No sábado, dia 5 de setembro, na 49ª Expointer, em Esteio, Tomaz Gonçalves conduziu Leon Salvaje a 21,265 pontos e conquistou o Freio de Ouro 2026 na categoria dos machos, a prova mais tradicional do Cavalo Crioulo e o maior título da carreira dele. Foi a 12ª temporada seguida em que ele chegou à final da competição, e a primeira vez que desceu do palco com o ouro. Antes disso vieram dois Freios de Prata, um Freio de Alpaca e títulos na Argentina e no Uruguai. A arena lotada assistiu a algo que, para quem estava de fora, pareceu um instante. Para nós, foi a chegada de um dia que vínhamos preparando há muito tempo.
Acompanho o Tomaz desde 2019, e por isso escrevo este texto de um lugar diferente do de sempre. Não é a leitura de um treinador mental sobre um atleta distante: é a leitura de dentro. E a primeira coisa que preciso dizer é a que mais resume o que vivemos: nós não vamos às competições para tentar vencer. Nós vencemos antes de chegar nas competições. O que aconteceu na pista foi consequência, não causa. Abaixo, os pilares que sustentaram essa consequência.
1. A vitória construída antes da pista
O erro mais comum de quem observa o esporte de fora é achar que a decisão acontece na final. Não acontece. A final apenas revela o que foi construído em silêncio, dia após dia, por anos. Quando digo que vencemos antes de chegar, não é frase de efeito: é uma descrição técnica de como a performance de alto nível funciona.
O atleta que entra na pista precisando vencer carrega um peso que atrapalha. O atleta que entra tendo já feito tudo o que dependia dele (cada repetição, cada ajuste, cada conversa difícil fora de pista) entra livre. A liberdade não vem de relaxar; vem de saber que o trabalho já está feito. Doze finais seguidas construíram no Tomaz exatamente essa base: a certeza tranquila de quem não deixou nada para a sorte resolver.
2. Controlar o controlável numa modalidade de mil variáveis
Poucas modalidades têm tantos detalhes externos capazes de interferir no resultado quanto esta. Não é só o ginete: é o cavalo, o dia, a pista, o julgamento, o clima, o comportamento de um animal que também sente pressão. O competidor que tenta controlar tudo isso enlouquece. O que vence aprende a separar o que está sob seu domínio do que não está, e a investir 100% da energia apenas na primeira coluna.

Esse é um trabalho mental de anos, não de véspera. Consiste em treinar a atenção para voltar, repetidamente, ao que se pode fazer agora: a postura, a respiração, a mão na rédea, a conexão com o animal. Tudo o que foge disso é ruído. Numa prova em que 106 conjuntos disputavam a decisão e qualquer detalhe separa o ouro do esquecimento, saber onde colocar o foco não é vantagem: é pré-requisito.
3. Inteligência emocional sob o peso do palco
Chegar à final do Freio de Ouro coloca o atleta num grupo minúsculo, algo como uma pessoa a cada dezenas de milhões. Estar entre os melhores do mundo numa modalidade traz uma pressão que a maioria nunca experimenta: a de ter muito a perder e uma única passagem para acertar.
Inteligência emocional, aqui, não é ausência de nervosismo. É a capacidade de sentir a adrenalina e não ser governado por ela. É transformar o frio na barriga em atenção afiada em vez de tremor. O Tomaz não entrou na pista sem emoção, entrou sabendo domar a própria emoção, usando-a como combustível e não como freio. Essa regulação fina, quase invisível para a plateia, é o que separa quem repete o melhor treino na hora certa de quem trava justamente quando mais treinou para não travar.
4. Confiança que nasce da evidência, não do desejo
Existe uma diferença enorme entre torcer para vencer e confiar que se pode vencer. A primeira é desejo; a segunda é evidência. Aqui não basta sonhar, pedir ou visualizar o pódio: é preciso empenho total, estratégia e trabalho duro que sustentem a confiança com fatos.

A confiança do Tomaz nesta edição não foi otimismo vazio. Ela estava apoiada em provas concretas: as duas Pratas, a Alpaca, os títulos no exterior, as onze finais anteriores que ensinaram o corpo e a cabeça a operar sob aquela pressão específica, e claro, todas as “derrotas” que também já passamos. Cada uma dessas experiências foi, à sua maneira, um “ouro fora de pista”, porque para chegar ao ouro no grande palco, muitos outros ouros precisam ser vencidos longe dos holofotes. A final de sábado foi a soma visível de anos de vitórias invisíveis.
A construção de uma parceria
Nenhum título dessa magnitude é obra de uma pessoa só. São anos de preparo diário, de conversas que ninguém vê, de ajustes feitos em dias de derrota e em dias de dúvida. O trabalho mental de alto rendimento é assim: pouco glamouroso, repetitivo, feito na base da consistência quando a motivação não aparece. Foi essa rotina, e não um lampejo de inspiração no sábado, que colocou o Tomaz no lugar mais alto do pódio.

O que esperar do próximo ciclo
O Freio de Ouro que faltava agora veio. E, como todo grande título, ele não fecha uma história: abre outra. No instante em que o Freio de Ouro foi conquistado, um novo ciclo começou. Não existe garantia no esporte, e seria leviano cravar o que vem pela frente numa modalidade tão cheia de variáveis. Mas há uma coisa que a trajetória do Tomaz já provou e que nenhum resultado futuro apaga: ele sabe construir vitória antes de ela aparecer. Enquanto essa lógica continuar sendo o método, e não a sorte, o próximo ciclo começa com a mesma base que sustentou este. Parabéns, Tomaz, pelo maior título da sua carreira. O trabalho de fora de pista já recomeçou.
Leia também: Freio de Ouro 2026: Oferenda da Tamanca e Leon Salvaje são campeões, com o resultado completo da final na Expointer.
Perguntas frequentes
Quem venceu o Freio de Ouro 2026 na categoria dos machos?
Tomaz Gonçalves, conduzindo Leon Salvaje, com 21,265 pontos. A final foi no sábado, 5 de setembro, na 49ª Expointer, em Esteio. É o maior título da carreira dele.
Quantas vezes Tomaz Gonçalves chegou à final do Freio de Ouro?
Foi a 12ª temporada seguida em que ele chegou à final, e a primeira em que desceu do palco com o ouro. Antes vieram dois Freios de Prata, um Freio de Alpaca e títulos na Argentina e no Uruguai.
O que significa “vencer antes de chegar na competição”?
Significa que a decisão não acontece na final: a final apenas revela o que foi construído em silêncio, dia após dia, por anos. O atleta que entra já tendo feito tudo o que dependia dele entra livre, porque não deixou nada para a sorte resolver.
Como o atleta lida com as variáveis que não controla?
Separando o que está sob o domínio dele do que não está, e investindo 100% da energia só na primeira coluna. Na prática, é treinar a atenção para voltar ao que se pode fazer agora: a postura, a respiração, a mão na rédea, a conexão com o animal. O resto é ruído.
Inteligência emocional na competição é não sentir nervosismo?
Não. É sentir a adrenalina e não ser governado por ela, transformando o frio na barriga em atenção afiada em vez de tremor. Essa regulação fina é o que separa quem repete o melhor treino na hora certa de quem trava.
Qual a diferença entre querer vencer e confiar que pode vencer?
A primeira é desejo, a segunda é evidência. Confiança de verdade se apoia em provas concretas acumuladas ao longo dos anos, não em otimismo vazio nem em visualizar o pódio.
Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.
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