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Hayabusa de quase 1.000 cv vence no Velopark após empate no milésimo

Moto de arrancada Suzuki Hayabusa turbo de Murilo Gomes vista de perfil, com balança traseira alongada e turbina aparente

Na final da categoria Drag Bike da 1ª etapa da Copa FT BR Sport de Arrancada, no Autódromo FuelTech Velopark, aconteceu o que praticamente não acontece: as duas luzes verdes de vitória acenderam ao mesmo tempo. Murilo Gomes e Lucas Simas cravaram exatamente a mesma combinação de tempo de reação e tempo de pista, no milésimo. Não houve vencedor na tela.

A decisão saiu do regulamento. Na arrancada não existe empate, e o critério de desempate é o menor tempo de reação. Murilo Gomes levou a vitória por ter reagido mais rápido à árvore de largada, em cima de uma moto que passou o fim de semana inteiro ameaçando derrubá-lo.

As duas luzes verdes que acenderam juntas

A final foi montada do jeito que a arquibancada gosta. De um lado, Murilo Gomes, que havia classificado em primeiro. Do outro, Lucas Simas, que tinha acabado de bater o recorde da categoria durante as eliminatórias, e não na classificatória, como costuma acontecer.

Eram dois projetos opostos de moto. A de Murilo, com chassi rígido. A de Simas, com balança alongada. As duas passaram lado a lado e cruzaram a linha empatadas.

“Uma moto foi mais rápida na pista, o outro foi mais rápido na reação”, resumiu Luis de Leon, da FuelTech, no vídeo em que a dupla revisita a corrida. Segundo ele, o nível da categoria estava tão parelho que as quatro motos que chegaram às semifinais viraram na casa dos 4,6 segundos.

Sem saber quem havia vencido, as equipes recorreram à federação para conferir o critério. A resposta foi a reação. Enquanto isso, na arquibancada já quase vazia, um espectador gritava o resultado antes da confirmação oficial.

Hayabusa de arrancada com central FuelTech FT700PLUS e carenagem laranja e preta no FT Garage

A moto de arrancada que tem documento e quase 1.000 cv

A máquina que venceu é uma Suzuki Hayabusa modificada que, apesar de tudo que carrega, continua documentada e roda na rua. Segundo a equipe, a potência chega perto dos 1.000 cv sem alcançar a marca, número que é estimativa dos preparadores e não medição oficial de dinamômetro.

O detalhe que chamou atenção internacional foi outro. A moto roda com uma central FuelTech FT700PLUS, unidade grande, pensada para carros de competição. A própria FuelTech afirma que essa pode ser a primeira moto de competição do mundo com uma FT700 instalada, ressalva incluída, já que não existe registro centralizado disso.

A instalação virou assunto entre pilotos estrangeiros. Murilo conta ter recebido uma enxurrada de comentários em inglês perguntando como a central coube na carenagem, e acabou enviando fotos do esquema para equipes nos Estados Unidos.

O improviso foi ainda maior do que parece. A moto estreou na etapa anterior, em São Paulo, com uma FT600 que já estava validada e com mapas herdados de outra moto da equipe. Na sexta-feira à noite, sem treino programado, trocaram a única peça confiável do conjunto pela FT700PLUS e fizeram tudo funcionar em cerca de meia hora.

Ficha técnica da Hayabusa de arrancada de Murilo Gomes

ItemEspecificação
BaseSuzuki Hayabusa 1.340 cm³, chassi modificado e documentada
PotênciaPerto de 1.000 cv, segundo a equipe
GerenciamentoFuelTech FT700PLUS
Injeção4 FT Injector de 240 lbs (a moto nasce com 8 bicos)
CombustívelMetanol, com bomba mecânica Indutech
IgniçãoFuelTech Spark
Turbina na 1ª etapaUnidade de linha agrícola, de trator
Balança traseiraDME Racing, alongada, em alumínio
Câmbio6 marchas com air shifter pneumático comandado por RPM pela central

A turbina merece parágrafo próprio. A peça usada na conquista era de linha agrícola, do tipo empregado em trator, escolhida por caber no orçamento do fim do projeto. Ela chamou a atenção de um dos donos da Precision Turbo, dos Estados Unidos, que viu a moto andar na etapa paulista. O resultado foi uma parceria fechada para equipar as motos da equipe com turbinas da marca.

Detalhe da balança traseira DME de alumínio da Hayabusa de arrancada, com corrente, cilindro de CO2 e amortecedor

A shimada a 220 km/h que quase encerrou o fim de semana

O fim de semana começou errado logo na primeira descida do trailer. A moto cruzou a faixa inteira e quase invadiu a raia vizinha. Dali em diante, ela passou a puxar para a direita em toda passada, independentemente do ajuste.

Na sexta-feira à noite veio o pior momento. A moto entrou em shimada, nome dado no meio à ressonância violenta do guidão, a mais de 220 km/h. O episódio danificou parte elétrica e comprometeu a estrutura.

No dia seguinte, aconteceu de novo, e muito pior. Os sensores de aceleração da própria central registraram mais de 5G, alternando entre positivo e negativo, da esquerda para a direita, por mais de cinco segundos com a moto desgovernada.

“Foi a coisa mais perigosa que já aconteceu comigo em cima de uma moto. Nesse momento eu realmente entendi que dava para se machucar feio”, disse Murilo Gomes.

A solução encontrada não foi elegante. Como a moto insistia em fazer uma curva para a direita ao longo dos 201 metros, a equipe passou a alinhá-la apontada para a esquerda na largada, deixando que ela descrevesse uma parábola e terminasse dentro da própria raia. Na prática, o piloto mirava no muro para andar reto, e percorria mais metros do que os 201 oficiais.

Na final, o problema virou questão de segurança. Murilo pediu a Lucas Simas para largar na faixa da esquerda, temendo cruzar na frente do adversário. Simas tinha o melhor tempo e, portanto, a prioridade de escolha pelo regulamento. Ficou com a esquerda. Murilo largou na direita, na raia em que tinha menos referência.

Dois homens, 1.800 km e nenhuma noite de sono

A equipe de Murilo costuma viajar com quatro pessoas, cada uma com função definida. Nessa corrida foram dois. O único mecânico de formação do grupo não pôde ir, e o segundo homem mais versátil também ficou.

Murilo e Richarlson saíram de Marília, no interior de São Paulo, na quarta-feira à noite e cobriram cerca de 1.800 km até Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul, sem dormir. Depois da noite de trabalho para tentar corrigir a moto, foram deitar às três da manhã e precisavam estar na pista às sete.

O acúmulo cobrou preço. “Isso derruba a autoestima do piloto e a confiança dele”, disse Murilo, que descreve ter ido para a pista no sábado com medo do que a moto faria.

A preocupação chegou em casa. Acompanhando os relatos nas redes sociais, o pai do piloto mandou mensagens pedindo que ele não forçasse a barra e deixasse para outra corrida. Murilo respondeu que a moto estava acertada e andando reta, o que não era verdade naquele momento.

Sem a quinta marcha, a decisão de subir o limitador

Os problemas mecânicos se acumularam em cascata ao longo das eliminatórias. Na semifinal, a moto perdeu a quinta marcha e cruzou a linha de chegada no limitador da quarta. Das seis marchas disponíveis, foram usadas quatro.

Sem tempo para desmontar e revisar o câmbio entre a semifinal e a final, a equipe tomou a decisão que definiu a corrida: subir o ponto de corte da quarta marcha, de 11.200 para 11.700 rpm, aceitando o risco.

A lista de avarias até a final ainda incluiu queda de pressão do CO2, embreagem patinando e a tampa da válvula de alívio do escapamento, que se soltou. Ao remontar a peça, a equipe descobriu que a rosca do parafuso estava espanada. O parafuso original, de 6 mm, já havia sido substituído por um de 1/4 de polegada em algum reparo anterior. Não havia mais medida acima para recorrer, e a solução foi improvisada na hora.

“A moto mostra no corpo dela a cicatriz da guerra”, disse Murilo, comparando o estado do conjunto ao de aviões que voltavam metralhados da guerra. A avaliação da equipe foi de que seria necessário desmontar mais da metade da moto para reconstruí-la.

15 motos no grid: a categoria que cresceu

O contexto competitivo explica parte da emoção. A organização trabalhava com a expectativa de 12 motos inscritas na etapa. O número chegou a 15.

“Que categoria hoje de carro tem 15 automóveis?”, questionou Luis de Leon, que participa da organização do autódromo. Com o grid nesse tamanho e a diferença técnica entre projetos, ele avalia que a categoria já está no ponto de ser dividida entre motos sobrealimentadas e aspiradas, já que uma moto aspirada dificilmente compete de igual para igual.

A 1ª etapa da Copa FT BR Sport de Arrancada foi disputada de 10 a 12 de abril de 2026 e reuniu 167 pilotos do Brasil e da Argentina, com público estimado em 10 mil pessoas e 14 recordes de tempo quebrados, segundo a organização. O campeonato tem 33 categorias e distribuiu R$ 300 mil em peças e acessórios na abertura da temporada.

O crescimento seguiu ao longo do ano. A 3ª etapa da competição teve 13 recordes só no sábado e fechou com 32 recordes em três dias. A próxima etapa está marcada para 11 a 13 de setembro.

O que vem pela frente: turbina nova e a meta dos 4,4s

O recorde da Drag Bike no Autódromo FuelTech Velopark pertence hoje a Fernando Boiani, com 4,599s, de acordo com a página oficial de recordes do autódromo.

Murilo Gomes projeta chegar lá e passar. Na etapa paulista anterior, ele havia registrado 4,695s, marca que a equipe considera recorde para uma moto sem wheelie bar e com pneu redondo, configuração menos favorável que a das dragsters puras. No Velopark, baixou cerca de 70 milésimos.

Com a turbina Precision no lugar da unidade agrícola, a admissão redesenhada e o chassi corrigido, a expectativa da equipe é entrar na casa dos 4,5s na sequência. Pressionado ao fim da conversa, o piloto assumiu publicamente a meta de virar 4,4s ainda em 2026 e se comprometeu a disputar todas as corridas de moto do calendário.

Há ainda uma ideia em estudo que mudaria o espetáculo: colocar uma moto dessas para correr contra um carro da categoria Super Livre, aproveitando que as parciais são diferentes. O carro salta na frente, e a moto vem buscando no fim da pista.

O que a moto de arrancada ensina sobre alta performance

A vitória de Murilo Gomes não veio da máquina em melhor estado. Veio da máquina em pior estado que ainda assim foi colocada na pista com uma decisão de risco calculada.

Três pontos se destacam para quem compete em qualquer modalidade.

Confiança é um recurso técnico, não um detalhe emocional. O piloto foi explícito ao dizer que a shimada abalou sua confiança e que isso comprometeu o desempenho. Só quando a moto deu a primeira passada reta ele voltou a competir para vencer, e não apenas para participar.

Margem some quando a equipe encolhe. Metade do time, incluindo o único mecânico de formação, não pôde ir. O resultado foi noite virada, decisão apressada e improviso. A equipe venceu apesar disso, não por causa disso.

Decidir rápido com informação incompleta vale mais que decidir certo tarde demais. Sem tempo de revisar o câmbio, subir o limitador da quarta marcha era a única jogada disponível. Foi ela que ganhou a corrida.

Para entender as regras, as categorias e o funcionamento da modalidade, vale ler o guia completo sobre corrida de arrancada e conferir onde assistir à Copa FT BR de Arrancada de graça.

Perguntas frequentes

O que é uma shimada na moto?

Shimada é o nome dado no meio da arrancada à ressonância violenta do guidão em alta velocidade, quando a direção começa a oscilar rapidamente de um lado para o outro. No caso da Hayabusa de Murilo Gomes, os sensores registraram mais de 5G por mais de cinco segundos, a mais de 220 km/h.

Quem venceu a Drag Bike na 1ª etapa da Copa FT BR Sport de Arrancada 2026?

Murilo Gomes venceu a categoria Drag Bike na 1ª etapa, disputada de 10 a 12 de abril de 2026 no Autódromo FuelTech Velopark, em Nova Santa Rita (RS).

Como se desempata uma corrida de arrancada?

Não existe empate na arrancada. Quando os competidores registram a mesma combinação de tempo de reação e tempo de pista, o regulamento define o vencedor pelo menor tempo de reação à árvore de largada.

Quantos metros tem a pista da Copa FT BR Sport de Arrancada?

As disputas são realizadas em 201 metros, distância padrão da competição no Autódromo FuelTech Velopark.

Qual é o recorde da categoria Drag Bike no Autódromo FuelTech Velopark?

Segundo a página oficial de recordes do autódromo, o recorde da Drag Bike pertence a Fernando Boiani, com 4,599s.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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