Felipe Nasr fechou a temporada 2026 da IMSA com um troféu garantido e um carro destruído. Neste sábado (3), nas 10 Horas do Petit Le Mans, em Road Atlanta, nos Estados Unidos, o brasileiro bateu forte no muro da reta principal a cerca de 90 minutos do fim, pouco depois de ele e os companheiros Julien Andlauer e Laurin Heinrich confirmarem o título da Michelin Endurance Cup, o campeonato das provas longas da categoria.
O Porsche 963 número 7 da Porsche Penske Motorsport quase capotou depois de tocar num carro mais lento. Nasr saiu andando. A vitória da prova ficou com o carro irmão, o número 6, de Laurens Vanthoor, Kévin Estre e Matt Campbell, que segurou a BMW por 1,205 segundo depois de 368 voltas.

Como foi a batida de Nasr
O acidente aconteceu na reta dos boxes da Michelin Raceway Road Atlanta, no estado da Geórgia. Nasr vinha colado em Vanthoor, que tinha perdido velocidade no tráfego. O brasileiro tentou a ultrapassagem por fora.
No mesmo instante, Vanthoor acabava de colocar uma volta no Porsche 911 GT3 número 28 da equipe RS1, pilotado pelo belga Jan Heylen, e puxou o carro para a esquerda para voltar à linha de corrida. Sem espaço, Nasr tocou no Porsche de Heylen e foi arremessado contra o muro do lado esquerdo, segundo os relatos do site Motorsport.com e do Daily Sportscar.
A batida provocou a 14ª bandeira amarela da corrida e igualou o recorde da prova, de 2017. O recorde caiu pouco depois, e o Petit Le Mans 2026 terminou com 16 intervenções de bandeira amarela, mais uma bandeira vermelha por causa do mau tempo. Foi a segunda vez na corrida que dois carros da mesma marca se tocaram na reta principal: uma hora antes, duas Ferrari tinham batido no mesmo trecho.
A tríplice coroa que escapou
O carro 7 chegou a Road Atlanta perseguindo algo raro. Nasr, Andlauer e Heinrich tinham vencido as duas maiores provas de endurance dos Estados Unidos na temporada: as 24 Horas de Daytona, em janeiro, e as 12 Horas de Sebring, em março. Ganhar também o Petit Le Mans fecharia a tríplice coroa da IMSA com o mesmo trio.
Em Daytona, Nasr cruzou a linha 1,569 segundo à frente do Cadillac número 31 de Jack Aitken. Foi a terceira vitória seguida da Porsche Penske nas 24 Horas, e o brasileiro é o único piloto que estava ao volante nas três. “Ter três vitórias seguidas em Daytona é único”, disse Nasr ao site da Porsche depois da prova de janeiro. “Cada vitória tem um significado diferente.”
A batida encerrou a corrida do carro 7 e a chance da tríplice coroa individual. O título da Michelin Endurance Cup, o campeonato paralelo que soma só os pontos das provas de longa duração, já estava garantido quando o acidente aconteceu.
Porsche volta a vencer em Road Atlanta depois de 39 anos
A corrida acabou nas mãos do carro irmão. Vanthoor assumiu a liderança a 1h03 do fim, ao passar o Cadillac número 10 de Filipe Albuquerque. Depois da última rodada de pit stops, perdeu a ponta para Earl Bamber, no Cadillac número 31, e recuperou a posição a 48 minutos do fim, numa ultrapassagem no tráfego na saída da chicane da curva 10.
Num sprint final de 11 minutos, o belga ainda segurou Sheldon van der Linde, da BMW, e Tom Blomqvist, da Acura. “Cometi um errinho, mas por sorte consegui segurá-lo”, disse Vanthoor à NBC Sports. A Acura de Blomqvist ficou sem combustível na última volta e caiu de terceiro para sexto.
Foi a primeira vitória geral da Porsche Penske Motorsport no Petit Le Mans e a primeira da Porsche na classe principal em Road Atlanta desde 1987. Para o australiano Matt Campbell, campeão da IMSA em 2025, foi a corrida de despedida da Porsche. Para o francês Kévin Estre, a primeira vitória da carreira no campeonato.
“Uma pilotagem fenomenal do Laurens no fim, com muita pressão e duas últimas voltas agitadas. A única coisa que faltava para a Porsche Penske era vencer aqui”, disse Campbell ao Daily Sportscar. Estre agradeceu à equipe: “Foi uma temporada difícil. Precisamos de 50 pessoas atrás de nós para conquistar essa vitória”.

O pódio da classe GTP
- 1º: Porsche 963 nº 6 (Laurens Vanthoor, Kévin Estre e Matt Campbell)
- 2º: BMW M Hybrid V8 nº 24 (Sheldon van der Linde, Dries Vanthoor e Robin Frijns), a 1,205 segundo
- 3º: Cadillac nº 40 da Wayne Taylor Racing (Jordan Taylor, Louis Delétraz e Colton Herta)
Aitken campeão sem precisar vencer
O título da classe principal, a GTP, já estava decidido antes da largada. O britânico Jack Aitken, do Cadillac número 31 da Whelen, garantiu o campeonato só por alinhar no grid. Ele é o primeiro piloto a ser campeão sozinho na classe principal da IMSA desde Jörg Bergmeister, na época dos protótipos Daytona da Grand-Am.
A corrida do carro 31 terminou mal: a 20 minutos do fim, o Aston Martin número 23 tocou no Cadillac e levou punição. Mesmo assim, Aitken comemorou. “Eu não ganhava um campeonato havia mais de dez anos. Então é um marco bem grande para mim”, disse ao Daily Sportscar.
Nas outras classes, a CrowdStrike Racing by APR venceu a prova e o título da LMP2 com Alex Quinn e George Kurtz, a Paul Miller Racing levou o campeonato da GTD Pro com a BMW de Connor De Phillippi e Neil Verhagen, e a Winward Racing fechou o terceiro título seguido na GTD com a Mercedes de Russell Ward e Philip Ellis.
Quem é Felipe Nasr
Nascido em Brasília, Nasr tem 34 anos e é um dos brasileiros mais vitoriosos do automobilismo fora da Fórmula 1. Correu na F1 pela Sauber em 2015 e 2016. Na estreia, no GP da Austrália de 2015, terminou em quinto, o melhor resultado de um brasileiro em estreia na categoria. A Sauber de então hoje corre como Audi e tem outro brasileiro no cockpit, Gabriel Bortoleto.
Sem vaga na F1 para 2017, Nasr foi para o endurance americano e virou referência. É tricampeão da IMSA (2018, com Eric Curran; 2021, com Pipo Derani; e 2024, com Dane Cameron) e venceu Daytona três vezes seguidas, de 2024 a 2026. Em 2019, ficou em segundo nas 24 Horas, superado no fim por Fernando Alonso, numa corrida decidida na chuva. Desde 2023 é piloto da Porsche Penske, a equipe que em maio levou a pintura retrô da Apple para Laguna Seca.
O que a temporada de Nasr ensina sobre alta performance
O ano de Nasr cabe em dois recortes. Num, ele venceu as duas provas mais importantes do calendário e garantiu a Endurance Cup antes da última bandeirada. No outro, terminou a temporada contra o muro, numa manobra em que a margem de erro era de centímetros e dependia da decisão de outro carro.
Só um dos recortes vira manchete no domingo. O que sustenta uma carreira é o outro: três vitórias seguidas em Daytona não saem de uma corrida boa, saem de anos de processo com a mesma equipe. A batida é um evento. O que define o próximo ciclo é o que o piloto e o time fazem com ela. A manobra de outro carro não está sob controle de ninguém no cockpit; a resposta a ela, sim.
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