Uma Ferrari amarela girando sobre um disco vermelho, cercada por cordão de isolamento e por dezenas de celulares levantados. Foi essa a cena que o Dream Car São Roque publicou no sábado (1º), quando anunciou que a Ferrari de Anderson Dick entrou oficialmente para a exposição do parque.
Em pouco mais de um dia, o vídeo passou de 300 mil reproduções. O que o público de São Roque está vendo de perto não é uma F355 comum. É um carro que passou quase dez anos parado numa oficina no interior da Geórgia, nos Estados Unidos, antes de virar o cartão de visitas da maior fabricante brasileira de injeção eletrônica.

A Ferrari que ninguém quis
A história começa em Atlanta. Anderson Dick, fundador e CEO global da FuelTech, encontrou uma Ferrari F355 Spider 1998 encostada na Vol Repairs, uma oficina da região. O carro estava parado havia quase uma década.
O próprio Anderson resumiu o projeto numa frase publicada nas redes dele: “da pior a melhor em um mês”. A F355 tinha fama de ser a Ferrari mais problemática da linha, e aquele exemplar específico era o pior caso possível.
A reconstrução foi feita na sede da FuelTech em Ball Ground, também na Geórgia, e levou menos de um mês. Os filhos de Anderson participaram do trabalho.
Por que a F355 não é uma Ferrari qualquer
O modelo foi produzido entre 1994 e 1999 e vendeu 11.273 unidades, número que fez dela a Ferrari mais produzida até aquele momento. Foi o carro que recolocou a marca no lugar certo depois da recepção morna da 348.
O nome também foge da lógica antiga da Ferrari, que costumava misturar cilindrada e número de cilindros. Aqui o 35 vem dos 3,5 litros e o 5 final vem das cinco válvulas por cilindro, uma solução rara mesmo entre esportivos da época.
A versão Spider, conversível, que é a de Anderson, teve 3.717 unidades, a segunda mais vendida da linha atrás da Berlinetta.
E há um detalhe que torna a conversão do câmbio quase irônica. Foi a F355, em 1997, o primeiro carro de rua do mundo a sair de fábrica com câmbio F1 de borboletas, herdado direto da Fórmula 1. A tecnologia que hoje está em praticamente todo esportivo estreou nesse modelo.
Um turbo Garrett no lugar da receita original
O V8 3.5 da F355 é uma das obras-primas da Ferrari dos anos 1990: cinco válvulas por cilindro, giro alto e 380 cv de fábrica, tudo aspirado. A FuelTech jogou essa receita fora.
No lugar entrou um turbo Garrett G42-1200, com carcaça de turbina 1.01 A/R, alimentado por duas wastegates eletrônicas Turbosmart de 45 mm. A pressão de trabalho é de 16 libras, algo em torno de 1,1 bar.
O gerenciamento ficou com a FT600, a injeção topo de linha da própria FuelTech. O intercooler é Treadstone, os coletores são Fabspeed e o escapamento é de titânio, da Ticon.

O resto do carro acompanhou: freios Brembo GT, rodas Rotiform ROC de três peças e 19 polegadas, pneus Nitto NT05R (drag radial homologado para rua) e peças de fibra de carbono da XV Racing.
777 cv na roda, e o número que a imprensa arredonda
Nos testes no dinamômetro de cubo da própria FuelTech, a Ferrari registrou 777 cv a 9.000 rpm. Esse é o número medido.
Vale reparar em que rotação ele foi medido. A zona vermelha de fábrica da F355 é 8.250 rpm, que é justamente onde o motor original entregava os 380 cv. A versão turbo segue empurrando 750 giros além disso.
O valor de “1.000 cv” que circula na imprensa brasileira é uma estimativa de potência no motor, feita a partir da perda de transmissão. Não é um número aferido. Vale a distinção: 777 cv na roda já é o dobro do que a Ferrari entregava na concessionária.

O câmbio F1 virou manual de gaveta
A modificação menos óbvia é também a mais cara de fazer e a que mais agrada o público purista: o câmbio.
A F355 original vinha com o F1, o automatizado de borboletas que a Ferrari estreou justamente nessa geração e que era o orgulho tecnológico da marca na época. A FuelTech tirou o sistema inteiro e converteu o carro para manual de gaveta, aquele câmbio de grade metálica com a alavanca cromada que virou símbolo das Ferrari clássicas.
Ou seja: o preparador removeu do carro exatamente a inovação que fez dele um marco na história da indústria. Não é descuido, é leitura de mercado. Trinta anos depois, o manual de gaveta vale mais aos olhos do colecionador do que o automatizado que o substituiu, e o F1 daquela primeira geração ficou conhecido por trocas lentas e manutenção cara.
É a mesma lógica que a FuelTech aplicou no Mustang Fox Body elétrico de 500 cv com câmbio manual de cinco marchas: tecnologia moderna embaixo, controle mecânico na mão do motorista.
Do Velopark à Detail Land, e agora São Roque
A Ferrari não chegou a São Roque por acaso. Dream Car e FuelTech já vinham se cruzando ao longo de 2026.
Em fevereiro, o parque de São Roque foi o ponto de partida da caravana de cerca de 400 carros que atravessou o país até o Rio Grande do Sul para a inauguração do Autódromo FuelTech Velopark, que Anderson comprou. Na inauguração, a F355 foi exposta no espaço Garage FuelTech, ao lado de outros projetos da casa.
Em maio, o carro foi a atração do estande da Dub Boyz na Detail Land, no Transamerica Expo Center, em São Paulo. A Dub Boyz é a mesma fabricante paranaense que produz a linha FT Car Care, a entrada da FuelTech na estética automotiva.
Agora a Ferrari fica em exposição fixa, com o público girando em volta dela todo fim de semana. Quem acompanha a corrida de arrancada no Brasil já conhece a marca pelo outro lado: a FuelTech assina a eletrônica de boa parte do grid nacional e organiza a Copa FT BR Sport.
Onde ver a Ferrari
O Dream Car fica na Estrada do Vinho, 7.901, em São Roque, a cerca de 60 km da capital paulista. O acervo passa de 185 veículos e inclui Lamborghini Diablo, Ford GT, Plymouth Superbird e o Batmóvel.
O parque abriu em 2026 dois espaços novos: o museu de Fórmula 1, com réplicas em tamanho real de carros de Senna, Piquet e Fangio, e o Cinecar, com 12 carros de cinema. Há ainda kartódromo, shows de drift e a Volta dos Sonhos, em que o visitante dirige uma Ferrari ou uma Porsche.
O parque não abre às segundas e terças. Nos outros dias, os horários são estes:
| Dia | Horário |
|---|---|
| Segunda e terça | Fechado |
| Quarta e quinta | 9h às 18h |
| Sexta e sábado | 9h às 19h |
| Domingo e feriado | 9h às 18h |
A entrada inteira custa R$ 119 e a meia sai por R$ 59,50. Há combos de família a partir de R$ 159,90 para duas pessoas, e quem compra com pelo menos 24 horas de antecedência tem 30% de desconto. Crianças de até seis anos não pagam. Em dias de evento os horários podem mudar, então vale conferir antes de subir a serra.
O que isso ensina sobre alta performance
O detalhe que costuma passar batido nessa história não é o turbo nem o número do dinamômetro. É o prazo.
A FuelTech reconstruiu um carro abandonado por dez anos, converteu o câmbio, instalou turbo, injeção, freios e escapamento e levou o conjunto ao dinamômetro em menos de trinta dias. Isso não acontece por talento isolado. Acontece porque a estrutura já existia: oficina montada, dinamômetro em casa, fornecedores mapeados e a própria eletrônica sendo fabricada pela empresa.
É a mesma diferença que separa o atleta que treina bem do atleta que evolui rápido. O ganho não vem só do esforço no dia. Vem de ter o sistema pronto antes de precisar dele: o treino planejado, o dado medido, o profissional certo do lado. Quem monta a estrutura primeiro transforma esforço em resultado num prazo que os outros não conseguem acompanhar.
A Ferrari amarela girando no disco vermelho de São Roque é o resultado visível. O invisível é a oficina que tornou aquilo possível em um mês.
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