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Doze pistas de arrancada dos EUA vão a leilão após colapso da IHRA

Carro da Pro Mod acelera na pista do Milan Dragway, em Michigan, uma das 12 pistas de arrancada que vão a leilão nos EUA

Em dezembro de 2024, o empresário americano Darryl Cuttell comprou a IHRA, a segunda maior liga de arrancada dos Estados Unidos, e saiu às compras. Em pouco mais de um ano, juntou pistas em nove estados e prometeu de volta as provas nacionais com as categorias profissionais.

Menos de dois anos depois da compra, o projeto acabou. A Darana Motorsports Holdings, empresa de Cuttell, contratou a leiloeira Tranzon Atlas para vender 12 autódromos e pistas de arrancada em leilão de lance fechado. Os lances vão até 17 de novembro, às 17h no horário central dos EUA (20h de Brasília). No pacote estão nomes históricos como o Atlanta Dragway, o Heartland Park, em Topeka, e o Virginia Motorsports Park.

“Nosso negócio tomou uma direção diferente da que esperávamos”, disse Cuttell no comunicado do leilão. “Nossa meta é concluir a venda dessas propriedades e a nossa saída do automobilismo até o fim do ano.”

Dragster Top Fuel solta fogo pelos escapamentos à noite no Heartland Park, em Topeka, Kansas
Top Fuel no Heartland Park, em Topeka, Kansas, em 1995. A pista está entre as 12 que vão a leilão. Foto: Marion Doss / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

As 12 pistas que vão a leilão

A lista mistura pistas de arrancada em funcionamento, autódromos ovais e áreas que já pararam de receber corrida. Seis ficam em Ohio e na Carolina do Norte, o miolo do circuito de provas regionais da IHRA.

PistaCidadeO que se sabe
Atlanta DragwayCommerce, Geórgia139 hectares; casa do Southern Nationals da NHRA de 1981 a 2021; fechada desde 2021
Heartland Motorsports ParkTopeka, Kansas252 hectares em 29 lotes, dos quais 117 hectares sem construção e com zoneamento industrial
Virginia Motorsports ParkDinwiddie, VirgíniaMais de 200 hectares e 23 mil lugares
Memphis International RacewayMillington, Tennessee138 hectares, parcialmente demolida; anúncio sugere um centro logístico
Rockingham SpeedwayRockingham, Carolina do NorteOval que já recebeu a NASCAR
Piedmont DragwayJulian, Carolina do NorteComprada em agosto de 2025
Darana Motorsports Park (antiga Galot)Benson, Carolina do NorteAnunciada em março de 2025, com o negócio fechado depois
National Trail RacewayHebron, OhioUma das sete pistas anunciadas em março de 2025
Dragway 42West Salem, OhioEm funcionamento, reformada em 2017
Kil-Kare RacewayXenia, OhioAnunciada com título limpo, sem dívida de imposto nem penhora
Milan DragwayMilan, MichiganPerdeu a prova de outono da IHRA em 2026
Empire DragwayLeicester, Nova YorkPista ativa, comprada em abril de 2026

O Rockingham Speedway do leilão é o oval da NASCAR. Não é o Rockingham Dragway, a pista de arrancada da mesma região que recebeu a volta da NHRA em setembro, que tem outros donos e não está à venda.

Fica de fora a Maple Grove Raceway, na Pensilvânia, que Cuttell também comprou e que fechou as portas em agosto.

Como funciona o leilão

O formato é o mesmo para as 12 propriedades. Não há preço mínimo divulgado. Quem ganhar paga um prêmio de 10% sobre o lance vencedor, deposita 10% em fundos garantidos e fecha o negócio em 30 dias. Tudo é vendido no estado em que está, sem condicionantes.

Os interessados podem negociar antes do prazo, e a leiloeira pode convidar os melhores lances para uma rodada online depois que os envelopes forem abertos. Qualquer pista pode ser vendida antes da data ou retirada do leilão sem aviso.

Um detalhe chamou a atenção da imprensa especializada americana: só dois anúncios, os do Atlanta Dragway e do Kil-Kare, garantem título limpo, sem dívida de imposto e sem penhora. Os outros dez não falam do assunto.

“É extremamente raro que tantas propriedades consolidadas do automobilismo cheguem ao mercado ao mesmo tempo”, disse Tim Mast, presidente da Tranzon Atlas, ao Drag Illustrated.

A farra de compras da IHRA

A IHRA nasceu em novembro de 1970, criada por Larry Carrier, um dos fundadores do circuito de Bristol, no Tennessee, como rival da NHRA. Foi na IHRA que estreou, em 1990, a Pro Modified, a Pro Mod, hoje uma das categorias mais populares da arrancada e presente nas pistas brasileiras. A liga passou por vários donos até chegar às mãos de Cuttell, anunciado como comprador em 14 de dezembro de 2024.

Cuttell é dono da Darana Hybrid, construtora de Ohio que monta infraestrutura elétrica e data centers. Com o caixa da construtora, a IHRA cresceu muito rápido:

  • Março de 2025: a liga anunciou a compra de sete pistas. Em três dias, três delas (Maryland, Darlington e Galot) disseram que não tinham sido vendidas. Só a Galot fechou negócio depois.
  • Agosto de 2025: Piedmont Dragway.
  • Novembro de 2025: compra da World Drag Racing Association, que levou a rede da IHRA a 117 pistas filiadas, além de uma série de motonáutica e uma de stock car.
  • Dezembro de 2025: Memphis, Heartland e Maple Grove.
  • Virada do ano: Rockingham Speedway.
  • Fevereiro de 2026: Atlanta Dragway e Virginia Motorsports Park.
  • Abril de 2026: Empire Dragway.
Vista do Atlanta Dragway, em Commerce, na Geórgia, com a pista ao fundo e o gramado em primeiro plano
Atlanta Dragway, em Commerce, na Geórgia. A pista recebeu a NHRA por 40 anos e está fechada desde 2021. Foto: Thomson200 / Wikimedia Commons (CC0)

O dinheiro que parou de chegar

O problema veio de fora da pista. A Darana Hybrid fazia obras de data center para a xAI, empresa de inteligência artificial de Elon Musk, na região de Memphis. Segundo Cuttell, os pagamentos pararam depois que a xAI se fundiu com a SpaceX, no começo de 2026.

Cuttell diz que a empresa tem a receber cerca de US$ 600 milhões. A Darana registrou penhoras sobre os imóveis onde fez as obras, no Tennessee e no Mississippi, que somam cerca de US$ 570 milhões, e entrou na Justiça do Mississippi em 6 de agosto.

Dois dias antes, a própria xAI já tinha processado a Darana e Cuttell no tribunal federal do oeste do Tennessee. A ação acusa a construtora de fraude, quebra de contrato e cobrança acima do combinado, pede mais de US$ 500 milhões e diz que dinheiro das obras foi desviado para projetos pessoais de Cuttell. A IHRA aparece como ré. Cuttell nega todas as acusações.

Em entrevista à emissora Action News 5, de Memphis, ele admitiu que a falta de pagamento afetou diretamente a capacidade da IHRA de funcionar e disse que talvez precisasse vender pistas para manter as empresas de pé.

O efeito dominó no calendário

Os sinais apareceram primeiro no calendário. Em 29 de junho, a IHRA tirou as provas de outono de Atlanta, Milan e Empire, alegando que as reformas precisavam de mais tempo. Em 9 de julho, cancelou o resto da temporada da Nitro Drag Racing Series, a série das categorias profissionais, e demitiu funcionários.

“Não vamos baixar o padrão dos nossos eventos só para dizer que completamos uma corrida”, disse na época o presidente da IHRA, Dustin Farthing. “Isso não é o fim das provas nacionais de arrancada, é um recomeço.”

O recomeço não veio. Em 14 de agosto, a Track Enterprises anunciou que as séries nacionais da NASCAR não voltam a Rockingham em 2027, citando “incerteza geral”. Três dias depois, a Maple Grove fechou. Pilotos e fornecedores dizem que ainda não receberam por uma prova de junho na Darana Raceway, em Ohio.

O que muda para quem corre

Não há anúncio de fechamento para as pistas do leilão. O destino de cada uma depende de quem comprar, e os anúncios dão pistas do que os vendedores esperam. O do Heartland destaca 117 hectares livres com zoneamento industrial, bons para galpões e logística. O de Memphis mostra o projeto de um centro logístico de mais de 370 mil metros quadrados, com capacidade elétrica acima de 42 megawatts.

Há também casos a favor da pista. O zoneamento do Atlanta Dragway permite seguir com automobilismo, e o do Empire Dragway autoriza expressamente pista de arrancada. Mas Atlanta mostra como a terra pode valer mais que a pista: depois da última prova da NHRA, em 2021, a área foi vendida para uma incorporadora, que demoliu a torre e as arquibancadas e teve o projeto imobiliário rejeitado pela comissão de planejamento do condado em fevereiro de 2025.

O comunicado do leilão não diz o que acontece com a IHRA como entidade, com as regras e o calendário de 2027. A pergunta que a imprensa americana repete é quantas das 12 ainda serão pistas de arrancada daqui a um ano.

Para entender as categorias e como funciona uma prova, o Atleta Pro tem um guia completo da corrida de arrancada.

O que isso ensina sobre alta performance

Na arrancada, a prova dura quatro segundos e não deixa recuperar nada. O resultado não se constrói na largada, só aparece nela. Tudo o que decide a passagem foi feito antes, na oficina, no acerto e no motor.

A IHRA de Cuttell fez o contrário. Cresceu em velocidade de Top Fuel, comprou mais de uma dezena de pistas em pouco mais de um ano e apoiou tudo numa única fonte de dinheiro, que não tinha nada a ver com o esporte. Quando essa fonte secou, não havia estrutura para segurar a liga. Vale para piloto, equipe e liga: alta performance é o que se sustenta, não o pico de uma temporada.

No Brasil, o calendário segue firme. A final da Copa FT BR Sport de Arrancada acontece de 1º a 6 de dezembro no FuelTech Velopark, no Festival FT de Arrancada, com a Pro Mod entre as categorias na pista.

Da Pro Mod americana ao FuelTech Velopark

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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