Por 147 anos, um juiz de linha vestido a rigor cantou cada bola dentro ou fora nas quadras de grama mais famosas do mundo. Em 2025, esse personagem saiu de cena. Wimbledon, o torneio que cultiva a tradição como poucos no esporte, passou a confiar exclusivamente em câmeras e inteligência artificial para decidir cada ponto.
Não foi um detalhe técnico. Foi uma mudança cultural que dividiu o vestiário, gerou polêmica em quadra e, ao mesmo tempo, colocou o tênis na vanguarda do uso de tecnologia no esporte de alto rendimento.
O fim de uma tradição de quase um século e meio
Cerca de 300 juízes de linha, profissionais treinados para acompanhar o jogo a olho nu, deixaram de atuar. No lugar deles, o sistema de chamada eletrônica da Hawk-Eye assumiu todas as 18 quadras do complexo do All England Club.
Wimbledon foi o último dos torneios de elite a resistir à automação completa. O US Open e o Australian Open já haviam abandonado os juízes de linha. Com a decisão de 2025, a chamada eletrônica deixou de ser exceção e virou padrão no circuito profissional.

Como funciona a tecnologia que erra menos de 5 milímetros
A Hawk-Eye não é novidade absoluta em Wimbledon: ela estreou no torneio em 2007, ainda como recurso de revisão. O salto de 2025 foi entregar a ela a decisão em tempo real, sem juiz humano no circuito.
O sistema usa cerca de 18 câmeras de alta velocidade por quadra, capturando a trajetória da bola a 340 quadros por segundo. A partir desses dados, algoritmos reconstroem em três dimensões o ponto exato em que a bola toca o gramado e cantam o veredito em pouco mais de um segundo.
A margem de erro é mínima. A Hawk-Eye trabalha com precisão de 2,6 a 5 milímetros e passou nos testes da Federação Internacional de Tênis (ITF), que exigem erro inferior a 5 milímetros. É uma precisão que o olho humano, mesmo o mais treinado, não consegue garantir num saque que cruza a quadra a mais de 200 km/h.
A reação dividida dos jogadores
A precisão não significou unanimidade. O número 1 do mundo, Jannik Sinner, defendeu o sistema, destacando a clareza das decisões em saques rápidos na grama, onde a margem para erro humano sempre foi maior.
Outros desconfiaram. O britânico Jack Draper questionou a exatidão após uma bola apertada: “Não tem como o giz mostrar isso. Acho que não dá pra ser 100% preciso, é questão de milímetros.” Emma Raducanu também reclamou de uma marcação que considerou errada: “Aquela bola estava claramente fora”, disse, lamentando que “as marcações possam estar tão erradas”.
Houve ainda quem sentisse falta da energia humana. A chinesa Yuan Yue comentou que as chamadas automáticas eram baixas demais e tiravam emoção do jogo: “Fica silencioso demais.” A polêmica expôs um ponto que vai além da tecnologia: o que o esporte ganha em exatidão e o que perde em teatro.

A inteligência artificial também chegou à arquibancada
A IA em Wimbledon não para na linha de fundo. Parceira de tecnologia do torneio há décadas, a IBM captura cerca de 2,7 milhões de dados a cada edição: cada saque, cada rali, cada padrão vira matéria-prima para alimentar recursos voltados ao torcedor.
Sobre a plataforma watsonx, a empresa desenvolveu o Match Chat, um assistente que responde em linguagem natural a perguntas sobre a partida em andamento, com texto, foto e vídeo. Há também o Likelihood to Win, que calcula ao vivo a probabilidade de vitória de cada jogador, e o Key Moments, que aponta quais jogadas mudaram o rumo do confronto e por quê.

Para o atleta e a comissão técnica, esse volume de dados tem valor que ultrapassa o entretenimento. A mesma base que gera a estatística da transmissão alimenta a análise de desempenho: padrões de saque, eficiência em pontos longos, comportamento sob pressão. É informação que, bem lida, vira plano de jogo.
O que isso ensina sobre alta performance
A virada de Wimbledon carrega uma lição que vale para qualquer atleta, de qualquer modalidade: dados precisos eliminam a discussão e devolvem energia para o que importa, a execução.
Quando a marcação é indiscutível, o jogador para de gastar energia emocional reclamando da arbitragem e passa a focar no próximo ponto. A tecnologia, nesse sentido, não é inimiga do esporte; é uma ferramenta que tira o ruído e expõe a verdade do desempenho.
O atleta de alto rendimento que entende isso sai na frente. Medir com precisão, aceitar o retorno objetivo e ajustar rápido é o ciclo que separa quem evolui de quem fica preso na sensação. Wimbledon levou 147 anos para abraçar essa lógica em quadra. No treino, ela já está disponível para quem quiser usar.
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