A casa fica num condomínio comum da região de Orlando, na Flórida: grama aparada, calçada limpa, garagem de duas portas. O que foge do padrão está na entrada. Encostados no paralelepípedo estão um Impala vermelho, um Nissan Skyline R32 GT-R cinza de rodas douradas, um Mazda RX-7 verde-escuro esperando o embarque e um Corvette C5 branco comprado na semana anterior. Na rua, em frente, um segundo Corvette C5, vermelho, que é o carro de todo dia do dono.
O jornalista Tiago Kfouri, o TK do canal Macchina, foi até lá para entender como funciona a ponte que leva clássico americano e japonês até a garagem de brasileiro. Quem recebe é Marco, da Floridian USA, um gaúcho que trocou a compra e venda de carros no Sul pela exportação de veículos de coleção e diz já ter mandado centenas de carros para o Brasil. Ele avisa logo de cara que aquilo ali não é o depósito da empresa, onde ficam os carros dos clientes, e sim a casa dele. A conta dele para os últimos cinco anos é curta: a procura triplicou.

A regra dos 30 anos decide o que pode entrar
Em 2026, só entra no Brasil carro fabricado em 1996 ou antes. É a chamada regra dos 30 anos, e ela é a porta única: a Portaria Secex nº 23, de 2011, proíbe a importação de veículo automotor usado, e abre exceção apenas para o que se enquadra como bem de coleção.
O caminho não é o do despachante comum. O importador precisa ser pessoa física associada a um clube de veículos antigos filiado à Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), e o carro precisa de um certificado de autenticidade emitido por entidade reconhecida pela Senatran. O pedido é feito no sistema eletrônico SISCAT, com licença de importação deferida, fatura comercial e quatro fotos coloridas do veículo (frente, traseira e as duas laterais). O serviço é gratuito, e a análise da documentação leva até 60 dias úteis. A base legal está na Portaria MDIC nº 235/2006 e nas Resoluções Contran nº 56/1998 e nº 957/2022.
O detalhe que decide compra é qual data conta. Vale o ano de fabricação, não o ano-modelo. Marco usa o Corvette C5 como exemplo: a linha 1997 começou a ser produzida em Bowling Green em outubro de 1996, então as primeiras unidades já cruzam a régua hoje, mesmo sendo “97” no documento. Ele conta que passou dois anos caçando exatamente esses carros e achou três brancos 96/97 em um mês, um deles com chassi 0024.
Importar carro clássico custa o mesmo imposto de um zero quilômetro
Aqui morre o mito do “carro antigo paga menos”. Segundo importadoras especializadas no assunto, o veículo de coleção enfrenta a mesma carga tributária de um zero quilômetro de luxo, cobrada em cascata sobre o valor aduaneiro.
| O que incide | Como pesa |
|---|---|
| Imposto de Importação (II) | 35% para a maioria das origens |
| IPI | varia conforme a motorização |
| PIS/COFINS-Importação | sobre o valor aduaneiro |
| ICMS | alíquota do estado do importador |
| Frete marítimo, seguro e despacho | fora dos tributos, entram no custo final |
A conta ainda fecha porque a diferença de preço na origem é grande, e porque o mercado brasileiro cobra caro pela raridade. No vídeo, Marco insiste num ponto que costuma custar dinheiro a quem compra sozinho: nos Estados Unidos a distância de preço entre um carro mediano e um excepcional é pequena, enquanto no Brasil a mão de obra de funilaria e mecânica cobra a diferença depois. Comprar barato no escuro sai mais caro no fim. Foi o mesmo raciocínio que levou o fundador da FuelTech a fechar negócio à distância quando Anderson Dick comprou um Corvette C4 para um amigo cruzar os Estados Unidos.

A janela dos anos 90 abriu, e ela muda o que chega
Até pouco tempo, a regra dos 30 anos entregava carro de fase de transição, com injeção mecânica e soluções complicadas de manter. Agora ela alcança os anos 90, e isso reposiciona o mercado inteiro.
Na prática, hoje cabem na régua o Corvette C4 inteiro e os primeiros C5, o Skyline R32 e o R33, o Mazda RX-7 da geração FD, o Toyota Supra e as Mercedes SL. São carros com ar-condicionado que funciona, desempenho que ainda impressiona e manutenção previsível. O C5 1997, por exemplo, saiu de fábrica com o V8 LS1 de 5,7 litros e 345 cavalos, com 0 a 96 km/h na casa dos 4 segundos e meio.
É por isso que Marco usa o próprio C5 1997 vermelho como carro de todo dia, com 70 mil milhas quando comprou e mais 10 mil rodadas por ele desde então. Mecânica original, só o escapamento trocado.
Por que o carro bom dura duas horas
A parte que o comprador brasileiro não vê é a velocidade. A Floridian USA opera com duas frentes: uma equipe de busca que fica no Brasil, dividida por região dos Estados Unidos, e uma equipe de compra que fica em campo. Quando um carro aparece, o relógio começa a correr.
Marco conta que já saiu de casa às 3h da manhã para pegar voo até a Califórnia e garantir um Impala, e que também dirige a madrugada inteira com caminhonete e trailer quando a distância compensa. Ele mantém três caminhonetes e três trailers prontos justamente para isso. Já buscou carro no Alasca, que desceu por terra até a Flórida, e conta que já trouxe veículo do Havaí.
Antes de o cliente decidir, o carro é filmado por cerca de 20 minutos, ponto positivo e ponto negativo, e a compra é feita presencialmente. Quando o vendedor fica longe, o carro vai para um self storage fechado, e a chave fica com o depósito até o transportador aparecer com autorização. O transporte em si funciona como aplicativo: cegonhas e caminhões menores com rota formada aceitam ou fazem contraproposta, e dá para escolher o motorista pela avaliação, pelo histórico de viagens e pelo tipo de carreta, aberta ou fechada.
A pressa tem um motivo cultural, e Marco é direto sobre ele. Nos Estados Unidos não existe o fio do bigode. Negócio fechado por telefone, com sinal pago, pode virar pó: o vendedor devolve o sinal e entrega o carro para o vizinho que apareceu com dinheiro na mão. No Brasil, diz ele, chegava a marcar a retirada para dali a uma semana e encontrava o carro esperando, sem sinal, com gente que nem conhecia.

A disputa não é só com o comprador brasileiro
O erro de leitura mais comum é achar que o Brasil está sozinho na fila. Não está. Os mesmos carros estão saindo dos Estados Unidos para a Europa, a Colômbia, o Chile e o México, que fica ao lado e pode importar veículo com 15 anos ou mais, ou seja, tira do estoque antes de o brasileiro alcançar.
Tem nicho com dono, também. Marco afirma que os RX-7 estão desaparecendo em direção a Porto Rico e à República Dominicana, onde a cultura do motor rotativo é obsessiva. Quem quiser ver o tamanho disso tem endereço: o World Sport Compact Challenge, apresentado pela FuelTech, acontece de 21 a 25 de outubro de 2026 no Orlando Speed World Dragway, uma pista de quarto de milha homologada pela NHRA, a mesma entidade que organiza a arrancada profissional nos Estados Unidos.
O que muda no bolso depois que o carro chega
Uma vantagem antiga do carro antigo ficou maior em 2026. A Emenda Constitucional nº 137, promulgada em 9 de dezembro de 2025, criou imunidade nacional de IPVA para automóveis, caminhonetes e veículos de uso misto com 20 anos ou mais de fabricação, além de micro-ônibus, ônibus, reboques e semirreboques. Antes disso, a isenção era colcha de retalhos: cada estado decidia, e havia quem exigisse 30 anos. Um clássico importado pela regra dos 30 anos entra no país já com essa conta zerada.
Sobre peça, a comparação é dele e vale como experiência, não como tabela: Marco diz que levantou os preços das peças do próprio Corvette 1984 num fornecedor americano, converteu para real e encontrou valores abaixo dos do Gol que tinha no Brasil, citando uma bomba d’água original por pouco mais de R$ 300. Ele lembra também que a importação aérea de peça ficou mais simples, com prazo em torno de 15 dias.
Os carros da entrada
| Carro | Situação |
|---|---|
| Corvette C5 1997 vermelho | Carro de uso diário de Marco, 80 mil milhas, mecânica original |
| Nissan Skyline R32 GT-R 1990 | Veio do Japão há dois anos e meio, tração integral, uso pessoal |
| Nissan Skyline R33 1994 | RB25 turbo montado no Japão, acertado no álcool, tração traseira, destino confirmado no Sul do Brasil |
| Mazda RX-7 (FD) | Vendido zero quilômetro nos Estados Unidos, volante à esquerda, menos de 50 mil milhas, embarcando para o Brasil |
| Chevrolet Impala | Comprado na Califórnia, com placa de coleção do estado |
| Corvette C5 branco 96/97 | Três unidades achadas em um mês, uma delas de chassi 0024 |
Sobre os C5 brancos, Marco levanta uma hipótese que ele mesmo apresenta como pesquisa própria, não como fato de fábrica: os primeiros exemplares brancos teriam sido carros de teste da GM. Ele cita o histórico de uma das unidades, vendida em 1998 com 15 mil milhas e com a própria montadora como proprietária até ali. Coleção do tipo já tem endereço no Brasil, como mostra a maior coleção de Dodge do país.

O que isso ensina sobre alta performance
A vantagem de Marco não é saber mais de Corvette do que os outros. Muita gente no mercado sabe. A vantagem é tempo de reação, e tempo de reação não se improvisa na hora: se compra antes.
Os três trailers já estão engatados. A equipe já está dividida por região. Os vendedores americanos já sabem o nome dele antes de o anúncio existir, o que abre acesso a carro que nunca chega a ser anunciado. Quando a oportunidade aparece e dura duas horas, a decisão não precisa ser tomada, ela já estava tomada. O que sobra é executar.
É o mesmo mecanismo de quem compete. O atleta que decide o que vai fazer no momento em que a chance aparece já chegou tarde. O que decide o resultado é o trabalho feito quando ninguém estava olhando: o plano de prova ensaiado, o gesto repetido até virar automático, a logística resolvida antes do dia. A janela sempre é curta. Ganha quem chegou nela pronto.
O episódio é do canal Macchina, comandado por Tiago Kfouri, o TK, que publica bastidores de garagem e projetos no perfil @tkfouri no Instagram.
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