A criança chega ao autódromo com o macacão dentro da mochila, o capacete debaixo do braço e a moto já descarregada. Pede para vestir. O professor manda sentar.
“Não, fica de roupa mesmo. Vamos sentar aqui”, conta Rodrigo Bortolatto sobre o começo das aulas dele. Em vez da pista, o aluno recebe um caderninho. A primeira lição do dia é escrita, não pilotada. Bicampeão sul-brasileiro de motovelocidade e hoje professor de pilotagem em Santa Catarina, Bortolatto foi o convidado do No Topo Podcast publicado nesta terça (25), em conversa de uma hora e vinte com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto.
O método parece uma excentricidade de professor. É, na verdade, a conclusão prática de uma tese que ele repete o episódio inteiro: velocidade sem base é dívida, e a conta chega.
“Confiança sem técnica é andar numa corda bamba”
A primeira pergunta do episódio foi direta: para um piloto de motovelocidade, o que vem primeiro, ser rápido ou confiar?
Bortolatto não aceitou a escolha. Para ser rápido é preciso confiar, disse, mas a origem da confiança muda tudo.
“Se você tiver a confiança só da coragem e não souber o que está fazendo, você está andando numa corda bamba. Uma hora vai dar errado.”
O que ele ensina antes de qualquer coisa são exercícios de base, o equivalente à escolinha de futebol aplicada à moto. A lógica é fisiológica antes de ser filosófica: o corpo que sabe o que está fazendo libera a ousadia porque tem repertório para sustentá-la. Estudar, entender a técnica, entender o comportamento da moto, entender alimentação e preparo.
“A confiança veio como resultado da tua preparação, e não como um objetivo em si mesma”, resumiu. “O objeto da confiança a gente não busca. A gente busca se preparar, e ela vem sozinha.”
É exatamente o raciocínio invertido do piloto de rua que quer ser rápido antes de ser competente. E é aí que a conversa encontra o número mais duro do episódio.
O país que bateu recorde de vendas e continua contando mortos
O Brasil vendeu 2,19 milhões de motocicletas em 2025, alta de 17,1% sobre o ano anterior e o maior volume desde 2003, segundo a Abraciclo. A produção chegou a 1,98 milhão de unidades, a maior em 15 anos. Para 2026, a projeção da entidade é de 2,3 milhões de motos vendidas.
A outra ponta da estatística é o Atlas da Violência 2025. Em 2023, o país registrou quase 13,5 mil acidentes com óbito envolvendo motocicletas, contra 12 mil em 2022. A taxa subiu 12,5% em um ano e chegou a 6,3 mortes por 100 mil habitantes. As motos estavam presentes em 38,6% de todos os acidentes fatais de trânsito, participação que era de 3% no fim dos anos 1990.
Bortolatto convive com esse número em forma de aluno. Ele contou o caso de dois rapazes que fizeram curso com ele, um de 19 anos com uma Kawasaki Z900 e um amigo de 20 com uma Yamaha R6, motos que passam de 260 km/h. Os dois caíram na aula.
“Rapaziada, se vocês não forem para a pista, vocês vão morrer.”
Meses depois, o de 19 anos, já com uma 1000 cilindradas, escorregou em uma curva na rua buscando performance e bateu de frente com um carro a 120 km/h. Sobreviveu. Mandou mensagem para o professor: “Quando eu ficar bom, eu vou voltar só para a pista, não quero mais saber de rua.”
A tese dele é de gestão de risco, não de moralismo. A rua tem buraco, óleo, caminhão na contramão e cachorro atravessando. A pista tem área de escape, ambulância e ninguém vindo na direção contrária. “Eu brinco que tem dois tipos de motociclista: o que já caiu e o que ainda vai cair”, disse. “Se é para cair, que caia ali, aprenda ali.”
Ele também dá treinamento para empresas cujos funcionários vão trabalhar de moto, depois de acidentes recorrentes na frota. O diagnóstico é sempre o mesmo: gente que ganhou confiança sem nunca ter recebido base.
Do muro na primeira corrida a dois anos invicto
A biografia esportiva dele começa exatamente no erro que ele hoje ensina a evitar.
Bortolatto vinha de anos de track day, só treino, quando resolveu competir em 2020. Na primeira corrida, bateu contra a barreira de pneus a cerca de 100 km/h na curva 2. Tinha acabado de ultrapassar o campeão do ano anterior e estava sobrando na prova.
“Eu achei que era só andar rápido”, contou. “Falei: tem alguma coisa que escapa do meu conhecimento.”
O que faltava não era mão. Era método, preparo do equipamento e cabeça, o mesmo terreno que o portal já mapeou no guia de treinamento mental para atletas. Foi quando ele começou a trabalhar com Nicholas Pasqualetto e a acompanhar o conteúdo da Atleta Pro. Comprou uma moto de terra para treinar, mudou a rotina e ganhou dois campeonatos seguidos, dois anos sem perder corrida, segundo ele.
O detalhe que ele faz questão de contar é a final do primeiro título. Chegou nela depois de ser atropelado por um quadriciclo e de pegar covid, com dois meses praticamente sem treinar. O conselho que recebeu foi para parar de administrar o treino dos adversários e cuidar do que ainda dava para fazer.
O troféu daquela temporada hoje está na garagem, coberto de poeira. Ele gravava um vídeo quando reparou nisso.
“Se você não aprender nada com o esporte, a única coisa que vai te restar é isso aqui: um pedaço de madeira empoeirado.”
Em 2023, com o nascimento do terceiro filho, ele parou de competir e virou professor em tempo integral. Não foi abandono do esporte, foi troca de função dentro dele.
A aula que começa com um caderno

O método com crianças é o núcleo do episódio e o que mais destoa do mercado.
Antes da primeira volta, Bortolatto pergunta ao aluno qual é o sonho dele. Quase sempre a resposta é correr na MotoGP. A pergunta seguinte é a que abre o trabalho: quais são as características de um piloto de MotoGP? A criança lista, ele anota, e então devolve a conta: quantas dessas você tem hoje?
Vem então o interrogatório que os pais assistem sem entender: você lê? você fica no celular? você fala inglês ou espanhol? você conseguiria conversar cinco minutos com um adulto em uma entrevista? A resposta costuma ser não para tudo. O acerto é escrito no caderno, com horário definido, e o aluno leva para casa.
A primeira lição registrada costuma ser a mesma: a competição é diária.
“A hora que você for escovar o dente, você tem que ser o melhor escovador de dente do mundo”, diz ele para as crianças, que riem. Em seguida vem o exemplo do ator Terry Crews, ex-jogador de NFL que, ao chegar a Los Angeles, varria chão de fábrica por US$ 8 a hora e se perguntava como varreria aquele chão se estivesse recebendo US$ 1 milhão para fazer aquilo.
A cobrança inclui boletim. Aluno com nota ruim perde a aula, e ele avisa que não pede autorização ao pai para isso.
“Se eu só ensinar o cara a ser um piloto rápido, eu estou fazendo pouco.”
Parte do trabalho, aliás, é com os pais. Ele contou de uma competição em que precisou chamar um pai de lado porque o homem elogiava os adversários na frente do próprio filho, que já estava com o coração disparado no grid. O pedido foi simples: fale isso comigo depois, não na frente dele.
E há a distorção que ele vê crescer: pai que sai satisfeito do fim de semana porque a foto ficou boa. “Se sair uma foto bonita para o Instagram, está bom”, resumiu, sobre o menino que andou errado e caiu.
Nicholas contou no episódio o contraponto que viveu na própria carreira. Ele morou e treinou três meses com Pedro Zanoni, pai do piloto Swian Zanoni, campeão brasileiro de motocross em 2010 e morto em 2011, aos 23 anos, em uma prova regional. Segundo Nicholas, aqueles três meses valeram mais que três anos com outros treinadores, e o motivo é o mesmo método: em nenhum momento o treinador levantou a voz, sempre fazendo o atleta entender o próprio erro em vez de apontá-lo. O portal já tratou desse impacto no texto sobre motocross, enduro e treinamento mental.
A base da motovelocidade brasileira finalmente existe, e custa caro

Perguntado se a procura por formação técnica cresceu, Bortolatto foi categórico: cresceu, e o salto está nos últimos três anos.
A estrutura hoje tem nome e calendário. O GP Ohvale Brasil, chancelado pela Confederação Brasileira de Motociclismo, é o Campeonato Brasileiro de MiniGP e reúne pilotos de 7 a 14 anos nas categorias GP0 110, GP0 160 e GP0 190, com etapas em Registro e no Vale do Ribeira, em São Paulo. A Yamaha mantém a R15 bLU cRU América Latina, categoria de formação do Brasileiro de Motovelocidade para pilotos de 8 a 15 anos, com vaga em testes fora do país como prêmio.
Bortolatto foi assistir a uma etapa da Ohvale em São Paulo e voltou impressionado.
“Tinha crianças fazendo a curva um a mais de 100 por hora, cotovelo no chão, com aquelas motinhas. Falei: não parece que eu estou no Brasil.”
O gargalo é o de sempre no esporte a motor. A mini moto de competição, importada, passa de R$ 100 mil no Brasil, segundo ele, com o imposto respondendo por boa parte da diferença em relação à Europa. Some a isso viagem, hospedagem, dias fora do trabalho e semanas fora da escola: a família inteira entra na conta.
Ele não trata isso como problema apenas financeiro. É por isso que o caderno vem antes da moto. Se em cinco anos o pai não puder mais bancar, o que sobra ao adolescente é o que ele aprendeu a fazer com disciplina, não a passagem pelo grid. E o caminho pode continuar em outro esporte mais barato.
As presenças que temperam o atleta
O trecho final da conversa virou para um ponto que atravessa qualquer modalidade: com o que o atleta se alimenta fora do treino.
Bortolatto usa uma imagem de cozinha. Frango deixado no molho por uma hora fica de um jeito; deixado de um dia para o outro, fica outro. “A gente se tempera das presenças que a gente coloca na vida”, disse, citando o professor Diego Reis, com quem estudou na pós-graduação.
A aplicação prática dele foi cortar seguidos no Instagram de cerca de 200 para 50, transformando a rede em ferramenta de estudo em vez de vitrine, e reduzir drasticamente o tempo de tela. O argumento não é abstinência, é curadoria: o algoritmo devolve amplificado aquilo que a pessoa já consumiu, e o atleta acaba desejando por imitação metas que não são dele.
Em casa, a regra é rotina. Os três filhos vão para a cama às 20h30, sem exceção, o que também protege o horário do casal. O mais velho, de 13 anos, não tem rede social e trocou o tempo de celular por leitura. Foi selecionado para um projeto de altas habilidades na escola, onde escreve um livro de fantasia com uma colega.
Nicholas trouxe o dado que empurra a conversa para fora da anedota: os atendimentos por saúde mental no SUS entre crianças de 5 a 9 anos cresceram cerca de 50% no estado de São Paulo entre 2023 e 2025, em um cenário em que oito de cada dez crianças passam mais tempo em tela do que o recomendado. É a mesma linha que o portal tratou ao mostrar como a base está formando atletas de tela.
O esporte, na leitura dos dois, é a contramão disso porque devolve a criança ao mundo físico. É medo real, dor real, consequência real e concentração que nenhum jogo simula.
O que isso ensina sobre alta performance

O episódio propõe uma inversão simples e desconfortável: quase todo mundo procura acelerar o resultado, e o grosso do erro está em pular a fundação.
Na moto, a fundação é técnica, e ignorá-la produz um piloto que anda rápido enquanto a sorte durar. Na formação de um jovem, a fundação é hábito, e ignorá-la produz um talento que não sobrevive ao primeiro campeonato difícil. Nos dois casos, a confiança é sintoma de preparo, nunca substituto dele.
Vale também para o adulto que nunca vai competir. O piloto de fim de semana que compra a moto grande antes da primeira aula está fazendo com o próprio corpo o que a empresa faz quando escala uma operação sem processo. O sistema aguenta até o dia em que aparece a variável que ninguém treinou.
Perguntado no fim do episódio o que significa chegar ao topo, Bortolatto deu uma resposta que não passa por pódio.
“Chegar no topo é a pessoa conseguir, através da vida dela, melhorar a vida dos outros. Tem pessoas que nunca precisaram falar uma palavra e foram grandes professores. A vida dessa pessoa era uma aula.”
É a mesma conclusão do troféu empoeirado na garagem, dita pelo outro lado. O resultado é a parte que envelhece. O que fica é o método, e o método cabe num caderno.
Assista ao episódio completo
A confiança é resultado de preparo, não atalho
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