Em julho de 1996, o nome de Fernando Meligeni não estava na chave do torneio olímpico de tênis em Atlanta. Ele era o 93º do ranking mundial, fora da lista dos convocados diretos, esperando por uma vaga que talvez nunca aparecesse. Apareceu. Lesões e desistências de jogadores mais bem colocados abriram um buraco, e o brasileiro entrou pela porta dos fundos, como alternate, o último da fila a ser chamado.
Dez dias depois, esse mesmo Meligeni estava em uma semifinal olímpica, depois de derrotar quatro adversários melhor ranqueados que ele em sequência. A vaga de reserva virou uma das campanhas mais improváveis do esporte brasileiro nos anos 90. E deixou uma lição que vale para qualquer atleta de qualquer modalidade: a posição de entrada não decide o resultado.
Um argentino que escolheu o Brasil
Fernando Ariel Meligeni nasceu em Buenos Aires, em 12 de abril de 1971. Mudou-se para São Paulo aos quatro anos, levado pelo pai, fotógrafo. Antes de fixar no tênis, passou pelo handebol e pelo futebol, como tantas crianças brasileiras. A raquete venceu a disputa cedo: em 1989, ainda adolescente, conquistou o tradicional Orange Bowl, em Miami, e fechou a temporada como número 3 do mundo no ranking juvenil.
Quando virou profissional, em 1990, tomou a decisão que definiria sua identidade dentro e fora das quadras: optou pela nacionalidade brasileira. A escolha não foi unânime em casa. Os pais e a irmã discordaram, e o processo de naturalização levou cinco anos para se completar. Meligeni seguiu firme. O apelido que carregaria pela vida toda, Fininho, veio do físico magro e da entrega que nunca combinava com o tamanho.
A primeira vitória em um torneio da ATP veio em 1991, contra Cássio Motta, no Guarujá. Era o primeiro sinal de que aquele garoto teimoso tinha lugar no circuito profissional. Dois anos depois, em 1993, ele entraria no Top 100 e estrearia pela Copa Davis, defendendo o país que escolheu.
Atlanta, 1996: o reserva que venceu quatro favoritos
O capítulo mais simbólico da carreira de Meligeni nasceu de um acaso. Ranqueado em 93º, ele estava fora dos 64 tenistas que entrariam diretamente no torneio olímpico de Atlanta. Foi uma sucessão de desistências, por lesão e por decisão pessoal de jogadores de elite, que liberou uma vaga de alternate. Meligeni aceitou.
O que veio depois ninguém previu. Um a um, ele despachou adversários mais bem colocados no ranking. Foram quatro vitórias seguidas sobre favoritos, uma campanha que o levou direto à semifinal dos Jogos. Ali, parou diante do espanhol Sergi Bruguera, então um dos melhores do mundo no saibro. Na disputa pela medalha de bronze, perdeu para o indiano Leander Paes por 3/6, 6/2 e 6/4, e terminou em quarto lugar.
Ficou sem medalha, mas não sem legado. A semifinal olímpica de um número 93 do mundo, entrando como última opção, é o tipo de feito que o esporte raramente repete. Meligeni provou que estar fora da lista não é o mesmo que estar fora do jogo.
Três títulos ATP e troféus sobre lendas
A campanha de Atlanta não foi um ponto isolado de sorte. Meligeni construiu uma carreira de resultados concretos no circuito mais duro do tênis. Foram três títulos de simples no nível ATP, cada um com uma assinatura própria.
O primeiro veio em 1995, no Swedish Open, em Båstad, na Suécia, palco clássico do saibro europeu. Em 1996, no mesmo ano da façanha olímpica, ele faturou o título de Pinehurst, nos Estados Unidos, batendo na final o veterano sueco Mats Wilander, ex-número 1 do mundo e dono de sete Grand Slams. O terceiro e último troféu de simples saiu em 1998, em Praga, na República Tcheca, em uma semana em que Meligeni superou no caminho o russo Yevgeny Kafelnikov, então número 6 do mundo.
A lista de vítimas ilustres não para por aí. Ao longo da carreira, o brasileiro venceu nomes do calibre de Pete Sampras, Carlos Moyà, Andy Roddick e David Nalbandian. Para um jogador que nunca foi apontado como talento geracional, derrubar gigantes virou rotina sempre que o saibro, sua superfície preferida, entrava em jogo.

Roland Garros 1999: três cabeças de chave e o auge
Se Atlanta foi a façanha improvável, Roland Garros de 1999 foi o ponto mais alto da trajetória de Meligeni. Em Paris, no saibro que ele tanto amava, o brasileiro montou uma campanha que entrou para a memória do tênis nacional.
Depois de passar por Justin Gimelstob e Younes El Aynaoui, Meligeni enfrentou e eliminou três cabeças de chave em sequência. Caíram o australiano Patrick Rafter, número 3 do mundo, o espanhol Félix Mantilla, número 14, e outro espanhol, Àlex Corretja, número 6. Foi uma sucessão de resultados que poucos brasileiros conseguiram repetir em um Grand Slam.
A caminhada parou apenas na semifinal, diante do ucraniano Andrei Medvedev, em um duelo apertado decidido em quatro sets. Naquele ano, Meligeni atingiu o 25º lugar do ranking mundial, a melhor posição de toda a sua carreira. Era a confirmação de que a façanha olímpica de três anos antes não tinha sido obra do acaso.
O ouro de despedida e os doze anos de ESPN
Meligeni escolheu o momento e o palco para se despedir. Em 2003, nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, conquistou a medalha de ouro no tênis e encerrou a carreira levando mais um título para o Brasil. Foi um fim raro no esporte: sair pela porta da frente, com o pódio mais alto.
A folha de serviços é sólida. Três títulos ATP de simples e sete em duplas, a maioria conquistada ao lado de Gustavo Kuerten, o Guga, parceiro que dividiu com ele a era de ouro do tênis masculino brasileiro. Foram anos em que o Brasil deixou de ser figurante e passou a brigar de igual para igual no saibro mundial.

Encerradas as quadras, Meligeni reinventou a carreira no microfone. Tornou-se um dos comentaristas mais reconhecíveis do tênis no país, com um estilo direto, opinativo e apaixonado. Foram doze anos na ESPN, ao lado de parceiros como o narrador Fernando Nardini, até anunciar, em outubro de 2025, que não renovaria o contrato e seguiria para novos projetos. “Aprendi muito e convivi com pessoas espetaculares”, escreveu na despedida.
O que isso ensina sobre alta performance
A história de Meligeni é uma aula sobre uma verdade que vale para o atleta de elite e para o amador: você não controla quando a oportunidade chega, só controla se vai estar pronto quando ela chegar.
Em 1996, ele não controlou a convocação. Não dependia dele estar ou não na chave olímpica. O que dependia dele, o preparo físico, técnico e mental para competir em alto nível, estava feito. Por isso, quando a vaga de reserva surgiu de última hora, ele não a desperdiçou. Entrou pronto e venceu quem, no papel, deveria vencê-lo.
É a diferença entre quem treina para o dia da prova e quem treina para o dia da chamada. O atleta que só se prepara quando a vaga está garantida sempre chega atrasado. O que se prepara o tempo todo está em condições de aproveitar a porta no instante em que ela se abre, mesmo que ela se abra por engano.

Preparo vence currículo quando a porta abre. Fernando Meligeni, o 93º do mundo que virou semifinalista olímpico, é a prova viva disso.
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