Na quarta-feira, 22 de julho de 2026, a estreia do Campeonato Municipal de Futsal Feminino de Eusébio, no Ceará, terminou de um jeito que ninguém quer ver numa quadra. No segundo tempo do jogo entre RDJ Sport e RSN, com o RDJ à frente no placar, uma atleta do RSN, depois de perder a disputa de bola, desferiu dois chutes na cabeça de uma adversária que estava caída no chão. Uma segunda jogadora do RDJ, que tentou conter a agressão, ainda levou socos no rosto. A confusão se generalizou, os times se envolveram e a partida foi interrompida. A atleta agredida precisou ser levada à UPA do município.
A resposta da organização veio rápido e dura: após analisar a súmula, a Liga Desportiva de Futsal excluiu a atleta agressora por cinco anos de qualquer atividade esportiva organizada pela instituição.
Como Treinador Mental de Atletas, quero olhar para o que realmente importa: o que esse episódio revela sobre caráter, o que separa competitividade de violência, por que a punição foi correta, e (o ponto mais importante para quem me lê) como os pais de atletas devem lidar com situações assim. Vamos por partes.

1. Competitividade não é o problema. Rivalidade é.
Existe uma confusão perigosa que precisa ser desfeita. Vontade de vencer, raça, disputa acirrada, frustração de perder a bola num contra-ataque, nada disso é defeito. É matéria-prima do esporte. O problema começa exatamente no ponto em que a emoção deixa de ser combustível e vira comando.
Chutar a cabeça de alguém que já está caído não é excesso de vontade de ganhar. É perda total de autorregulação. A diferença entre o atleta competitivo e o atleta perigoso não está na intensidade da emoção que sente, e sim na capacidade de conter o impulso quando a emoção chega ao pico. Essa capacidade tem nome: autorregulação emocional. E, ao contrário do que muita gente pensa, ela se treina como se treina um chute ou um passe.
2. Esporte competitivo revela caráter
Costuma-se dizer que o caráter aparece na derrota. É mais preciso dizer que ele aparece sob pressão. Qualquer pessoa é elegante ganhando fácil. O teste real acontece no instante em que se perde a bola, o juiz não marca a falta, o corpo dói e o placar joga contra.
Foi exatamente nesse instante que a agressora falhou. E aqui está uma verdade incômoda que todo atleta jovem precisa ouvir: talento não compra caráter. Uma quadra inteira de habilidade não vale nada no segundo em que se decide descontar a frustração no corpo do outro. O que fica na memória de quem assistiu não é nenhum gol da partida: é o chute na cabeça de quem estava no chão. Reputação leva anos para se construir e um lance para desabar.
3. Atitude antidesportiva não é um acidente
É tentador tratar um episódio desses como um “momento de fúria” isolado, como se fosse um acidente. Raramente é. A atitude antidesportiva quase sempre é o sintoma de algo que vinha sendo tolerado antes: a provocação que ninguém repreendeu, o “faz falta nela” ensinado como esperteza, o ambiente onde ganhar virou a única coisa que importa e vencer a qualquer custo passou a ser sinônimo de vencer a qualquer preço.
Quando a vitória se torna o valor supremo, o adversário deixa de ser um colega de esporte e vira um obstáculo a ser removido. É desse solo que nasce a violência. Por isso, prevenir uma agressão não começa no momento do chute: começa antes, no tipo de valor que se reforça a cada treino, a cada jogo, a cada comentário na arquibancada e, principalmente, dentro de casa.
4. Por que a punição de cinco anos foi correta
Cinco anos de exclusão pode soar severo para quem só vê o placar. Mas a punição não serve para punir o passado; ela serve para proteger o futuro. Uma liga que deixa passar uma agressão à cabeça de uma jogadora caída está dizendo, na prática, que a integridade física dos atletas é negociável. E não é.
Uma consequência clara e firme cumpre três funções. Protege as outras atletas de quem já mostrou que não controla o impulso. Sinaliza a todos os participantes qual é o limite inegociável do ambiente. E (se a agressora souber recebê-la) oferece a ela própria a chance de encarar a gravidade do que fez, em vez de minimizar. Limite não é o oposto de cuidado. Limite é uma forma de cuidado. Vale para a liga, e vale para dentro de casa.

Como pais de atletas devem lidar com isso
Este é o ponto que mais me pedem para tratar, e é onde a mudança de verdade acontece. O que os pais fazem antes, durante e depois de episódios assim molda o caráter esportivo do filho mais do que qualquer treino.

Cuide da própria conduta na arquibancada. A criança aprende muito menos pelo que os pais dizem e muito mais pelo que vê os pais fazerem. O pai que xinga o juiz, que grita para “descer a lenha”, que comemora a jogada suja, está ensinando, sem uma palavra de teoria, que a agressão é uma ferramenta legítima. Dentro de casa, a lição começa na beira da quadra.
Elogie o esforço e a postura, não só o resultado. Quando o único momento em que o filho recebe atenção é ao marcar o gol ou ganhar o jogo, ele conclui que só o placar tem valor. Reconhecer a atitude (“gostei de como você ajudou a levantar a adversária”, “você manteve a cabeça fria quando o jogo esquentou”) ensina que a maneira de competir importa tanto quanto o resultado.
Não terceirize o erro. Se o filho comete uma atitude antidesportiva, o pior que os pais podem fazer é defendê-lo automaticamente, culpar o juiz, o adversário ou a “provocação”. Isso o ensina que a responsabilidade é sempre do outro. O caminho oposto (acolher a pessoa e, ao mesmo tempo, nomear com firmeza o erro) é o que constrói responsabilidade. Ame o filho; não terceirize o comportamento dele.
Trabalhe o gatilho, não só o incidente. Depois que a poeira baixa, vale conversar sobre o que veio antes da explosão: a frustração de perder a bola, a sensação de injustiça, a raiva acumulada. Ajudar o jovem a reconhecer o próprio corpo esquentando, e a ter um plano para aqueles segundos (respirar, se afastar, olhar para o próprio time), é ensinar autorregulação na prática. É a mesma habilidade que separa o atleta que perde a cabeça daquele que decide frio sob pressão.
Use o episódio dos outros como aula, sem crucificar ninguém. Um caso como o de Eusébio é uma oportunidade rara de conversar com o filho sobre limites sem que ele esteja na defensiva, porque não é ele o envolvido. A pergunta certa não é “viu como ela é horrível?”, e sim “o que você acha que ela poderia ter feito naqueles três segundos?”. Uma transforma o outro em monstro; a outra transforma o episódio em aprendizado.
O que fica
O esporte não existe para revelar quem é mais forte. Existe para formar pessoas, e faz isso justamente porque coloca crianças e jovens, de forma repetida, diante da frustração, da derrota e da injustiça, que são exatamente as situações em que o caráter é forjado. Uma agressão como a de Eusébio é um fracasso desse processo formativo, não apenas de uma atleta. A boa notícia é que a autorregulação, o respeito ao adversário e a capacidade de perder com dignidade não são traços fixos de personalidade: são competências que se ensinam e se treinam. Começa na liga, que estabelece o limite. E começa, sobretudo, em casa.
Nota: os fatos do episódio foram apurados em veículos de imprensa e na informação divulgada pela organização do campeonato. Este texto não identifica nominalmente as atletas envolvidas e tem finalidade formativa, não jornalística ou jurídica. Dados atualizados em 25 de julho de 2026.
Leia também: o guia completo de treinamento mental para atletas, a lição mental dos 37 minutos de João Fonseca contra Kyrgios e a leitura mental da eliminação do Brasil na VNL 2026.
Perguntas frequentes
O que aconteceu no Campeonato Municipal de Futsal Feminino de Eusébio?
Na quarta-feira, 22 de julho de 2026, no jogo de estreia entre RDJ Sport e RSN, uma atleta do RSN desferiu dois chutes na cabeça de uma adversária caída no chão. Uma segunda jogadora que tentou conter a agressão levou socos no rosto. A partida foi interrompida e a atleta agredida precisou ser levada à UPA do município.
Qual foi a punição aplicada à jogadora?
Após analisar a súmula, a Liga Desportiva de Futsal excluiu a atleta agressora por cinco anos de qualquer atividade esportiva organizada pela instituição.
Por que a punição de cinco anos foi correta?
Porque a punição não serve para punir o passado, e sim para proteger o futuro. Ela protege as outras atletas de quem já mostrou que não controla o impulso, sinaliza a todos qual é o limite inegociável do ambiente e dá à própria agressora a chance de encarar a gravidade do que fez. Limite não é o oposto de cuidado: é uma forma de cuidado.
Qual a diferença entre competitividade e violência no esporte?
Vontade de vencer, raça e disputa acirrada não são defeito, são matéria-prima do esporte. O problema começa quando a emoção deixa de ser combustível e vira comando. A diferença entre o atleta competitivo e o atleta perigoso não está na intensidade da emoção, e sim na capacidade de conter o impulso quando ela chega ao pico.
O que é autorregulação emocional e como se treina?
É a capacidade de conter o impulso no momento em que a emoção chega ao pico. Ela se treina como se treina um chute ou um passe: ajudando o atleta a reconhecer o próprio corpo esquentando e a ter um plano para aqueles segundos, como respirar, se afastar ou olhar para o próprio time.
Como os pais devem agir quando o filho comete uma atitude antidesportiva?
O pior caminho é defendê-lo automaticamente e culpar o juiz, o adversário ou a provocação, porque isso ensina que a responsabilidade é sempre do outro. O caminho oposto é acolher a pessoa e, ao mesmo tempo, nomear com firmeza o erro. Vale também cuidar da própria conduta na arquibancada, elogiar a postura e não só o resultado, e conversar depois sobre o gatilho que veio antes da explosão.
Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.
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