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Criadores da Hyrox investem na Xenom, o decatlo do fitness

Lauren Weeks carrega o saco de areia na estação de avanço da Hyrox de Estocolmo
Lauren Weeks carrega o saco de areia na estação de avanço da Hyrox de Estocolmo
A americana Lauren Weeks, tricampeã mundial da Hyrox, na etapa de Estocolmo, em 2023. Foto: HybridFitty (CC BY 4.0), Wikimedia Commons

Um mês depois de retomarem o controle da Hyrox com dinheiro de fundo de investimento, os dois criadores da maior corrida de fitness do mundo resolveram apostar num formato que, à primeira vista, parece concorrente. Christian Toetzke e Moritz Fürste investiram na Xenom, competição que se vende como o “decatlo do fitness”, e entraram no conselho da empresa.

O anúncio saiu na quarta-feira, 7 de outubro, e veio junto com uma parceria estratégica entre Hyrox e Xenom em marketing, ativação de eventos e educação. O valor do investimento e o tamanho da participação dos dois não foram divulgados. O recado, porém, é claro: o fitness competitivo deixou de ser nicho de academia e virou negócio disputado por fundos de investimento.

O que foi anunciado

Segundo o comunicado repercutido pela Athletech News, pela Health Club Management e pelo Fitt Insider, Toetzke e Fürste passam a ser investidores e conselheiros da Xenom. No conselho, eles se sentam ao lado de representantes da Wndr, a gestora de Jeffrey Katzenberg (cofundador da DreamWorks) e Sujay Jaswa (ex-executivo do Dropbox), que liderou a rodada inicial de US$ 15 milhões da Xenom no começo de 2026.

A parceria prevê ações conjuntas de marketing, ativação nos eventos e educação de treinadores e atletas. As duas marcas falam em montar um ecossistema de treino com aulas em grupo, academias dedicadas e simulados de prova, para atender “do atleta comum ao de elite”.

“Sempre acreditamos que o fitness tinha potencial para se tornar um dos maiores esportes do mundo”, disse Toetzke no anúncio. Para ele, a Xenom completa o quadro com um teste padronizado de condicionamento total.

Keith Barlow, fundador e CEO da Xenom, trabalha com os dois desde 2020 e ajudou a construir a comunicação da Hyrox antes de lançar o próprio evento. “Christian e Mo levaram eventos de fitness a mais mercados do que qualquer um neste esporte”, afirmou.

O que é a Xenom, o “decatlo do fitness”

A Xenom é uma competição de 10 provas fixas, disputadas em dois dias, que testam força, ginástica, resistência e condicionamento. A lógica é a do decatlo do atletismo: cada prova vale até 1.000 pontos, e a soma vira o Elite Performance Index, uma nota que permite comparar atletas de etapas diferentes e acompanhar a evolução de cada um ao longo do tempo.

As provas não mudam de uma etapa para outra, cinco em cada dia. Segundo o site oficial, a lista inclui arranco com carga máxima, subida na corda, 60 segundos de bike de ar, 2 km de ski erg seguidos de 3 km de corrida, muscle up, burpees e uma escada de clean pesado, entre outras.

É um formato pensado para quem vem do CrossFit, que licencia a Xenom como evento parceiro, e a fabricante de equipamentos Rogue aparece como parceira. A disputa tem quatro divisões (Elite, RX, Intermediate e Foundations), e a premiação na estreia foi de US$ 10 mil para a elite individual e US$ 5 mil para as duplas de elite.

O calendário de 2026 começou em junho, em Frisco, no Texas, no centro de treinamento do Dallas Cowboys. Depois veio Londres, no Olympia, no fim de agosto. A próxima etapa é em Miami Beach, nos dias 19 e 20 de dezembro, e Málaga, na Espanha, recebe a competição em janeiro de 2027, ano da primeira temporada internacional completa. O site oficial fala em 11 competições na temporada inaugural.

Um mês antes, a Hyrox voltou para as mãos dos fundadores

O investimento na Xenom é o segundo movimento dos dois em pouco mais de um mês. Em 8 de setembro, a suíça Infront Sports & Media concluiu a venda da sua participação majoritária na Hyrox para um consórcio liderado pela L Catterton, gestora de private equity que tem a LVMH e a família Arnault entre os sócios. Toetzke, Fürste e a WndrCo, a mesma de Katzenberg, entraram juntos no negócio.

Com a operação, os fundadores recompraram ações e voltaram a ter o controle da empresa. “Estamos comprando ações de volta e, a partir de hoje, temos de novo o controle acionário da Hyrox”, disse Toetzke em entrevista à Hybrid Fitness Media no dia do anúncio.

A Infront tinha entrado na Hyrox em dezembro de 2019 e virado sócia majoritária em outubro de 2022. Os termos financeiros da venda não foram divulgados. A agência Bloomberg, citando pessoas a par das conversas, estimou o negócio em cerca de 600 milhões de euros (perto de US$ 700 milhões), valor que é estimativa de imprensa, sem confirmação das empresas.

Atleta da categoria Pro cruza a arena da Hyrox Istambul 2026 erguendo a bandeira da Tunísia
Chegada na categoria Pro masculina da Hyrox Istambul, em 2026. Foto: Amenallah Tayarii (CC0), Wikimedia Commons

Os números que atraíram os fundos

A Hyrox nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 2017. A prova é simples de explicar: 8 km de corrida, divididos em trechos de 1 km, intercalados com 8 estações de exercícios funcionais, como empurrar e puxar trenó, remo, burpee com salto e arremesso de bola na parede. Não há tempo limite nem classificação prévia para se inscrever.

O crescimento explica o interesse de quem administra dinheiro. Na temporada 2022/23, segundo o site oficial da Hyrox, foram mais de 90 mil atletas. Na temporada 2025/26, de acordo com a Infront, a série passou de 100 eventos, mais de 1,4 milhão de participantes e mais de 1,5 milhão de espectadores, com atletas em mais de 30 países.

Em três temporadas, portanto, o número de participantes ficou cerca de 15 vezes maior. “Christian e Moritz não criaram só uma corrida, criaram uma categoria”, resumiu Miray Topay, sócia da L Catterton, no comunicado da venda. A Hyrox também trabalha para levar a modalidade aos Jogos Olímpicos.

Por que investir num formato diferente

À primeira vista, Hyrox e Xenom disputam o mesmo atleta. Na prática, o público é outro. A Hyrox foi desenhada para o frequentador de academia e o corredor amador, que treina para terminar a prova. A Xenom mira o atleta mais experiente, que domina levantamento olímpico e movimentos de ginástica, perfil típico de quem vem do CrossFit.

“Estamos preenchendo um vazio”, disse Toetzke sobre a Xenom, em setembro. Na mesma conversa, ele admitiu que a adesão nas primeiras etapas, incluindo a de Londres, foi mais lenta do que o esperado, e afirmou que o conceito precisa de eventos ao vivo para ser entendido. “A cada evento, vai subir e vai melhorar.”

Moritz Fürste conhece o caminho de quem compete de verdade. Antes de virar empresário, foi medalhista olímpico três vezes pela seleção alemã de hóquei sobre grama, com ouro em Pequim 2008 e Londres 2012. Toetzke vem do outro lado do balcão: segundo a própria Hyrox, é um dos organizadores de eventos de participação em massa mais experientes do mundo.

Para a Wndr, que já estava nas duas empresas, a conta fecha dos dois lados. Com os mesmos investidores e uma parceria formal, Hyrox e Xenom deixam de brigar pelo mesmo espaço e passam a cobrir faixas diferentes do mesmo mercado: o fitness tratado como esporte de competição.

Para quem quer entender as diferenças de formato, o Atleta Pro já explicou o que é a Hyrox e como ela se compara ao CrossFit. E o dinheiro em jogo no topo do CrossFit aparece no levantamento de quanto ganha o vencedor dos CrossFit Games.

Lauren Weeks rema na estação de remo do Mundial da Hyrox de 2021, cercada de público
Lauren Weeks na estação de remo do Mundial da Hyrox de 2021. Foto: HybridFitty (CC BY 4.0), Wikimedia Commons

A Hyrox no Brasil

O Brasil entrou no mapa há pouco mais de um ano. A primeira etapa oficial do país, e da América do Sul, foi disputada em São Paulo, em 20 de setembro de 2025. Em fevereiro de 2026, foi a vez de Fortaleza, no Centro de Eventos do Ceará.

Nos dias 17 e 18 de outubro, a Hyrox volta a São Paulo pela terceira vez, agora no Distrito Anhembi, com provas individuais, em duplas e em revezamento. Em 21 e 22 de novembro, a série desembarca de novo no Rio de Janeiro. A Hyrox não divulgou o número oficial de participantes das etapas brasileiras.

“O Brasil é hoje um dos maiores e mais engajados mercados fitness do mundo”, disse Edward Dier, diretor-geral da Hyrox Brasil, às vésperas da estreia no país. “Vemos aqui um potencial semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa.”

Com a Hyrox de volta ao controle dos fundadores, dinheiro novo no caixa e um segundo formato no portfólio dos mesmos investidores, a tendência é que a expansão em mercados como o brasileiro ganhe velocidade. A aproximação entre esporte e gestoras de investimento aparece também em outras modalidades, como no caso de Djokovic, que virou conselheiro da General Atlantic.

O que isso ensina sobre alta performance

Boa parte do que atrai investidores para a Hyrox e para a Xenom é o padrão. As duas provas são sempre iguais, em qualquer cidade, e isso permite que o atleta compare o próprio tempo ou a própria pontuação de uma etapa para outra. Resultado que pode ser medido vira meta, e meta vira treino.

É a mesma régua que vale para qualquer atleta, amador ou profissional. Quem mede com o mesmo critério sabe exatamente onde evoluiu e onde estacionou. Talento ajuda, mas é o processo repetido ao longo do tempo, com marca clara de progresso, que constrói resultado.

Há ainda uma lição de carreira. Fürste ganhou dois ouros olímpicos no hóquei sobre grama e transformou o que aprendeu em campo num negócio de participação em massa. Identidade que existe além das quatro linhas é o que abre a próxima porta quando a competição acaba.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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