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Alan Jones, campeão de 1980 que bateu Piquet, morre aos 80 anos

Alan Jones, com macacão branco da Williams, ergue o boné e sorri no pódio, cercado por autoridades que aplaudem

Alan Jones, o australiano que deu à Williams o primeiro título mundial da história e derrotou Nelson Piquet na briga de 1980, morreu aos 80 anos. Segundo a família, ele faleceu em 5 de novembro, três dias depois do aniversário, após uma breve doença.

“Alan dedicou a vida ao automobilismo, construindo um legado que vai continuar vivo nas inúmeras pessoas que ele tocou ao longo do caminho”, disse a mulher, Amanda Butler-Davis, em comunicado. A notícia chegou ao paddock às vésperas do GP de São Paulo, em Interlagos, pista onde Jones subiu ao pódio no ano do título.

O título de 1980, conquistado contra Piquet

Jones venceu 5 das 14 etapas de 1980: Argentina, França, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos. Somou 10 pódios e terminou o campeonato com 67 pontos, 13 a mais que Piquet, da Brabham. Foi o segundo australiano campeão mundial, depois de Jack Brabham, e continua sendo o último.

A decisão saiu em Montreal, na penúltima corrida. A primeira largada do GP do Canadá terminou num engavetamento provocado por um toque entre Jones e Piquet, e a prova foi reiniciada. Na corrida reiniciada, o motor da Brabham do brasileiro quebrou. Jones venceu e fechou o título, enquanto a Williams levava também o seu primeiro Mundial de Construtores.

Em Interlagos, naquele mesmo ano, Jones foi terceiro no GP do Brasil, atrás de René Arnoux, da Renault, e Elio de Angelis, da Lotus.

O piloto que ajudou a construir a Williams

Quando Jones chegou, em 1978, a Williams recomeçava do zero. Frank Williams tinha refundado a equipe depois de perder o controle da antiga para o patrocinador Walter Wolf, e o engenheiro Patrick Head desenhou o FW06, um carro simples e eficiente. O australiano levou o time ao primeiro pódio, em Watkins Glen, ainda em 1978.

Em 1979 veio o FW07, de efeito solo. Jones marcou a primeira pole da Williams, em Silverstone, e venceu na Alemanha, na Áustria, na Holanda e no Canadá, terminando o ano em terceiro. Das 12 vitórias da carreira, 11 foram pela equipe inglesa.

Alan Jones, de capacete e macacão, sentado no cockpit do Williams FW07 branco com patrocínio Saudia nos boxes
Jones no cockpit do Williams FW07, o carro de efeito solo que levou a equipe ao topo. Foto: reprodução/Motor Sport Magazine.

“Alan era muito divertido, um piloto excelente”, lembrou Head em entrevista de 2012, citada pela F1. “Ele já tinha vencido um Grande Prêmio, e a chegada dele nos fez dizer: ‘é melhor a gente se ajeitar’. Não é que não estivéssemos trabalhando duro, mas ele nos deu um foco que talvez não tivéssemos antes.”

O título saiu na quarta temporada da Williams na F1, segundo a própria equipe. Jones foi o primeiro de sete campeões de pilotos do time.

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Da vitória na Shadow à briga com Reutemann

Filho de Stan Jones, vencedor do GP da Austrália de 1959, Alan foi para a Inglaterra tentar a carreira e chegou a comprar e vender carros usados para pagar as corridas. A estreia na F1 foi no GP da Espanha de 1975, com um Hesketh particular. Depois passou pela Hill e pela Surtees.

A primeira vitória veio em 1977, no GP da Áustria, pela Shadow. Foi a única vitória da equipe na história da categoria, conquistada no ano em que ela perdeu o piloto Tom Pryce, morto no GP da África do Sul.

O Brasil marcou também o fim da relação de Jones com o companheiro Carlos Reutemann. No GP do Brasil de 1981, no Rio de Janeiro, o argentino ignorou a ordem da equipe para deixá-lo vencer. Jones nunca o perdoou, segundo o obituário publicado pela F1. A rivalidade interna pesou, e Piquet ficou com o título de 1981. Jones terminou em terceiro, quatro pontos atrás do brasileiro.

Ele venceu a primeira e a última corrida de 1981, em Long Beach e no Caesars Palace, em Las Vegas, e se aposentou no fim da temporada. Voltou por uma corrida pela Arrows em 1983 e correu pela Haas Lola em 1985 e 1986. A última prova foi o GP da Austrália de 1986.

O Williams FW07 branco de número 27, restaurado, exposto numa oficina iluminada
O Williams FW07/04, com que Jones venceu o GP da Argentina de 1980, depois da restauração de 2021. Foto: reprodução/Goodwood.

Os números de Alan Jones na Fórmula 1

  • Título mundial: 1 (1980, pela Williams)
  • Largadas: 116, em 117 GPs disputados
  • Vitórias: 12, sendo 11 pela Williams
  • Pódios: 24
  • Pole positions: 6
  • Voltas mais rápidas: 13

Fora da F1, Jones correu no campeonato australiano de turismo até 2002 e virou comentarista na televisão do país. Também conquistou o GP da Austrália de 1980, então fora do Mundial, com o carro campeão da Williams, e segue como o último australiano a vencer a prova de casa.

As homenagens da F1 e da Williams

“Alan foi um competidor formidável, um líder nato e um ícone que inspirou gerações de fãs, principalmente na sua amada Austrália”, disse Stefano Domenicali, presidente da Fórmula 1. “O lugar dele na história da Fórmula 1 está garantido, não só por ter dado à Williams os primeiros títulos de pilotos e de construtores, em 1980, um momento decisivo para a equipe e para o nosso esporte.”

A Williams, que completa 50 anos em 2027, lembrou o primeiro campeão como o modelo dos que vieram depois. “Ele definiu o padrão dos campeões da Williams: um piloto rápido, sem concessões, com mentalidade de desafiante, que amava o automobilismo e dedicou a vida a ele”, disse a equipe.

O que Alan Jones ensina sobre alta performance

Jones não teve atalho. Sem dinheiro, financiou a carreira negociando carros, perdeu temporadas, quebrou a perna num acidente de testes e só venceu o primeiro GP no terceiro ano de F1, num time pequeno. Quando encontrou a Williams, encontrou também gente com o mesmo temperamento, e o encaixe virou título.

A lição vale para qualquer atleta: talento abre a porta, mas é a persistência nos anos sem resultado e a escolha do ambiente certo que transformam potencial em conquista. A “mentalidade de desafiante” que a Williams elogia é treinável, e começa muito antes do pódio.

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