Por fora, é um Mercedes Classe B branco igual a milhares que saíram da fábrica de Rastatt, na Alemanha. Debaixo do capô, no lugar do motor a diesel de 140 cv, está um V8 aspirado de 5,5 litros e 388 cv, montado por doze aprendizes da própria Mercedes-Benz.
O carro se chama B 55 e é peça única. Ganhou tração traseira, eixo de Classe E, freios de AMG e câmbio automático de sete marchas, e continua rodando: em setembro de 2026, o Mercedes-Benz Museum publicou fotos e vídeos dele no Hockenheimring, e o post passou de 14 mil curtidas em menos de uma semana.

A ideia saiu de uma fita métrica
O projeto nasceu na oficina de formação profissional de Rastatt, a fábrica que produzia o Classe B. O diretor da unidade, Peter Wesp, queria um trabalho especial dos aprendizes com base no modelo da casa. Andreas Würz, mestre da formação técnica, pegou uma fita métrica, mediu o cofre e concluiu que um V8 caberia.
Würz e o colega Matthias Rieger montaram uma equipe de doze aprendizes dos cursos de montagem e mecatrônica. As regras eram quatro: o espaço interno do Classe B não podia mudar, por fora só poderia haver pistas discretas da conversão, o interior tinha de subir de nível junto com o motor e o carro precisava servir para o uso do dia a dia.
A base foi um B 200 CDI a diesel que já estava reservado para as aulas. O Classe B da época, da série 245, tinha motor transversal e tração dianteira. Segundo o arquivo da Mercedes-Benz Classic, mais de 740 mil unidades dessa geração saíram de Rastatt entre 2005 e 2011.
Do diesel ao V8: o que mudou
Apesar do nome, que lembra os AMG 55 da época, o motor não é AMG. É o M 273, o V8 aspirado de 5,5 litros que equipava o Mercedes E 500. O desafio maior foi trocar a tração da frente para trás, e para isso a equipe recorreu ao estoque de peças de outras linhas da marca.
| Item | O que foi para o B 55 |
|---|---|
| Carro-base | Mercedes B 200 CDI (série 245), diesel, 140 cv |
| Motor | V8 M 273 de 5,5 litros, aspirado |
| Potência e torque | 388 cv (285 kW) e 530 Nm |
| Câmbio e tração | automático de 7 marchas, tração traseira |
| Eixo traseiro | do Classe E W 210, num subchassi próprio |
| Freios | do C 32 AMG: discos de 345 mm na frente e 300 mm atrás |
| Suspensão | coilover rosqueável da KW |
| Rodas e pneus | AMG aro 18, com 235/40 na frente e 255/35 atrás |
| Escapamento | saída dupla central, feita sob medida |
| Peso | cerca de 1.620 kg, uns 180 kg acima do B 200 CDI |
O V8 entrou com relativa facilidade. O trabalho pesado veio no resto. O eixo do Classe E W 210 foi escolhido porque era o que melhor se encaixava, e a árvore de transmissão, adaptada de um Classe E, passou pelo assoalho em sanduíche do Classe B sem exigir mudança na estrutura. As rodas maiores obrigaram a recalcular o ângulo de esterço, e direção e escapamento deram mais trabalho que o próprio motor.

Oito meses de oficina e um interior à altura
A equipe levou pouco mais de oito meses para concluir o carro, segundo o material da época reproduzido pelo site alemão Mercedes-Seite. O projeto também passou por outra unidade: a oficina de formação de Sindelfingen forrou de Alcantara as colunas e o teto. Os bancos, em couro e Alcantara, vieram da Johnson Controls.
Por fora, as pistas são poucas: faróis e grade escurecidos, rodas AMG, a saída dupla de escapamento no centro do para-choque e o emblema B 55 na tampa traseira. Dentro, o conta-giros traz a inscrição V8 e o velocímetro vai até 300 km/h.

Quanto anda, e onde as fontes divergem
Na apresentação, Würz estimou o 0 a 100 km/h em menos de seis segundos, sem medição oficial. O texto histórico do arquivo da Mercedes-Benz Classic fala hoje em pouco mais de cinco segundos e em 160 kg a mais que o carro-base, contra os 180 kg divulgados na época.
A data também varia conforme a fonte. O Mercedes-Benz Museum diz que os aprendizes transformaram o Classe B em 2009. A imprensa alemã noticiou o carro entre dezembro de 2010 e fevereiro de 2011, e o arquivo da marca situa o projeto no início de 2011.
Onde está o B 55 hoje
O B 55 sobreviveu ao fim do projeto. Nas imagens publicadas pelo museu em setembro, com a legenda “1 of 1”, ele aparece no Hockenheimring, estacionado ao lado de um transporte da Mercedes-Benz Classic, com o capô aberto para mostrar o V8. O vídeo do museu repete a versão oficial: em 2009, os aprendizes transformaram um Classe B num monstro de tração traseira. A revista americana The Drive recontou a história em 27 de setembro.

Uma tradição das fábricas alemãs
A Mercedes não é a única a usar carro-projeto para formar mão de obra. A Volkswagen leva há anos ao encontro do lago Wörthersee, na Áustria, carros feitos por aprendizes. Em 2019, a equipe de Wolfsburg apresentou o Golf GTI Aurora, com 380 cv, e a de Zwickau levou uma Golf Variant de 400 cv com tração integral.
O B 55 tem uma diferença: em vez de preparar o motor original, os aprendizes trocaram de motor, de câmbio e de eixo motriz. O portal já contou outras trocas desse tamanho, como o BMW M5 com motor W10 da Volkswagen, o DeLorean com motor Ferrari da FuelTech e o Toyota 86 com V8 de Ferrari de Ryan Tuerck. Nenhum deles saiu de uma sala de aula.
O que o B 55 ensina sobre alta performance
O projeto não pediu só potência. Pediu 388 cv sem perder o porta-malas, sem mudar a carroceria e sem tirar o carro do uso diário. Foram as restrições que obrigaram os aprendizes a resolver direção, eixo, freio e escapamento, e é nesse tipo de problema que se forma um mecânico.
A lição vale para qualquer atleta. Treino que só busca o número máximo ensina pouco. O que forma é a meta com regra clara, prazo e alguém experiente medindo antes de começar, como a fita métrica de Würz. Oito meses de processo viraram um carro que, mais de 15 anos depois, ainda vai para a pista.
Gosta de carro com história? A FuelTech faz roupa para quem vive disso.
Camiseta, moletom, jaqueta e boné da marca brasileira que virou referência mundial em eletrônica de alta performance.







