Por fora, é um BMW M5 da geração E39 igual a tantos outros que saíram da Alemanha na virada do século. Pintura preta, couro preto, visual de série. Até o telefone original continua no apoio de braço central. Debaixo do capô, porém, não está o V8 da BMW. Está um motor de dez cilindros em W, aspirado, feito pela Volkswagen, do qual só existem três unidades no mundo.
O carro vai a leilão no dia 9 de outubro de 2026, em Knokke-Heist, na Bélgica. É o lote 164 da Zoute Concours Auction, da Broad Arrow Auctions, com estimativa da casa entre 250 mil e 350 mil euros. A história por trás dele passa por Ferdinand Piëch, o engenheiro que presidia o Grupo Volkswagen em 1999 e que tirou do papel o W12 e o W16 do Bugatti Veyron.

O que vai a leilão
O carro é um M5 modelo 2000, chassi WBSDE91040GJ16436, construído em 2 de março de 1999, segundo a casa de leilão. No lugar do V8 S62 de 4,9 litros e 400 cv que equipava todo E39 M5 de fábrica, recebeu um W10 experimental de 5,0 litros, com bloco de alumínio e sem turbo.
A ficha divulgada pela Broad Arrow:
| Item | O que diz o anúncio |
|---|---|
| Carro | BMW M5 (E39), modelo 2000, Carbon Black Metallic com couro preto |
| Motor | W10 experimental Volkswagen, 5,0 litros, aspirado, alumínio |
| Potência e torque | 480 cv e 592 Nm, 80 cv a mais que qualquer E39 M5 de fábrica |
| Câmbio | manual de seis marchas, o original do M5 |
| Eletrônica | central independente; ABS, controle de tração e de estabilidade desligados |
| Painel | painel de competição Stack no lugar do original, sem hodômetro |
| Acompanha | um segundo motor W10 num suporte de exposição e um esboço do projeto |
| Documento listado | certificado de registro da Eslováquia |
| Estimativa da casa | de 250 mil a 350 mil euros |
A falta de hodômetro tem consequência prática: ninguém sabe quantos quilômetros o carro rodou. O resto do interior é BMW de série, com exceção de mostradores extras no console central. Os dutos de admissão, o sistema de ignição e o reservatório de expansão do arrefecimento foram feitos sob medida para caber no cofre.
Por que a Volkswagen pôs um motor dentro de um BMW
Piëch assumiu a presidência da Volkswagen em 1993, com a empresa perto da falência. Neto de Ferdinand Porsche, engenheiro de formação, ele tinha passado pela Porsche e pela Audi antes de chegar a Wolfsburg. Na gestão dele, a família de motores VR, de cilindros em ângulo estreito, que a VW lançara em 1991 com o VR6, ganhou versões maiores e um irmão de cinco cilindros, o VR5, em 1997.
Segundo a Broad Arrow, o W10 nasceu em 1999, por ordem de Piëch, para estudar um motor de sedã de alto desempenho numa época em que nem a Volkswagen nem a Audi tinham um rival direto para o M5. A imprensa especializada que examinou o carro descreve o motor como, na prática, dois VR5 unidos num virabrequim comum.
Em vez de construir um carro de testes do zero, a equipe instalou o motor no próprio rival. O canal britânico DRIVETRIBE, que dirigiu o carro em 2025, apontou os motivos: o cofre do E39 tinha espaço, o W é mais curto que um V10 equivalente, o chassi dispensava mudanças, o visual discreto não chamava atenção e o câmbio manual de seis marchas servia ao desenvolvimento.

Um projeto fora dos livros
A Broad Arrow afirma que o W10 nunca foi um programa oficial da Volkswagen. Pelo relato de quem está vendendo o carro, o trabalho correu fora do departamento de pesquisa e desenvolvimento, por instrução direta de Piëch, com dinheiro do Grupo Volkswagen e um custo relatado perto de 2 milhões de euros.
A ligação com Piëch se apoia sobretudo em um depoimento. Sabine Willeke, apresentada pela casa como líder da equipe de engenharia do projeto, afirma que o carro serviu de transporte pessoal do então presidente da VW durante o desenvolvimento secreto, e que ele rodava com placas provisórias. No anúncio, o único documento listado é o certificado de registro eslovaco. Além dele, o lote traz o esboço do projeto e o segundo motor.
Durante anos, circulou a versão de que Piëch ia trabalhar todos os dias com o M5. A Broad Arrow conta uma história mais modesta: ele dirigiu o carro durante os testes. Sem hodômetro, não há como medir quanto.
Três motores e uma lenda de internet
Até pouco tempo, o W10 era tratado como folclore. Em 2023, o site americano The Drive publicou a história de um mecânico da Volkswagen, na Alemanha, que guardava um W10 e tinha ouvido que os outros dois motores haviam sido destruídos. Em março de 2025, o DRIVETRIBE publicou um vídeo com o M5 funcionando, e o carro apareceu à venda por um valor que a imprensa estimou em cerca de 500 mil dólares.
Agora a conta fecha, pelo menos na versão de Willeke. Foram três motores: um continua na Alemanha, outro vai a leilão como peça de exposição ao lado do carro e o terceiro está instalado no M5. Quem arrematar leva dois dos três W10 que a Volkswagen construiu. Nenhum outro foi colocado num carro de rua.
A potência também mudou de versão. Em 2025, uma medição em dinamômetro apontou 480 hp, e parte da imprensa tratou o número como potência na roda, o que projetaria algo perto de 530 hp no motor. A ficha da Broad Arrow crava 480 cv (473 hp), o que indica que a medição de 2025 já estava perto da potência no virabrequim.
A família W de Piëch
O W10 é o elo que faltava numa linhagem que marcou a Volkswagen sob Piëch. A lógica era a mesma em todos: juntar bancadas de cilindros em ângulo estreito sobre um único virabrequim e ganhar cilindrada num motor curto.
- W8: 4,0 litros e 275 cv, no Passat W8, vendido de 2001 a 2004. Serviu de banco de provas para a tecnologia W.
- W12: estreou com 5,6 litros nos conceitos esportivos desenhados pela Italdesign entre 1997 e 2001 e chegou à produção, com 6,0 litros, no Volkswagen Phaeton, no Audi A8 e nos Bentley.
- W18: três bancadas, apareceu nos conceitos da Bugatti no fim dos anos 1990 e perdeu a vaga no Veyron para o W16.
- W16: 8,0 litros com quatro turbos e 1.001 cv, no Bugatti Veyron, produzido a partir de 2005.

A Broad Arrow chama o W10 de precursor do W16. A Hagerty, que controla a casa de leilão, vai além e trata o motor como um passo no desenvolvimento do W12 e do W16. O W10 em si nunca chegou à linha de montagem, e a Volkswagen não voltou ao conceito depois que o programa terminou.

Há uma ironia no fim da história. A própria BMW acabou fazendo o seu M5 de dez cilindros: o E60, lançado em 2005 com o V10 S85 de 5,0 litros e 507 cv, o primeiro e único V10 de produção da marca.
O que o comprador leva, e o que herda
O atual dono comprou o M5 há cerca de dez anos, por contatos no meio da engenharia, registrou o carro para rodar na Eslováquia e o usa em vez de guardá-lo. A última revisão foi em 2025, com peças de catálogo da própria Volkswagen, e não com componentes feitos sob medida.
O próximo dono herda um problema burocrático. Pela extensão da conversão, o carro não tem certificado de conformidade, e isso precisa ser resolvido antes de registrá-lo em outro país. A estimativa da casa, de 250 mil a 350 mil euros, fica abaixo da cifra que circulou em 2025.
Troca de motor é uma tradição antiga, e o portal já mostrou casos como o Porsche 911 com motor de Ferrari e o DeLorean com motor Ferrari de Anderson Dick. A diferença aqui é quem assinou o projeto: não foi um preparador, foi o presidente do Grupo Volkswagen, usando o carro do concorrente como laboratório. Para quem acompanha o mercado de carros de coleção e importação, é o tipo de peça em que a história vale mais que a ficha técnica.
O que o W10 ensina sobre alta performance
A Volkswagen tinha orçamento para construir o próprio carro de testes. Preferiu medir o motor dentro do melhor sedã esportivo da época. O raciocínio é simples: um motor novo só prova alguma coisa quando roda no mesmo chassi, com o mesmo câmbio e na mesma estrada que a referência da categoria. Os 80 cv a mais só têm significado porque o ponto de comparação é o M5.
Outro detalhe diz muito. Para o W10 funcionar, os engenheiros desligaram a eletrônica original e puseram o motor sob uma central independente, que manda sozinha em injeção e ignição. É a mesma lógica das injeções programáveis que a FuelTech leva aos carros da corrida de arrancada: quem controla o motor é quem controla o resultado.
Atleta que só se mede contra quem está abaixo dele não sabe onde está. O teste que vale é contra a referência, nas mesmas condições. O resto é ficha técnica.
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