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Alison dos Santos crava 44s61 e fecha 2026 com ouro e recorde

Alison dos Santos, o Piu, com a camisa do Brasil depois de vencer a final dos 400m rasos nos Jogos Sul-Americanos Santa Fé 2026

Alison dos Santos, o Piu, cruzou a linha de chegada dos 400m rasos dos Jogos Sul-Americanos Santa Fé 2026 com quase nove décimos de vantagem, medalha de ouro garantida e recorde da competição no painel: 44s61. Na noite desta quarta-feira (23), na Argentina, o recordista mundial dos 400m com barreiras venceu uma prova que não é a especialidade dele e melhorou pela segunda vez em 24 horas a marca mais rápida da história do evento.

Mesmo assim, a reação dele depois da prova foi de quem queria mais. Piu viajou a Santa Fé com uma meta declarada: correr abaixo dos 44 segundos pela primeira vez e derrubar o recorde brasileiro de Sanderlei Parrela, de pé desde 1999. Não veio. O que veio foi o fechamento de uma temporada que já tinha recorde mundial, título da Diamond League e o primeiro Ultimate Championship da história.

A final: largada queimada e prova decidida cedo

A decisão começou com uma interrupção. O argentino Elian Larregina queimou a largada e foi desclassificado. Na partida para valer, Alison saiu bem dos blocos, assumiu a liderança nos primeiros metros e só aumentou a distância até a reta final, segundo o relato do Comitê Olímpico do Brasil (COB).

O venezuelano Javier Gómez ficou com a prata, em 45s48, e o chileno Martín Kouyoumdjian levou o bronze, com 45s99. O brasileiro Matheus Lima, que também estava classificado para a final, abriu mão da prova para se poupar para os 400m com barreiras.

A noite em Santa Fé teve frio e vento, condição que os próprios atletas brasileiros citaram como obstáculo ao longo da jornada.

Dois recordes em 24 horas

O recorde dos Jogos Sul-Americanos nos 400m pertencia a outro brasileiro, Anderson Henriques, que tinha corrido 45s03 em Santiago, em 2014. A marca caiu na terça-feira (22), quando Piu venceu a semifinal com 44s99. Na final, ele tirou mais 38 centésimos do próprio recorde.

“Estou feliz com o tempo e com o resultado. Foi uma corrida estratégica. Queria sentir o corpo, sentir a pista, ver como a gente está”, disse ele à Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) depois da semifinal.

O dado que mais chama atenção, porém, é outro. Segundo a CBAt, Alison correu todas as provas de 400m rasos de 2026 abaixo dos 45 segundos. O melhor tempo dele na distância é 44s38, feito em 18 de abril, em Gainesville, nos Estados Unidos. Em julho, no Troféu Brasil, ele já tinha feito 44s76 na semifinal e 44s60 na final, no Ibirapuera.

Alison dos Santos sorri e faz o sinal de V com as duas mãos após a semifinal dos 400m em Santa Fé
Piu depois da semifinal dos 400m, em que fez 44s99 e bateu o recorde dos Jogos Sul-Americanos pela primeira vez. Foto: Alexandre Loureiro/COB

O “43” que ficou para depois

A régua de Piu em Santa Fé não era o recorde do campeonato. Era o recorde brasileiro dos 400m rasos, 44s29, de Sanderlei Parrela, marca que valeu a prata no Mundial de 1999. Um degrau acima está o recorde sul-americano, 43s93, do colombiano Anthony Zambrano, feito na semifinal olímpica de Tóquio, em 2021.

Na véspera da final, ele não escondeu o alvo. “A ideia é essa. Fechar a temporada com chave de ouro, em uma pista boa. Sair com moral no final da temporada. A gente sabe que é difícil, um recorde brasileiro que já está há muito tempo. Mas a ideia de ter vindo para cá, depois de uma temporada de barreiras, é a de correr esse 43”, disse à CBAt.

Depois do ouro, o tom foi de balanço, e não de lamento. “Achei a prova boa, não tenho do que reclamar. A gente se programou para o Ultimate, aqui foi muito mais na vontade do que no preparo. Então chegar aqui e correr para 44 segundos duas vezes é maravilhoso. Foi uma boa temporada. Estou feliz, óbvio que queria correr mais rápido, estou sempre na vontade de querer mais, mas também tenho que ter gratidão e sair daqui feliz”, afirmou o atleta, que é treinado por Felipe de Siqueira.

A temporada que Santa Fé encerra

O ouro nos 400m rasos fecha o ano mais vitorioso da carreira de Alison, de 26 anos, nas provas individuais. A lista, em ordem:

  • Julho, Troféu Brasil: campeão dos 400m com barreiras (46s48) e dos 400m rasos (44s60). Foi o primeiro título brasileiro adulto em prova individual do campeão mundial, como o Atleta Pro mostrou na cobertura do Troféu Brasil.
  • 27 de agosto, Zurique: recorde mundial dos 400m com barreiras, com 45s80, tirando a marca de 45s94 que Karsten Warholm tinha desde a final olímpica de Tóquio. É o primeiro recorde mundial do atletismo brasileiro desde João do Pulo, em 1975. Os detalhes estão na reportagem sobre o recorde de Zurique.
  • 5 de setembro, Bruxelas: vitória na final da Diamond League, com 46s70, e o terceiro título do circuito, depois de 2022 e 2024. O norte-americano Trevor Bassitt (48s03) e o brasileiro Matheus Lima (48s18) completaram o pódio.
  • 13 de setembro, Budapeste: campeão da primeira edição do World Athletics Ultimate Championship, com 45s98, à frente de Rai Benjamin (46s40) e do próprio Warholm (46s78).

Com o tempo de Budapeste, Alison se tornou o único atleta a correr os 400m com barreiras abaixo dos 46 segundos duas vezes. Na história da prova, só existem três marcas abaixo dessa barreira: as duas dele e a de Warholm em Tóquio. Segundo a Agência Brasil, ele fechou a temporada dos 400m com barreiras invicto.

Em Budapeste, depois da vitória, ele resumiu a lógica de uma prova de campeonato ao site da World Athletics: no circuito, a preocupação é o tempo; num campeonato, “correr rápido é importante, mas vencer é mais importante”.

Alison dos Santos mostra a medalha de ouro e o mascote dos Jogos Sul-Americanos no pódio dos 400m em Santa Fé
Alison dos Santos no pódio dos 400m rasos, com a medalha de ouro e o mascote dos Jogos. Foto: Alexandre Loureiro/COB

Correr pelo quadro de medalhas

Um recordista mundial não precisava de uma competição continental no fim de setembro, depois de um calendário que já tinha passado por Diamond League e Ultimate. Piu explicou ao COB por que foi mesmo assim.

“Esse ano foi maravilhoso. A gente fez boas competições tanto no raso quanto na barreira. Trabalhamos no recorde mundial, conseguimos construir uma temporada incrível e era uma boa oportunidade terminar a temporada aqui nos Jogos Sul-americanos correndo com 400 metros rasos e revezamento”, disse. E completou: “Não estou correndo só pelo meu resultado, minha marca pessoal, mas quero ajudar o Brasil a ganhar o campeonato por equipes, o quadro de medalhas”.

O quadro, por ora, não está em disputa. Ao fim da quarta-feira, o Time Brasil somava 99 ouros, 74 pratas e 65 bronzes, 238 medalhas no total, contra 54 ouros e 209 medalhas da Argentina, segunda colocada, segundo o COB. Só no dia 23 foram 16 ouros brasileiros. O atletismo, sozinho, já tinha 20 pódios (10 ouros, 6 pratas e 4 bronzes) depois de dois dias de provas, de acordo com a CBAt.

O ouro também tem valor prático: os campeões dos Jogos Sul-Americanos estão automaticamente classificados para os Jogos Pan-Americanos de Lima, em 2027. O atletismo em Santa Fé vai até sexta-feira (25), e Piu ainda está inscrito no revezamento 4x400m. Os Jogos já tinham rendido ao Brasil outras histórias fortes, como o ouro de Bia Bulcão no florete, em Rosario, 20 anos depois de ela começar a competir na mesma cidade.

A noite das barreiras brasileiras

O ouro de Alison não veio sozinho. Pouco antes da final dos 400m, Vitória Sena venceu os 100m com barreiras com 13s05, novo recorde da competição, que pertencia à venezuelana Josiane Romero (13s08, em Cochabamba 2018). Ketiley Batista fez a dobradinha, com 13s31. Nos 110m com barreiras, Rafael Pereira foi campeão com 13s52, e Thiago Resende levou o bronze, com 13s89.

Piu fez questão de puxar o assunto. “Ah, maravilhoso! A gente está provando que Brasil é uma potência, estamos muito fortes. E melhor ainda na barreira. Eu que tenho recorde mundial, Rafael, Eduardo, Matheus, o Pantera Negra (Thiago Resende) também. Tem vários atletas aí agora competindo muito bem com barreira e mostrando que a gente não está de brincadeira”, disse ao COB.

Na mesma noite, o Brasil ainda fez dobradinhas no salto triplo feminino (Gabriele Sousa, 13,57 m, e Regiclécia Cândido, 13,16 m), no arremesso do peso (Willian Dourado, 20,27 m, e Wellington Morais, 20,19 m) e no decatlo (José Fernando Ferreira, o Balotelli, com 7.822 pontos, e Felipe dos Santos, com 7.656).

O que a temporada de Piu ensina sobre alta performance

Consistência vale mais do que o pico. O recorde mundial de Zurique é a manchete do ano, mas o dado mais revelador de 2026 é a regularidade: todas as provas de 400m rasos abaixo de 45 segundos e a prova principal sem derrota no ano. Pico qualquer atleta tem em uma tarde boa. Correr no mesmo nível de abril a setembro, em duas provas diferentes, é o que sustenta uma carreira.

Temporada tem centro. O próprio Alison deixou claro que o planejamento apontava para o Ultimate, e que Santa Fé foi “muito mais na vontade do que no preparo”. Isso não é descuido, é escolha. Ele priorizou a prova que mais importava, venceu, e só depois abriu espaço para testar o limite numa distância que não é a dele. Quem tenta estar no auge em todas as competições do calendário costuma não estar em nenhuma.

Gratidão e fome podem conviver. “Óbvio que queria correr mais rápido, estou sempre na vontade de querer mais, mas também tenho que ter gratidão.” A frase resume uma relação saudável com o resultado. O atleta não trata o 44s61 como fracasso por não ter sido 43, nem se acomoda por ter ganhado o ouro. A meta que não saiu vira ponto de partida da próxima temporada, não cobrança.

O coletivo também é motivação. Um recordista mundial correndo um Sul-Americano pelo quadro de medalhas do país mostra que objetivo individual e objetivo de equipe não precisam competir entre si. O ambiente em que o atleta está inserido, com uma geração forte de barreiristas empurrando uns aos outros, ajuda a explicar por que o Brasil ganhou tantas provas de barreira na mesma noite.

Evolução não tem data para acabar. Na semifinal, olhando para Los Angeles 2028, Piu deixou a receita pronta: “A gente está rápido, forte, consistente. A gente quer ser melhor, a gente pode ser melhor. Então, a cada temporada, é melhorar e evoluir alguma coisa para cada vez ser mais rápido”. O recorde brasileiro dos 400m rasos continua de Parrela, pelo menos por enquanto.

Consistência, prioridade e fome de evoluir: é assim que se constrói uma temporada de campeão.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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