fica a fábrica que produz todos os Corvette desde 1981. Na prática, o Calvette volta para casa. No dia 27, TK desce pelo Tail of the Dragon, estrada com fama de ter 318 curvas em 11 milhas, até a FuelTech, onde se junta à caravana. Somados os trechos, serão 5.281 km, 13 estados e sete dias de estrada.
Quase toda parada já tem história no canal. TK expôs o Gol GLR 1991 no SEMA Show de 2018, cruzou o país em 2023 numa Mercedes S55 AMG comprada por US$ 3.400 e fechou aquela viagem com churrasco no Eldorado Dry Lake. Em 2025, rodou ao lado de Anderson na caravana do DeLorean. A relação entre os dois começou em 2018, num almoço em Ball Ground, e virou o quadro semanal em que TK já gravou cerca de 350 vídeos para a FuelTech, como ele contou no episódio do No Topo Podcast.

A novidade deste ano é a transmissão. TK vai levar uma antena Starlink e mostrar a estrada ao vivo no canal do Macchina, no YouTube, que tem cerca de 600 mil inscritos.
Para quem quer acompanhar por fora das lives, TK tem uma página própria da viagem, a SEMA Trip 2026, com o mapa do percurso, o roteiro dia a dia, a contagem regressiva para a largada e a posição estimada do Calvette, calculada a partir dos horários previstos. Os episódios da estrada entram lá conforme forem ao ar.
Siga o Calvette até Las Vegas
Mapa, roteiro dia a dia e posição estimada do TK durante a viagem.
Um Dodge de 100 anos, um Corvette secreto e um ônibus escolar
O que diferencia a caravana de uma viagem de amigos é a variedade do que roda nela. Neste ano, um dos carros mais esperados é o Frank, um Dodge Brothers de 1926 comprado por Denis, amigo de Anderson. O carro tem assoalho e parede corta-fogo de madeira, rodas de carroça e saiu de fábrica com um motor de 35 cavalos. Ganhou suspensão dianteira de Mustang, um quatro cilindros com supercharger tirado de uma Mercedes e uma injeção FuelTech para gerenciar tudo.

Também deve estar na estrada o Corvette C4 que Anderson comprou para um amigo que tinha perdido a caravana anterior por falta de carro pronto. A decisão levou cerca de sete minutos. Depois do SEMA, o plano é embarcar o carro para o Brasil e repetir a dose numa caravana até o Autódromo FuelTech Velopark, no Rio Grande do Sul.
Em 2025, o comboio já tinha um ônibus escolar amarelo comprado pelos amigos com dinheiro de live, um Corsa GSI e a Chevrolet Caravan 1979 do mecânico Ricardo Freitas, o Ricardinho, com motor Honda K24 preparado para mais de 1.000 cavalos e injeção FuelTech, que viajou do Brasil para os Estados Unidos de avião.

Um mercado de US$ 52,9 bilhões
A turma da estrada é a parte visível de uma indústria grande. Segundo o SEMA Market Report 2026, o mercado americano de acessórios e peças de performance movimentou US$ 52,92 bilhões em 2025. Um em cada quatro donos de veículo nos Estados Unidos comprou algum produto para personalizar o carro no ano, e mais da metade desses compradores tem menos de 40 anos. Só as picapes respondem por 30% do total, mais de US$ 15 bilhões.
O dado da idade derruba a ideia de que carro preparado é coisa de colecionador veterano. O público é jovem, consome conteúdo em vídeo e se organiza em comunidade, exatamente o ambiente em que canais como o Macchina e o de Anderson cresceram.
No Brasil, o mesmo movimento ganhou casa própria. A inauguração do FuelTech Velopark, em fevereiro de 2026, reuniu cerca de 20 mil pessoas e mais de mil carros customizados, com caravana saindo de São Paulo. O autódromo recebe as etapas da Copa FT BR Sport, campeonato da FuelTech de corrida de arrancada no país.
O que a caravana ensina sobre alta performance
Cinco mil quilômetros de estrada são o teste que nenhum dinamômetro substitui. Um carro preparado que chega a Las Vegas rodando mostra que a potência veio acompanhada de acerto: calibração, arrefecimento, freio, suspensão e a disciplina de revisar tudo antes de sair. É a mesma lógica de qualquer preparação esportiva, em que o resultado aparece na prova longa, não no treino de um dia.
A outra lição é o ambiente. Ninguém atravessa um continente com um Dodge de 100 anos sozinho. A caravana funciona porque leva mecânico, tuner e amigo junto, e porque o problema de um carro vira problema do comboio inteiro. Para o atleta, vale a mesma regra: cercar-se de gente que compete de verdade encurta o caminho e faz a jornada durar.
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