O Brasil chegou aos CrossFit Games 2026 com 31 atletas espalhados por quatro divisões, uma das delegações mais numerosas e diversificadas que o país já montou na competição. Enquanto a elite masculina segue com dois representantes, é em outra frente que o Brasil aparece como potência de verdade: na divisão de atletas adaptados, onde tem o campeão mundial em título e mais cinco medalhistas recentes.
A competição vai até domingo (26) em San José, na Califórnia, no SAP Center. A primeira jornada individual já foi disputada na quarta-feira, no The Ranch, em Aromas, e as divisões Adaptados e Teens entram em ação nesta sexta-feira. Abaixo, quem é quem na delegação brasileira e o que cada um vai buscar.
Kalyan Souza e Guilherme Malheiros na elite
Na categoria principal do esporte, o Brasil tem dois nomes. Kalyan Souza disputa os Games pela quarta vez consecutiva e chega com a moral do título inédito da Copa Sur, a competição continental que garantiu sua vaga. Seu melhor resultado até aqui é o 14º lugar de 2025, e é essa marca que ele tenta superar em San José.
Ao lado dele está Guilherme Malheiros, o atleta brasileiro de maior projeção internacional na modalidade. Gui carimbou sua sexta participação nos Games pela vitória na semifinal online. Seu currículo inclui o vice-campeonato mundial na categoria Teens em 2017 e um 7º lugar na elite em 2021, que segue como a melhor colocação de um brasileiro na divisão principal.
A volta de Malheiros tem peso extra. Ele ficou fora da edição de 2025, um ano depois de abandonar a competição de 2024, em Fort Worth, após a morte do atleta sérvio Lazar Đukić, que se afogou durante a prova de natação da primeira jornada daquele ano. Đukić tinha 28 anos e era ex-jogador de polo aquático. A natação, retirada do programa desde então, voltou a ser disputada em 2026.

O adaptado é onde o Brasil manda
Se existe uma divisão em que o Brasil deixou de ser coadjuvante, é a dos atletas adaptados. São 11 brasileiros classificados, com um elenco que reúne campeões, vice-campeões e estreantes.
O nome mais forte é Hildon Carvalho, atual campeão mundial da categoria, que desembarca em San José para defender o título. Grislaine Coelho Schueler foi campeã em 2024 e terceira colocada em 2025. Elaine de Rocco já subiu duas vezes ao pódio. José Aparecido Costa Filho e Fabrício Taveira foram vice-campeões em 2025. Lucas Almeida Lima completa o grupo de veteranos.
A renovação vem com cinco estreantes: Wesley Queiroz, Danilo de Souza Araújo, Paulo Henrique Almeida Fonseca, Gabriel Monteiro e Fernando Campos.
Vale registrar o contraste econômico. A divisão Adaptados fica com cerca de 3% da bolsa total de premiação da temporada, algo próximo de US$ 76 mil distribuídos entre todos os atletas e todas as categorias. É a divisão onde o Brasil mais ganha e a que menos paga, o que explica por que boa parte desses atletas depende de apoio local e de vaquinha para chegar aos Estados Unidos. O portal detalhou como a premiação dos Games é dividida entre as divisões.
A geração Teens que já sobe no pódio
São nove brasileiros nas categorias juvenis, e pelo menos duas chegam com status de favoritas.
Na 14-15 feminina, Roxy Rebane volta depois de ser vice-campeã mundial em 2025, acompanhada da estreante Babi Caetano. No masculino da mesma faixa, o Brasil chega com volume: Bernardo Barbosa, Enzo Gomes de Oliveira e Ethan Mathias Ferrão estreiam, e Vinícius Oliveira faz sua segunda participação.
Na 16-17 feminina, Ana Laura Cattai é a aposta mais consistente do país: foi vice-campeã mundial na 14-15 em 2024 e terceira colocada na 16-17 em 2025. Letícia Cerqueira disputa seu terceiro Games. Mateus Ferrari completa a lista no masculino.
Masters: da estreia à quinta participação
A delegação Masters tem 9 atletas e mostra o alcance etário do esporte no país. Na 35-39, David Fonseca Sousa estreia. Na 40-44, o Brasil leva Márcio Narciso, a multimedalhista mundial Andreia Pinheiro e a estreante Joanna Boaventura. Na 45-49, Flávia Fernandes e Marcelo Oliveira fazem sua primeira aparição. Na 50-54, Rô Morais e a estreante Vanessa Tafas. E na 60-64, Lasara Magnani disputa sua quinta participação nos Games.
É essa faixa, a dos veteranos, que costuma responder melhor à pergunta que o CrossFit brasileiro fazia dez anos atrás: o esporte forma atleta ou só forma público? A resposta de 2026 é que forma atleta com carreira longa, capaz de competir mundialmente depois dos 60 anos.
O que o Brasil pode realisticamente conquistar
Vale separar expectativa de possibilidade. Na elite, o teto brasileiro nos Games segue sendo o 7º lugar de Malheiros em 2021. Nenhum brasileiro subiu ao pódio da divisão principal em 20 edições, e um top 10 já seria o melhor resultado do país desde então. Kalyan Souza persegue algo mais modesto e mais concreto: superar o próprio 14º lugar.
Nos adaptados, a conversa é outra. Ali o Brasil disputa título, não colocação. Hildon Carvalho defende o campeonato mundial, e Grislaine Schueler, Elaine de Rocco, José Aparecido Costa Filho e Fabrício Taveira já ocuparam pódios em edições recentes. É a divisão onde uma medalha brasileira não é surpresa, é o resultado esperado.
Nos Teens, Ana Laura Cattai é o caso mais consistente: subiu ao pódio nas duas últimas edições, em faixas etárias diferentes, o que sugere que o desempenho não veio de um ano isolado de maturação física. Roxy Rebane chega como vice-campeã mundial de 2025 na 14-15 e disputa a mesma faixa em 2026.
Onde e quando ver os brasileiros
Aqui mora o problema prático. As divisões Adaptados, Teens e Masters, justamente onde o Brasil tem o maior número de representantes e as melhores chances de pódio, são exclusivas da plataforma paga FloElite, que cobra US$ 29,99 por mês ou US$ 149,88 por ano.
Kalyan Souza e Guilherme Malheiros, por competirem na divisão Individual, aparecem na maior parte da programação gratuita do YouTube da CrossFit Brazil, que tem narração em português. A programação de domingo, dia da decisão, é integralmente gratuita. O guia completo de onde assistir, com os horários de Brasília de cada divisão, está no portal.
Nesta sexta-feira, os Adaptados competem às 16h26 e às 20h23 (horário de Brasília), e os Teens às 11h e às 15h30. A divisão Individual entra às 11h30 e vai até depois da meia-noite.
O que isso ensina sobre alta performance
A delegação brasileira de 2026 diz uma coisa que o resultado da elite sozinho não diria: o país virou competitivo onde investiu com constância, não onde tinha mais visibilidade. O adaptado brasileiro acumula títulos mundiais com uma fração do orçamento, da cobertura e da audiência que a elite recebe.
O padrão se repete em quase toda modalidade olímpica do país. Categoria com base organizada, competição regional frequente e continuidade de treinadores produz medalha. Categoria que depende de talento isolado produz história bonita e resultado instável. A diferença entre uma coisa e outra raramente é o atleta.
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