
Um mês depois de retomarem o controle da Hyrox com dinheiro de fundo de investimento, os dois criadores da maior corrida de fitness do mundo resolveram apostar num formato que, à primeira vista, parece concorrente. Christian Toetzke e Moritz Fürste investiram na Xenom, competição que se vende como o “decatlo do fitness”, e entraram no conselho da empresa.
O anúncio saiu na quarta-feira, 7 de outubro, e veio junto com uma parceria estratégica entre Hyrox e Xenom em marketing, ativação de eventos e educação. O valor do investimento e o tamanho da participação dos dois não foram divulgados. O recado, porém, é claro: o fitness competitivo deixou de ser nicho de academia e virou negócio disputado por fundos de investimento.
O que foi anunciado
Segundo o comunicado repercutido pela Athletech News, pela Health Club Management e pelo Fitt Insider, Toetzke e Fürste passam a ser investidores e conselheiros da Xenom. No conselho, eles se sentam ao lado de representantes da Wndr, a gestora de Jeffrey Katzenberg (cofundador da DreamWorks) e Sujay Jaswa (ex-executivo do Dropbox), que liderou a rodada inicial de US$ 15 milhões da Xenom no começo de 2026.
A parceria prevê ações conjuntas de marketing, ativação nos eventos e educação de treinadores e atletas. As duas marcas falam em montar um ecossistema de treino com aulas em grupo, academias dedicadas e simulados de prova, para atender “do atleta comum ao de elite”.
“Sempre acreditamos que o fitness tinha potencial para se tornar um dos maiores esportes do mundo”, disse Toetzke no anúncio. Para ele, a Xenom completa o quadro com um teste padronizado de condicionamento total.
Keith Barlow, fundador e CEO da Xenom, trabalha com os dois desde 2020 e ajudou a construir a comunicação da Hyrox antes de lançar o próprio evento. “Christian e Mo levaram eventos de fitness a mais mercados do que qualquer um neste esporte”, afirmou.
O que é a Xenom, o “decatlo do fitness”
A Xenom é uma competição de 10 provas fixas, disputadas em dois dias, que testam força, ginástica, resistência e condicionamento. A lógica é a do decatlo do atletismo: cada prova vale até 1.000 pontos, e a soma vira o Elite Performance Index, uma nota que permite comparar atletas de etapas diferentes e acompanhar a evolução de cada um ao longo do tempo.
As provas não mudam de uma etapa para outra, cinco em cada dia. Segundo o site oficial, a lista inclui arranco com carga máxima, subida na corda, 60 segundos de bike de ar, 2 km de ski erg seguidos de 3 km de corrida, muscle up, burpees e uma escada de clean pesado, entre outras.
É um formato pensado para quem vem do CrossFit, que licencia a Xenom como evento parceiro, e a fabricante de equipamentos Rogue aparece como parceira. A disputa tem quatro divisões (Elite, RX, Intermediate e Foundations), e a premiação na estreia foi de US$ 10 mil para a elite individual e US$ 5 mil para as duplas de elite.
O calendário de 2026 começou em junho, em Frisco, no Texas, no centro de treinamento do Dallas Cowboys. Depois veio Londres, no Olympia, no fim de agosto. A próxima etapa é em Miami Beach, nos dias 19 e 20 de dezembro, e Málaga, na Espanha, recebe a competição em janeiro de 2027, ano da primeira temporada internacional completa. O site oficial fala em 11 competições na temporada inaugural.
Um mês antes, a Hyrox voltou para as mãos dos fundadores
O investimento na Xenom é o segundo movimento dos dois em pouco mais de um mês. Em 8 de setembro, a suíça Infront Sports & Media concluiu a venda da sua participação majoritária na Hyrox para um consórcio liderado pela L Catterton, gestora de private equity que tem a LVMH e a família Arnault entre os sócios. Toetzke, Fürste e a WndrCo, a mesma de Katzenberg, entraram juntos no negócio.
Com a operação, os fundadores recompraram ações e voltaram a ter o controle da empresa. “Estamos comprando ações de volta e, a partir de hoje, temos de novo o controle acionário da Hyrox”, disse Toetzke em entrevista à Hybrid Fitness Media no dia do anúncio.
A Infront tinha entrado na Hyrox em dezembro de 2019 e virado sócia majoritária em outubro de 2022. Os termos financeiros da venda não foram divulgados. A agência Bloomberg, citando pessoas a par das conversas, estimou o negócio em cerca de 600 milhões de euros (perto de US$ 700 milhões), valor que é estimativa de imprensa, sem confirmação das empresas.

Os números que atraíram os fundos
A Hyrox nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 2017. A prova é simples de explicar: 8 km de corrida, divididos em trechos de 1 km, intercalados com 8 estações de exercícios funcionais, como empurrar e puxar trenó, remo, burpee com salto e arremesso de bola na parede. Não há tempo limite nem classificação prévia para se inscrever.
O crescimento explica o interesse de quem administra dinheiro. Na temporada 2022/23, segundo o site oficial da Hyrox, foram mais de 90 mil atletas. Na temporada 2025/26, de acordo com a Infront, a série passou de 100 eventos, mais de 1,4 milhão de participantes e mais de 1,5 milhão de espectadores, com atletas em mais de 30 países.
Em três temporadas, portanto, o número de participantes ficou cerca de 15 vezes maior. “Christian e Moritz não criaram só uma corrida, criaram uma categoria”, resumiu Miray Topay, sócia da L Catterton, no comunicado da venda. A Hyrox também trabalha para levar a modalidade aos Jogos Olímpicos.
Por que investir num formato diferente
À primeira vista, Hyrox e Xenom disputam o mesmo atleta. Na prática, o público é outro. A Hyrox foi desenhada para o frequentador de academia e o corredor amador, que treina para terminar a prova. A Xenom mira o atleta mais experiente, que domina levantamento olímpico e movimentos de ginástica, perfil típico de quem vem do CrossFit.
“Estamos preenchendo um vazio”, disse Toetzke sobre a Xenom, em setembro. Na mesma conversa, ele admitiu que a adesão nas primeiras etapas, incluindo a de Londres, foi mais lenta do que o esperado, e afirmou que o conceito precisa de eventos ao vivo para ser entendido. “A cada evento, vai subir e vai melhorar.”
Moritz Fürste conhece o caminho de quem compete de verdade. Antes de virar empresário, foi medalhista olímpico três vezes pela seleção alemã de hóquei sobre grama, com ouro em Pequim 2008 e Londres 2012. Toetzke vem do outro lado do balcão: segundo a própria Hyrox, é um dos organizadores de eventos de participação em massa mais experientes do mundo.
Para a Wndr, que já estava nas duas empresas, a conta fecha dos dois lados. Com os mesmos investidores e uma parceria formal, Hyrox e Xenom deixam de brigar pelo mesmo espaço e passam a cobrir faixas diferentes do mesmo mercado: o fitness tratado como esporte de competição.
Para quem quer entender as diferenças de formato, o Atleta Pro já explicou o que é a Hyrox e como ela se compara ao CrossFit. E o dinheiro em jogo no topo do CrossFit aparece no levantamento de quanto ganha o vencedor dos CrossFit Games.

A Hyrox no Brasil
O Brasil entrou no mapa há pouco mais de um ano. A primeira etapa oficial do país, e da América do Sul, foi disputada em São Paulo, em 20 de setembro de 2025. Em fevereiro de 2026, foi a vez de Fortaleza, no Centro de Eventos do Ceará.
Nos dias 17 e 18 de outubro, a Hyrox volta a São Paulo pela terceira vez, agora no Distrito Anhembi, com provas individuais, em duplas e em revezamento. Em 21 e 22 de novembro, a série desembarca de novo no Rio de Janeiro. A Hyrox não divulgou o número oficial de participantes das etapas brasileiras.
“O Brasil é hoje um dos maiores e mais engajados mercados fitness do mundo”, disse Edward Dier, diretor-geral da Hyrox Brasil, às vésperas da estreia no país. “Vemos aqui um potencial semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa.”
Com a Hyrox de volta ao controle dos fundadores, dinheiro novo no caixa e um segundo formato no portfólio dos mesmos investidores, a tendência é que a expansão em mercados como o brasileiro ganhe velocidade. A aproximação entre esporte e gestoras de investimento aparece também em outras modalidades, como no caso de Djokovic, que virou conselheiro da General Atlantic.
O que isso ensina sobre alta performance
Boa parte do que atrai investidores para a Hyrox e para a Xenom é o padrão. As duas provas são sempre iguais, em qualquer cidade, e isso permite que o atleta compare o próprio tempo ou a própria pontuação de uma etapa para outra. Resultado que pode ser medido vira meta, e meta vira treino.
É a mesma régua que vale para qualquer atleta, amador ou profissional. Quem mede com o mesmo critério sabe exatamente onde evoluiu e onde estacionou. Talento ajuda, mas é o processo repetido ao longo do tempo, com marca clara de progresso, que constrói resultado.
Há ainda uma lição de carreira. Fürste ganhou dois ouros olímpicos no hóquei sobre grama e transformou o que aprendeu em campo num negócio de participação em massa. Identidade que existe além das quatro linhas é o que abre a próxima porta quando a competição acaba.
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