Um menino de Ubaitaba, no interior da Bahia, cai de uma árvore aos dez anos, bate as costas numa pedra e perde um rim. Antes disso, ainda bebê, uma queimadura quase o mata, e os médicos chegaram a dizer aos pais que ele não passaria dos três anos. Uma menina da periferia de Guarulhos caminha duas horas para treinar, filha de empregada doméstica, e entre os 16 e os 20 anos passa por três cirurgias no mesmo joelho. Hoje esse menino, Isaquias Queiroz, é o maior canoísta da história do país, com cinco medalhas olímpicas. Essa menina, Rebeca Andrade, é a maior medalhista olímpica brasileira de todos os tempos.
Como Treinador Mental de Atletas, eu olho para essas duas trajetórias e não vejo sorte, nem talento bruto apenas. Vejo o padrão. No Brasil, o caminho até o alto rendimento é uma corrida de obstáculos que começa muito antes da linha de largada, e é justamente essa dureza que, quando não destrói o atleta, o forja. Este texto é sobre os dois lados dessa moeda: por que ser atleta brasileiro é mais difícil, e por que essa mesma dificuldade produz uma força mental que a maioria do mundo não precisa desenvolver.
O contexto honesto: um sistema falho que exige praticamente sem apoiar
Comecemos sem romantismo. O atleta brasileiro médio não começa perdendo para o adversário: começa perdendo para a estrutura. Falta base esportiva nas escolas, faltam ginásios e pistas de qualidade acessíveis, falta continuidade nas políticas públicas, que mudam a cada gestão. O apoio financeiro, quando chega, muitas vezes chega tarde: primeiro o atleta precisa vencer para ser bancado, quando deveria ser bancado para poder vencer. Talento de sobra o país sempre teve. O que faltou, historicamente, foi o chão institucional sob esse talento.
Isso tem um custo psicológico muito alto. O jovem atleta brasileiro aprende cedo que não pode contar com garantias. Que o patrocínio pode sumir, que a federação pode se desorganizar, que a bolsa pode atrasar. Ele cresce administrando incerteza, e incerteza crônica, para a maioria das pessoas, é fonte de ansiedade. Para o atleta que sobrevive a ela, vira outra coisa.
1. A escassez como escola de resiliência
Resiliência não é um traço de nascença; é uma competência construída no processo. O atleta que treinou em quadra rachada, que pegou três ônibus para chegar ao treino, que competiu sem treinador, desenvolve uma tolerância à adversidade que o atleta de estrutura impecável raramente desenvolve. Quando esse brasileiro finalmente chega a uma final mundial, o cenário caótico (arquibancada hostil, atraso, imprevisto logístico) não o desestabiliza, porque ele foi criado no caos. A escassez, involuntariamente, treinou o sistema nervoso dele para a pressão.
O cuidado aqui é não idealizar a falta. A escassez também aleija: para cada Isaquias, há dezenas de talentos que a estrutura engoliu antes de florescer. A força não vem da pobreza em si: vem de atravessá-la com apoio afetivo, propósito e método. É por isso que projetos sociais aparecem em quase todas essas histórias. Isaquias chegou à canoagem pelo Projeto Segundo Tempo; Rebeca entrou na ginástica por um projeto social da prefeitura de Guarulhos. A dureza abre a ferida; o projeto e as pessoas ao redor decidem se ela vira cicatriz ou colapso.
2. Propósito claro: quando o esporte é a única porta
Há uma diferença mental profunda entre quem pratica esporte como uma entre muitas opções e quem o pratica como a porta de saída. Para boa parte dos atletas brasileiros, o esporte não é hobby de fim de semana: é projeto de vida e, muitas vezes, de família inteira. Esse peso pode esmagar, mas também gera um tipo de motivação que a psicologia chama de intrínseca e comprometida: o atleta não treina porque combinou, treina porque aquilo significa. Rebeca chegou a pensar em desistir diante das cirurgias, da distância da família e das dificuldades financeiras. Voltou. O que faz um atleta voltar depois de três cirurgias no mesmo joelho não é o físico: é o significado que ele atribui ao que faz.

3. Autoconstrução: aprender a ser o próprio técnico
Onde falta estrutura, o atleta é obrigado a assumir funções que, em países mais organizados, são terceirizadas para uma equipe. Ele vira, em parte, seu próprio preparador, seu próprio gestor, seu próprio psicólogo. Isso é injusto: nenhum atleta deveria carregar tudo isso sozinho. Mas produz um efeito colateral notável: autonomia mental. O brasileiro que se desenvolveu nesse ambiente costuma chegar ao topo com uma capacidade rara de se autorregular, de tomar decisão sob pressão sem esperar que alguém decida por ele, de se remontar depois de uma derrota sem depender de um discurso externo. Ele normalmente é a criança que se torna adulto antes do que a maioria.
4. Lidar com a derrota num país que cobra vitória
O torcedor brasileiro ama e cobra na mesma intensidade. O atleta daqui carrega, além da própria expectativa, a de um país inteiro que projeta identidade no resultado. Aprender a separar o valor pessoal do placar, num ambiente que confunde as duas coisas, é uma das tarefas mentais mais difíceis, e mais formativas. O atleta que domina isso desenvolve uma blindagem saudável: ouve a cobrança, respeita a torcida, mas não entrega a ela o controle da própria cabeça. É essa maturidade que permite perder uma final e voltar mais forte na seguinte, em vez de afundar no julgamento alheio.

A construção dessa mentalidade
Nenhuma dessas forças nasce pronta, e nenhuma é garantida pela adversidade sozinha. Elas se constroem no encontro entre a dureza do ambiente e três ingredientes: um propósito que dá sentido ao sacrifício, pessoas que sustentam o atleta nos momentos de quase-desistência, e método: treino, rotina, orientação. Tire qualquer um desses e a dificuldade deixa de forjar e passa a destruir. As histórias que celebramos são as que tiveram os três. É importante lembrar das que não tiveram, porque elas explicam por que precisamos de estrutura, e não apenas de superação heroica.
O que está mudando
Aqui vem a parte que raramente se conta, porque a narrativa do “atleta que venceu apesar do país” é confortável demais para ser abandonada. O cenário está, de fato, mudando. Atletas brasileiros estão começando a entender que possuem um valor social muito alto, e com isso estão criando suas marcas pessoais fortes e engajando com fãs e um público que hoje pode ser alcançado com o celular que está na palma da sua mão. Esse movimento está permitindo não só os atletas profissionais monetizarem a carreira com excelentes patrocínios, mas também amadores.
Isso não significa que o problema acabou. Significa que a mentalidade começou a mudar: quando o talento encontra estratégias e trabalho, o resultado aparece. O desafio dos próximos anos é não deixar essa mudança virar refém de política de novo, e fazer com que os atletas cresçam de forma independente.
O que fica para quem treina no Brasil
Se você é atleta e treina neste país, a mensagem tem duas mãos e as duas importam. A primeira: a dificuldade que você enfrenta é real e não deveria ser normalizada: você tem o direito de cobrar estrutura, apoio e continuidade, e cada avanço institucional é uma conquista coletiva que beneficia quem vem depois. A segunda: enquanto essa estrutura amadurece, o terreno em que você pisa está, sem pedir licença, construindo em você uma força que muita gente com condições melhores nunca vai ter. A escassez que atrasa é a mesma que endurece. O truque mental é não usar a dureza como desculpa nem como identidade de vítima, mas como treino: o treino invisível que, no dia da final, ninguém no mundo terá feito tanto quanto você.
Leia também: como o atleta monta o próprio media kit com IA e como a China se tornou uma potência olímpica e o que o Brasil pode aprender.
Perguntas frequentes
Por que é mais difícil ser atleta de alto rendimento no Brasil?
Porque o atleta começa perdendo para a estrutura, não para o adversário. Falta base esportiva nas escolas, faltam ginásios e pistas de qualidade acessíveis e falta continuidade nas políticas públicas, que mudam a cada gestão. Quando o apoio financeiro chega, costuma chegar tarde: primeiro o atleta precisa vencer para ser bancado, quando deveria ser bancado para poder vencer.
A falta de estrutura ajuda o atleta brasileiro?
Não por si só. A escassez treina o sistema nervoso para a pressão, mas também aleija: para cada Isaquias, há dezenas de talentos que a estrutura engoliu antes de florescer. A força não vem da pobreza em si, vem de atravessá-la com apoio afetivo, propósito e método.
Como Isaquias Queiroz começou na canoagem?
Pelo Projeto Segundo Tempo. Ele nasceu em Ubaitaba, no interior da Bahia, perdeu um rim aos dez anos ao cair de uma árvore e hoje é o maior canoísta da história do país, com cinco medalhas olímpicas.
Como Rebeca Andrade começou na ginástica?
Por um projeto social da prefeitura de Guarulhos. Filha de empregada doméstica, ela caminhava duas horas para treinar e passou por três cirurgias no mesmo joelho entre os 16 e os 20 anos.
O que faz um atleta voltar depois de lesões graves?
Não é o físico, é o significado que ele atribui ao que faz. Rebeca chegou a pensar em desistir diante das cirurgias, da distância da família e das dificuldades financeiras, e voltou.
O que está mudando para o atleta brasileiro?
Atletas estão entendendo que possuem um valor social muito alto e construindo marcas pessoais fortes, alcançando o público direto pelo celular. Isso está permitindo que profissionais e também amadores monetizem a carreira com patrocínio. O desafio dos próximos anos é não deixar essa mudança virar refém de política de novo.
Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.
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