Numa noite de novembro de 2023, às 11 da noite, um médico explicava a Melquisedeque Messias Ribeiro que ia precisar colocar um pino na cabeça do fêmur dele. Uma moto o tinha atropelado horas antes: trauma no acetábulo, ligamento, menisco e colateral medial comprometidos. Quando o atleta respondeu que queria voltar a treinar na semana seguinte, porque tinha a São Silvestre pela frente, o médico riu. “Se você voltar a andar, será por um milagre.”
Dois anos e sete meses depois, em 7 de junho de 2026, o mesmo homem cruzou a linha de chegada da Maratona do Rio em 2h16min48s, melhor brasileiro da prova e décimo colocado na geral. Melki Messias contou essa história em detalhe no episódio mais recente do No Topo Podcast, em conversa com Nicholas Pasqualetto.
Nove anos de idade, um isopor de picolé e um par de tênis
Melki é de Itapira, interior de São Paulo, cidade de 80 mil habitantes conhecida por ser a terra de Bellini, o capitão que ergueu a taça em 1958. Família humilde, quatro irmãos, pais separados.
Começou a trabalhar aos 9 anos: vendia sonho na caixa de isopor, picolé na rua, entregava folheto. “A gente sempre fazia um biquinho ou outro ali para poder ajudar em casa.”
Entrou na corrida aos 13, e não por vocação: havia um par de tênis como prêmio. Venceu as três etapas e levou o prêmio para casa. O treinador da época viu predisposição para longas distâncias e ofereceu um arranjo: um emprego que permitisse estudar, trabalhar e treinar. Virou office boy num escritório de contabilidade, entregando holerite de bicicleta pelas empresas da cidade.
Foi pedalando entre clientes que ele construiu, sem saber, a rede de contatos que viraria o primeiro patrocínio.
O banner de R$ 50 que já era um método de patrocínio
Sem estrutura e sem marca grande por perto, Melki inventou uma contrapartida antes de saber que aquilo tinha nome. Mandava fazer um banner com o logo da empresa local e propunha um acordo direto: se subisse ao pódio na corrida da cidade vizinha, levava o banner e exibia a marca na foto.
A foto virava matéria de jornal regional. A matéria virava post no Facebook, porque Instagram ainda não existia. Os acordos valiam R$ 30, R$ 50.
“Para quem não tinha nada, tudo que vinha na época era lucro.”
É a lógica que o portal já destrinchou em contrapartidas de patrocínio: a marca não paga pelo atleta, paga pela exposição mensurável. Melki chegou nisso sozinho, adolescente, com um banner de lona. Hoje a lista de patrocinadores dele inclui Adidas, Cortag e Forcell.

2018: a morte do irmão e a decisão de virar profissional
Em 2018, Melki perdeu o irmão, Manassés. Era o parceiro de treino, o amigo mais próximo, quem tinha começado no atletismo junto com ele antes de seguir outro caminho.
A perda fechou a conta que ele vinha fazendo em silêncio. “Eu vi que o esporte me salvou direta e indiretamente.” Ele conta que, entre 2013 e 2015, andou com um grupo que hoje tem gente presa e gente morta. A corrida ocupou o horário e o corpo.
Ali virou propósito declarado: ser atleta profissional e usar isso para puxar outras pessoas. Conseguiu o índice para a elite em 2020, pegou a pandemia de frente e só estreou de fato em 2021.
A moto, o pino no fêmur e a segunda opinião
Setembro de 2023: primeira maratona internacional, em Buenos Aires. Terminou como melhor brasileiro, com 2h23. E voltou frustrado, porque tinha treinado para 2h20.
Novembro de 2023: o atropelamento. Morando sozinho, ele não avisou a família na hora para não dar alarde. Recusou a cirurgia porque entendeu que o pino encerraria a carreira, e foi atrás de uma segunda opinião. O ortopedista que o acompanha até hoje propôs tratamento não invasivo, com uma condição: o dobro de disciplina.
O protocolo incluiu estímulo neural cruzado, fortalecendo a perna sadia para gerar resposta na lesionada. Dois meses depois, ele concluiu a São Silvestre.
O que sobrou daquele período não foi a lesão, foi a régua. De muletas, levando dez minutos para ir do quarto até a cozinha, ele redefiniu o que contava como vitória. “Meu sonho era voltar a correr a 5 por 1000, 6 por 1000, não importa.”
Daí saiu a filosofia que ele repete: comece, continue e comemore.
2h16min48s no Rio, com a segunda metade mais rápida que a primeira
O recorde pessoal anterior era 2h19min02s, na Maratona Internacional de São Paulo. No Rio, ele tirou 2min14s disso.
E tirou do jeito mais difícil de fazer numa maratona: negativando a prova. Primeira metade em 1h08min39s, segunda em 1h08min09s. Quem quebra nos 42 km faz exatamente o inverso.
A estratégia central não foi de ritmo, foi de hidratação. A equipe distribuiu carboidrato, eletrólitos e sais minerais ao longo do percurso pensando na umidade alta do Rio. “Eu também aprendi que você quebra mais por desidratação do que por falta de treino.”

Em 12 de julho, ele voltou aos 42 km na NB 42K Porto Alegre, a prova que registrou as marcas mais rápidas já feitas em solo brasileiro. Debaixo de chuva forte, com tênis inadequado para o piso molhado e desconforto lombar desde o km 10, refez o plano no meio da corrida e fechou em 2h19min48s: 15º na geral, quinto melhor brasileiro.
Detalhe que dá a dimensão do momento: Eliud Kipchoge correu a mesma prova e terminou em 12º, com 2h18min42s. Melki cruzou a linha 66 segundos depois do maior maratonista da história, e tinha posado ao lado dele dias antes.
“Hoje aprendemos um pouquinho com ele, sobre acreditar em si mesmo, não desistir do que almejamos”, escreveu Melki sobre o encontro com o queniano. O post é o mais curtido do perfil dele nas últimas semanas.
“Só os covardes não quebram”
A frase é dele e resume a tese. “Os covardes têm medo de tentar e sempre vão ter os mesmos resultados, por isso não evoluem. Os ousados quebram.”
Melki anuncia a prova, anuncia o objetivo e assume o risco de não entregar em público. São 366 mil seguidores no Instagram acompanhando isso, com publicações que passam de 20 mil curtidas.
O que o coloca no meio de uma discussão antiga: atleta de alto rendimento pode ser garoto propaganda? Ele responde sem rodeio que sim, e aponta o futebol, onde ninguém estranha o ídolo fazendo publicidade fora de campo.
Também não espera convite de emissora. “Eu não tenho a Rede Globo, não tenho a emissora de TV aqui perto. Vou começar com o que eu tenho”, diz, apontando o celular. Na Maratona do Rio, ele e a noiva chegaram a produzir publicações para outros atletas da elite que tinham feito grandes resultados e não tinham divulgado nada.
Sobre críticas, a resposta é curta: “O hate fala mais dos sentimentos dele do que dos meus resultados.”

O que a marca compra: o resultado ou a construção?
Perguntado se patrocinador compra resultado ou história, Melki foi direto: as marcas querem o resultado, mas querem principalmente ver como você chegou nele.
O raciocínio dele é comercial, não sentimental. “Os amadores são os maiores consumidores. A elite é 1%.” Se ele só publicar o pódio, fica distante justamente de quem compra tênis, inscrição e gel.
É o mesmo critério que o portal mapeou em o que as marcas realmente procuram num atleta patrocinado: audiência engajada e coerência de narrativa pesam mais do que o número bruto de seguidores. Foi em 2025, ano em que ele diz ter feito suas melhores marcas e crescido nas redes, que a Adidas entrou. A marca alemã aparece hoje no topo da bio dele, e o uniforme com as três listras virou parte da imagem que o público reconhece na prova.
O que isso ensina sobre alta performance
Horizonte longo é vantagem competitiva. Foram 17 anos entre o primeiro par de tênis e a transição para atleta profissional. A maior parte das desistências acontece em meses.
Dor de treino e dor de lesão são coisas diferentes. Ele fez 15 maratonas e abandonou uma, justamente a que veio logo depois do acidente. Saber separar as duas é autoconhecimento, não bravura.
A prova se perde na logística, não só na perna. O recorde do Rio saiu de um plano de hidratação bem distribuído, e Porto Alegre cobrou caro por uma escolha errada de tênis. Vale a pena estudar os tipos de treino de corrida, mas a prova também se ganha na mesa de planejamento.
Decisão pesa mais que condição. É a frase que ele carrega: não são as condições, são as decisões que determinam o destino final.
Perguntado sobre o que significa chegar ao topo, Melki não citou tempo nem pódio. “O topo é onde eu estou agora.”
O lema que ele repete cabe em três negativas: sem pressa, sem pausa e sem comparações.
O episódio completo está no canal do No Topo Podcast, que já recebeu outros nomes da alta performance brasileira, como a esgrimista Bia Bulcão.
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