A categoria mais extrema da arrancada brasileira vai ter neste fim de semana o maior pelotão já reunido na Copa FT BR Sport de Arrancada. A 3ª etapa da competição, de 31 de julho a 2 de agosto no Autódromo FuelTech Velopark, em Nova Santa Rita (RS), terá o maior grid de carros Pro Mod da história do evento, segundo a organização.
São máquinas que passam de 4 mil cavalos, cruzam os 201 metros em menos de quatro segundos e chegam ao fim da pista acima dos 300 km/h. Nada nelas veio de fábrica.

O que é a Pro Mod, a categoria dos 4 mil cavalos
Pro Mod é a abreviação de Pro Modified, e o nome engana: não há quase nada de modificado ali. São carros construídos do zero para a função, com chassi tubular, carroceria de fibra que apenas imita a silhueta de um modelo de rua e motor sobrealimentado que entrega várias vezes a potência de um carro de corrida convencional.
Para comparação, um carro de Fórmula 1 opera na casa dos 1.000 cavalos. Um Pro Mod entrega quatro vezes isso, em um veículo mais pesado e sem qualquer aerodinâmica que gere apoio nas curvas, porque não existem curvas. Toda a engenharia serve a um único problema: transformar potência absurda em tração dentro de uma faixa de asfalto de 201 metros.
“A categoria reúne alguns dos veículos de arrancada mais rápidos e tecnológicos do mundo, com motores que ultrapassam 4.000 cv, proporcionando ao público um espetáculo impressionante de desempenho, velocidade e emoção”, disse o diretor do autódromo, Álex Wagner, ao anunciar o grid recorde.
O detalhe que separa o carro rápido do carro vencedor não é o motor. É o gerenciamento eletrônico que decide, milissegundo a milissegundo, quanta potência o pneu pode receber sem perder aderência. Potência demais na hora errada e o carro roda a borracha em falso, joga o tempo fora nos primeiros metros e perde a prova antes dos 50 metros.
As marcas que a categoria persegue
A Pro Mod brasileira tem uma linha do tempo curta e bem documentada. O marco fundador é de Roderjan Busato, piloto de Curitiba, que em 2021 cravou 3s789 a 313 km/h nos 201 metros do próprio Velopark com o Camaro #174. Foi a primeira vez que um carro no país entrou na casa dos três segundos e sete décimos.

De lá para cá a categoria acelerou. Em julho deste ano, no SPID Fest, no São Paulo International Dragway, em Itatiba (SP), Sidnei “Grandão” Frigo registrou 3,568 segundos nos 201 metros e se tornou o primeiro piloto das Américas fora dos Estados Unidos a quebrar a barreira dos 3,6 segundos. Ele repetiu a marca três vezes no mesmo fim de semana, o que descarta a hipótese de passada isolada de sorte.
A diferença entre 3s789 e 3s568 parece pequena escrita no papel. Na pista, são dois décimos que representam anos de desenvolvimento de motor, embreagem, pneu e eletrônica, e que separam o carro competitivo do carro que ganha campeonato.
Roderjan Busato, o homem a ser batido
Busato chega à 3ª etapa com o retrospecto mais incômodo possível para os adversários: venceu a Pro Mod nas duas rodadas disputadas até aqui em 2026. Levou a estreia, em abril, e repetiu o resultado em junho.
Piloto e empresário, ele comanda a MRB Motorsports e a MRB Billet, que fabricam componentes para motores de alta performance. A equipe já confirmou presença no fim de semana. Na arrancada, essa combinação de piloto e fabricante costuma pesar: quem constrói a peça testa a peça na própria pista, e o ciclo de correção é mais curto do que o de quem depende de fornecedor.
Por que um grid maior muda a disputa
Grid cheio na Pro Mod não é só espetáculo a mais para a arquibancada. Muda a matemática da etapa.
Com poucos carros, um piloto rápido chega às finais sem grande resistência. Com grid recorde, o classificatório de sexta e sábado deixa de ser formalidade e vira parte da estratégia: o tempo cravado ali define o chaveamento do mata-mata de domingo, e uma classificação medíocre pode significar enfrentar o carro mais forte já na primeira rodada.
Também aumenta o desgaste. Cada passada de um Pro Mod castiga embreagem, pneu e motor, e o trabalho entre baterias é feito contra o relógio, no box, com a equipe desmontando e remontando componentes. Mais rodadas eliminatórias significam mais ciclos de manutenção sob pressão, e a etapa passa a premiar tanto a velocidade quanto a capacidade da equipe de repetir o acerto quatro, cinco vezes no mesmo domingo.
O crescimento por trás do grid recorde
A Pro Mod cresce junto com o campeonato. A Copa FT BR Sport de Arrancada estreou em abril com 167 pilotos do Brasil e da Argentina em 31 categorias. Em junho, a 2ª etapa bateu recorde com 180 competidores de três países, incluindo o Uruguai, e distribuiu mais de R$ 200 mil em prêmios. Agora são cerca de 200 carros e motos inscritos em 33 categorias.
Segundo Wagner, o número recorde de veículos “reforça o crescimento da categoria no Brasil e demonstra toda a confiança que pilotos e equipes depositam no campeonato”.
O calendário de 2026 tem cinco etapas. Depois deste fim de semana restam a 4ª, de 11 a 13 de setembro, e a final, de 3 a 6 de dezembro, quando saem os campeões de cada categoria.
Quem quiser acompanhar de casa tem transmissão ao vivo e gratuita pelo canal do autódromo no YouTube, com uma live por dia de prova. Os ingressos para os três dias estão à venda no site oficial do Autódromo FuelTech Velopark, que fica às margens da BR-386, no km 430.
O que a Pro Mod ensina sobre alta performance
Existe uma armadilha em qualquer esporte de potência, e a Pro Mod a expõe melhor do que qualquer outro: mais força não significa mais resultado. Um carro de 4 mil cavalos que não consegue aplicar essa potência no chão perde para um de 3 mil que consegue. A vantagem não está no que o motor produz, está no que o pneu aceita receber.
O paralelo com o treino é direto. Atleta que só acumula carga sem controlar a entrega repete o erro do carro que queima pneu na largada: gasta o recurso no momento errado e chega ao ponto decisivo sem nada guardado. A progressão que funciona é a que respeita quanto o corpo consegue absorver, e não quanto o treinador consegue prescrever.
E há a questão do tempo. Nenhum acerto de Pro Mod é feito durante a prova. Ele é feito na sexta, no treino livre, quando ainda dá para errar barato. O domingo apenas cobra o que foi decidido antes. Alta performance, em qualquer modalidade, é isso: a competição não é onde se constrói o resultado, é onde ele aparece.
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