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Eddy Merckx e os ciclistas que viraram marca de bicicleta

Eddy Merckx com a camisa da Molteni no pódio da Amstel Gold Race de 1973

Eddy Merckx ganhou cinco Tours de France, cinco Giros d’Italia, uma Vuelta e três Mundiais. Dois anos depois de parar de correr, em 1980, abriu uma fábrica de quadros numa antiga fazenda em Meise, na Bélgica, e pôs o próprio nome na bicicleta. Quarenta e seis anos depois, a Eddy Merckx continua no mercado e acaba de ganhar o prêmio de bicicleta de corrida do ano da BikeRadar com o modelo 525R. Mas a empresa não é mais dele.

Desde 2017, a marca pertence à Belgian Cycling Factory, o grupo da Ridley, e é desenvolvida e montada em Beringen. O Canibal, hoje com 81 anos, vendeu o controle em 2008. A trajetória da Eddy Merckx Cycles abre uma pergunta que vale para qualquer atleta de sucesso: quando o nome vai para o produto, o campeão está construindo uma empresa ou só emprestando a fama? No ciclismo, há exemplos dos dois lados, e os números mostram a diferença.

Eddy Merckx com a camisa da Molteni no pódio da Amstel Gold Race de 1973
Eddy Merckx no pódio da Amstel Gold Race de 1973, prova que venceu pela Molteni. Foto: Rob C. Croes / Anefo, Nationaal Archief (CC BY-SA 3.0 NL)

Eddy Merckx Cycles: da fazenda em Meise à Belgian Cycling Factory

A Eddy Merckx Cycles nasceu como projeto pessoal do campeão e virou, em quatro décadas, uma marca controlada por terceiros. Segundo a história oficial da empresa, Merckx aprendeu o ofício de construir quadros com o italiano Ugo De Rosa, que fazia as bicicletas dele havia anos. Os primeiros funcionários da fábrica de Meise eram, em boa parte, ex-companheiros de equipe. Os quadros eram de aço; alumínio, titânio e carbono vieram depois.

A marca ganhou corrida grande com o nome do dono no tubo. Eric Vanderaerden venceu a Paris-Roubaix de 1987, Eddy Planckaert levou a Volta de Flandres de 1988 e Peter Van Petegem fez a dobradinha Flandres e Roubaix em 2003, todos em bicicletas Eddy Merckx. A fábrica também equipou a americana 7-Eleven nos anos 1980, a Quick-Step em 2010 e 2011 e a AG2R no World Tour de 2019.

Quem é o dono da Eddy Merckx hoje

Resposta direta: a Belgian Cycling Factory (BCF), empresa do belga Jochim Aerts, dona também da Ridley. O caminho até lá teve três trocas de controle.

AnoO que aconteceu
1980Merckx funda a empresa em Meise, dois anos depois de se aposentar
2008A holding belga Sobradis compra a maioria; Merckx fica com fatia minoritária e vira consultor
2016O grupo Van Diepensteyn assume e promete elevar o capital de 14 milhões para 27,7 milhões de euros
2017A Race Productions, holding da Ridley, compra a marca, que passa para a Belgian Cycling Factory
2026Bicicletas desenvolvidas e montadas em Beringen; o 525R é eleito bicicleta de corrida do ano pela BikeRadar

A venda de 2017 aconteceu num momento ruim. Segundo a imprensa belga, reproduzida pelo Cycling Industry News, a empresa acumulava prejuízo de 17 milhões de euros desde a troca de dono, 5,7 milhões só em 2016. Naquele ano, vendeu quase 1.500 bicicletas nos Estados Unidos. O então presidente, Bart van Muylder, resumiu o problema: a escala pequena pesava nos preços de compra e de venda. Jochim Aerts, da Ridley, prometeu garantir “a sobrevivência e o desenvolvimento” da marca.

Hoje a Eddy Merckx é uma das marcas de um grupo maior. Numa visita de estudantes da KU Leuven em maio de 2025, a BCF projetava faturamento de cerca de 60 milhões de euros no ano, somando Ridley, Eddy Merckx e a recém-comprada Nukeproof, com perto de 100 funcionários na fábrica de Beringen. O número não separa quanto vem de cada marca.

Eddy Merckx 525: o número que virou produto

O modelo de topo da marca se chama 525 por causa das 525 vitórias que Merckx somou na carreira, contagem que inclui provas de amador. A versão 525R, lançada em junho de 2026, começa em 6.499 euros com câmbio SRAM Force e chega a 12.999 euros com Campagnolo Super Record. Em agosto, a BikeRadar elegeu a bicicleta a melhor de corrida de 2026, à frente de outras sete finalistas.

Por que o nome de Eddy Merckx vende bicicleta

O nome vende porque carrega o maior currículo da história do ciclismo de estrada. Merckx venceu o Tour de France em 1969, 1970, 1971, 1972 e 1974, foi campeão mundial em 1967, 1971 e 1974 e bateu o recorde da hora em 25 de outubro de 1972, na Cidade do México, com 49,431 km. A marca dele durou até 1984, quando Francesco Moser chegou a 51,151 km.

A bicicleta do recorde não era uma Merckx. O quadro foi feito por Ernesto Colnago e, segundo relatos da época, pesava cerca de 5,4 kg. A máquina original está exposta na estação de metrô Eddy Merckx, em Bruxelas. É o detalhe que liga as duas histórias: o campeão que virou marca e o mecânico que construiu a marca a partir do campeão.

Bicicleta de aço branca e vermelha da equipe Faema usada por Eddy Merckx, exposta na parede
Bicicleta de aço da equipe Faema usada por Merckx no fim dos anos 1960, antes de ele ter a própria fábrica. Foto: Ged Carroll (CC BY 2.0)

O currículo também tem páginas incômodas, e a marca convive com elas. Merckx teve três exames antidoping positivos: no Giro de 1969, em Savona, quando foi excluído da prova liderando (a suspensão acabou anulada); no Giro di Lombardia de 1973, cuja vitória perdeu para Felice Gimondi; e na Flèche Wallonne de 1977. Ele sempre negou ter se dopado de forma consciente, e as punições da época eram mais brandas que as atuais.

Colnago: o mecânico que virou a marca do Pogacar

Ernesto Colnago é o caso oposto ao de Merckx: não tinha nome de campeão, construiu a empresa e só vendeu o controle aos 88 anos. Aprendiz da fábrica Gloria aos 13 anos, correu como amador até um acidente encerrar a carreira. Em 1954 abriu a própria oficina em Cambiago, perto de Milão. No ano seguinte foi segundo mecânico da equipe de Fiorenzo Magni no Giro.

A virada veio com Merckx. A Colnago montou as rodas da vitória do belga na Milão-Sanremo, virou mecânico-chefe da Molteni e chegou a fazer 20 bicicletas para o campeão num único ano, além do quadro do recorde da hora. O trevo do logotipo, o “asso di fiori”, nasceu de outra vitória da Molteni em Sanremo, com Michele Dancelli, em 1970.

Em maio de 2020, Ernesto vendeu a maioria das ações para a Chimera Investments, fundo de Abu Dhabi ligado à UAE Team Emirates, e manteve uma participação pequena. A sede ficou em Cambiago. Desde então, a empresa cresceu no embalo de Tadej Pogacar, que conquistou os cinco Tours de France da carreira em bicicletas Colnago, como mostrou o pentacampeonato de 2026.

Quanto fatura a Colnago

A Colnago passou de 23 milhões de euros de faturamento em 2021 para mais de 60 milhões em 2024, com margem Ebitda de 26%, segundo o CEO Nicola Rosin. O balanço de 2024 registra 60,3 milhões de euros e lucro de 10,2 milhões. A meta para 2025 era chegar a 72 milhões, com 75 milhões como cenário realista, e o objetivo de longo prazo é 100 milhões.

A empresa tem cerca de 70 funcionários, vende em mais de 50 países e coloca no mercado perto de 20 mil bicicletas e quadros por ano. Só um quarto da receita vem da Itália. Rosin atribui parte do salto ao campeão: quando o melhor ciclista do mundo usa a bicicleta, o cliente deixa de duvidar do desempenho dela. Ernesto Colnago completou 94 anos em fevereiro e segue recebendo visitantes no museu da marca em Cambiago.

Pinarello: o último colocado do Giro que fundou um império

Giovanni Pinarello correu como profissional a partir de 1947 e terminou o Giro de 1951 em último, com a maglia nera. Às vésperas da edição seguinte, a equipe rescindiu o contrato e pagou 100 mil liras de indenização. Ele usou o dinheiro para abrir uma loja de bicicletas em Treviso, em 1952.

Setenta anos depois, a Pinarello se apresenta como a fabricante mais vitoriosa da história do Tour, com os cinco títulos de Miguel Indurain e os sete da Sky e da Ineos. O fundo L Catterton, ligado à LVMH, comprou o controle em 2016, num negócio estimado pela imprensa em 90 milhões de euros. Em junho de 2023, revendeu a fatia para um escritório de investimento familiar. O Financial Times ligou a compra ao bilionário Ivan Glasenberg e a uma avaliação de 250 milhões de euros, valores que nunca foram confirmados oficialmente. Fausto Pinarello, filho do fundador, continuou presidente e sócio.

Greg LeMond e a briga com a Trek: o risco de licenciar o nome

Greg LeMond mostra o outro modelo, o licenciamento. O americano tricampeão do Tour (1986, 1989 e 1990), protagonista dos 8 segundos mais famosos da história do ciclismo, já vendia quadros com o próprio nome quando fechou parceria com a Trek, em 1995. A Trek fabricava e distribuía; LeMond recebia pelo uso da marca.

Greg LeMond pedala na subida do Alpe d'Huez com o uniforme da equipe Z e o número 1
Greg LeMond no Alpe d’Huez, com o número 1 de campeão e o nome dele no quadro. Foto: Steve Selwood (CC BY-SA 3.0)

A parceria quebrou por causa de Lance Armstrong, o principal atleta da própria Trek. LeMond questionou publicamente a ligação do texano com o médico Michele Ferrari, e a Trek alegou que as declarações derrubaram as vendas. Em abril de 2008, a fabricante foi à Justiça para encerrar o contrato, dizendo que LeMond causou prejuízo de mais de US$ 6 milhões às duas marcas. LeMond processou de volta, acusando a Trek de não ter se esforçado para vender as bicicletas dele.

O acordo saiu em fevereiro de 2010, semanas antes do julgamento: a Trek doou US$ 200 mil à 1in6, entidade apoiada por LeMond, e ele recuperou os direitos sobre a marca. Em 2012, Armstrong perdeu os sete títulos do Tour após a investigação da agência antidoping americana. LeMond relançou a marca em 2021 com bicicletas elétricas de carbono, como a Prolog, vendida a partir de US$ 4.500, depois de captar mais de US$ 2 milhões com investidores privados.

Cipollini: quando o nome no quadro pesa nos dois sentidos

Mario Cipollini, campeão mundial de 2002, lançou a marca MCipollini depois de se aposentar, em parceria com a italiana Diamant, que fabrica as bicicletas e é a controladora da marca, segundo o distribuidor americano ouvido pelo Bicycle Retailer em 2014. O ex-velocista descreve o próprio papel como técnico: palpite em projeto, acerto e detalhe.

Em 17 de outubro de 2022, o Tribunal de Lucca condenou Cipollini em primeira instância a três anos de prisão por maus-tratos e lesões contra a ex-mulher, Sabrina Landucci, e ameaças ao companheiro dela, além de indenizações de 80 mil e 5 mil euros. A defesa anunciou recurso. Depois da sentença, Cipollini escreveu que o que acontecia com ele “não tem nada a ver” com a marca que leva o nome dele. O episódio expõe o risco que toda empresa batizada com o nome de uma pessoa carrega: a reputação do atleta vai junto com o produto, para o bem e para o mal.

Emprestar o nome ou construir a empresa: o que separa os dois

A diferença está em quem detém o capital, quem controla o produto e quem decide quando sair. Colocados lado a lado, os casos formam três modelos.

AtletaMarcaModeloSituação em 2026
Eddy MerckxEddy Merckx Cycles (1980)Fundou e operou; vendeu o controle em 2008Marca da Belgian Cycling Factory, feita em Beringen
Ernesto ColnagoColnago (1954)Ex-ciclista amador e mecânico; construiu a empresaControle de fundo de Abu Dhabi desde 2020; mais de 60 milhões de euros em 2024
Giovanni PinarelloPinarello (1952)Ex-profissional; construiu a empresa com a famíliaEscritório familiar comprou o controle em 2023; Fausto segue presidente
Greg LeMondLeMondLicenciou para a Trek (1995 a 2008)Recuperou a marca em 2010; vende elétricas de carbono
Mario CipolliniMCipolliniParceria com a Diamant, que fabricaMarca ativa; o ex-ciclista se diz consultor técnico

Três lições aparecem nos números. A primeira: nome de campeão abre porta, mas não resolve escala. A Eddy Merckx, com o maior nome do esporte, acumulou prejuízo até ser absorvida por um grupo maior. A segunda: quem construiu operação vendeu caro. Colnago e Pinarello, fundadas por ciclistas sem grande palmarés, viraram ativos disputados por fundos internacionais. A terceira: licença é contrato, e contrato depende da relação. LeMond levou quase dois anos de processo para ter o próprio nome de volta.

O mesmo raciocínio aparece no ciclismo atual. Pogacar, que monta um império de patrocínios fora da bicicleta, é embaixador de marcas que não são dele. E equipes inteiras dependem da paciência de quem paga, como mostra a Visma-Lease a Bike sem patrocinador para 2027.

O que a história das marcas de bicicleta ensina sobre alta performance

O atleta é uma empresa, e a carreira dele também tem balanço. Merckx tratou o nome como ativo e conseguiu transformá-lo em fábrica, mas a fábrica precisou de escala que o nome sozinho não dava. Colnago e Pinarello não tinham título para vender e venderam processo: oficina, mecânica, relação com equipes e décadas de produto testado em corrida.

Para o atleta de hoje, a pergunta prática vem antes do contrato. Se o patrocinador quer o nome, o que fica com o atleta quando a parceria acaba? Quem controla a qualidade do produto que leva a assinatura dele? O caso LeMond mostra que a cláusula de saída vale tanto quanto o valor da licença. O caso Cipollini mostra que a conduta fora da competição entra no preço da marca.

Troféu na prateleira junta pó. Uma marca bem construída continua vendendo depois que o campeão para, às vezes sob outro dono. A diferença entre emprestar o nome e construir empresa está no que o atleta faz enquanto ainda está no auge: aprender o negócio, cercar-se de quem entende de operação e decidir com clareza o que quer manter.

Perguntas frequentes

Quem é o dono da Eddy Merckx Cycles hoje?

A Belgian Cycling Factory, do empresário Jochim Aerts, dona também da Ridley. O grupo comprou a marca em 2017. Eddy Merckx vendeu o controle em 2008.

Onde são feitas as bicicletas Eddy Merckx?

A marca informa que as bicicletas são desenvolvidas e montadas em Beringen, na Bélgica, na fábrica da Belgian Cycling Factory. A empresa original nasceu em 1980 numa antiga fazenda em Meise.

Por que a bicicleta se chama Eddy Merckx 525?

O nome homenageia as 525 vitórias de Merckx na carreira, contagem que inclui as provas de amador. A versão 525R foi eleita a bicicleta de corrida de 2026 pela BikeRadar.

Quanto fatura a Colnago e quem é o dono?

A Colnago faturou 60,3 milhões de euros em 2024, contra 23 milhões em 2021, e mirava 72 a 75 milhões em 2025. O controle é de um fundo de Abu Dhabi desde 2020; Ernesto Colnago ficou com participação pequena.

Greg LeMond ainda tem marca de bicicleta?

Sim. Depois de encerrar a licença com a Trek em acordo de 2010, LeMond recuperou os direitos e relançou a marca em 2021 com bicicletas elétricas de carbono.

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