O sábado da 3ª etapa da Copa FT BR Sport de Arrancada terminou com uma conta rara no automobilismo brasileiro: 13 recordes de categoria batidos em pouco mais de dez horas de pista, no Autódromo FuelTech Velopark, em Nova Santa Rita, no Rio Grande do Sul.
E terminou antes da hora. A chuva chegou no fim da noite e obrigou a direção de prova a encerrar o dia com a quinta e última bateria classificatória ainda pela metade, parada na categoria Força Livre Dianteira.
A chuva encerrou o sábado na última classificatória
A organização anunciou o encerramento na própria transmissão, no fim da noite de sábado. A prova estava na quinta e última bateria classificatória quando as condições climáticas inviabilizaram a continuidade.
O ajuste ficou restrito ao fim do dia. No domingo, a partir das 9h, a quinta classificatória recomeça exatamente de onde parou, na Força Livre Dianteira, e segue até o fim das categorias. Na sequência entram as eliminatórias, o mata-a-mata que define os campeões e que já estava previsto para o domingo desde o cronograma original.
A regra que orientou a decisão tinha sido combinada com os pilotos antes, e foi repetida duas vezes ao longo do dia: em caso de adversidade climática ou de pista, a bateria encerra exatamente onde parou, sem refazer o que já foi corrido. É uma cláusula que existe justamente para evitar que uma tarde inteira de trabalho de equipe seja anulada por um imprevisto de meia hora.
Vale o registro de que o sábado não foi um dia perdido. Pelo contrário: foi o dia mais produtivo da etapa. O tempo esteve bom durante toda a jornada, o público lotou os boxes e a chuva cortou apenas o finalzinho da programação.

Os 13 recordes do sábado
Todos os tempos abaixo são referentes aos 201 metros, a distância padrão da corrida de arrancada, e foram divulgados oficialmente pelo autódromo ao longo do dia.
| Piloto | Categoria | Tempo | Velocidade |
|---|---|---|---|
| Fernando Bortolan | Dianteira Turbo B Light | 6,668s | 196 km/h |
| Odivan Basso | Traseira Turbo B | 4,867s | 244 km/h |
| Rafinha | Drag Bike Light | 5,176s | 216 km/h |
| Niutom Junior | 4×4 | 4,770s | 223 km/h |
| Aristeu da Veiga Junior | Pro Mod | 3,611s | 336 km/h |
| Marcelo Zimmermann | Super Livre 6.9 | 6,904s | 177 km/h |
| Lucival Roulin | Super Livre 6.9 | 6,900s | 162 km/h |
| Emerson Schnaider | Traseira Street Turbo | 5,295s | 219 km/h |
| Vilson Ferreira | Street Tração Traseira | 6,681s | 171 km/h |
| Dirceu Junior | Drag Bike Light | 5,117s | 222 km/h |
| Adriano Weiss | Drag Junior 11 | 11,094s | 97 km/h |
| Emerson Schnaider | Traseira Street Turbo | 5,254s | 219 km/h |
| Vilson Ferreira | Street Tração Traseira | 6,645s | 171 km/h |
Há um detalhe de regulamento que ajuda a explicar por que tanta marca caiu em um dia só. No formato da Copa FT BR Sport, se o piloto queima a largada durante a classificatória, o tempo de pista continua valendo para a classificação e para o recorde. Só a largada é invalidada. Isso libera o piloto para atacar o cronômetro sem o medo de perder a passada inteira por um erro de milésimos na árvore de luzes.
Aristeu da Veiga Junior derrubou a Pro Mod duas vezes em dois dias
A Pro Mod é a categoria mais extrema da arrancada, com carros que passam dos 300 km/h nos 201 metros. E foi lá que aconteceu a sequência mais impressionante do fim de semana.
Aristeu da Veiga Junior, de São Paulo, chegou à etapa como recordista da categoria, com 3,670s. Na sexta-feira, baixou para 3,647s a 336 km/h. No sábado, baixou de novo, para 3,611s, na mesma velocidade. Em dois dias, o piloto tirou quase seis centésimos do próprio recorde, o que na Pro Mod é uma eternidade.
O momento de maior reação do público, no entanto, não foi um recorde. Sidney Frigo, conhecido no meio como “o grandão” e um dos nomes históricos da modalidade, voltou a correr no Rio Grande do Sul depois de cerca de dez anos afastado, pela equipe Arte Vinco Racing. Na mesma dupla contra Aristeu, cravou 3,621s a 339 km/h, a apenas dez milésimos do recorde que o rival havia acabado de estabelecer, e com a maior velocidade final registrada na categoria naquele dia. A narração oficial registrou que a passada rendeu mais aplausos da arquibancada do que um recorde.
A sexta-feira já havia dado um sinal do nível técnico da etapa: Israel Fontanella estreou uma nova configuração do carro conhecido como Goliath, agora com Harts Charger, e marcou 3,746s a 327 km/h logo na primeira prova.

O recorde que ninguém mais vai poder bater
O caso mais curioso do sábado aconteceu na Super Livre 6.9, uma categoria de índice. Nela existe um piso: 6,900s. Quem cruza a linha abaixo desse tempo perde a passada, porque o objetivo não é ser o mais rápido possível, e sim chegar o mais perto possível do limite sem ultrapassá-lo.
Às 16h07, Marcelo Zimmermann baixou o recorde para 6,904s a 177 km/h. Ficou com a marca por nove minutos. Às 16h16, Lucival Roulin cravou exatamente 6,900s, o piso da categoria.
Não existe tempo menor válido na Super Livre 6.9. O recorde de Roulin é, por definição do regulamento, imbatível. No máximo pode ser igualado.
Dois pilotos bateram o próprio recorde duas vezes no mesmo dia
Emerson Schnaider, de Curitiba, derrubou o recorde da Traseira Street Turbo às 16h37, com 5,295s. Voltou à pista à noite e baixou de novo, para 5,254s a 219 km/h.
Vilson Ferreira, também de Curitiba, fez exatamente o mesmo movimento na Street Tração Traseira: 6,681s no fim da tarde e 6,645s à noite, ambas as passadas a 171 km/h.
A coincidência não é coincidência. É física de pista, e foi antecipada ao vivo pela narração horas antes de acontecer. Conforme o dia esfria, a temperatura do asfalto cai, o pneu encontra mais aderência e o motor recebe ar mais denso. As melhores marcas da arrancada saem quase sempre no fim do dia, e as equipes planejam o acerto do carro em função disso. Quem guarda a melhor configuração para a última bateria costuma ser recompensado.
Foi também no fim do dia que caiu o recorde da Drag Junior 11, a categoria das crianças, com Adriano Weiss marcando 11,094s a 97 km/h.
A Drag Bike Light trocou de dono em cinco horas
Nas motos, o sábado teve a disputa mais direta da etapa. Às 13h22, o piloto identificado pela organização como Rafinha assumiu o recorde da Drag Bike Light com 5,176s a 216 km/h.
O recorde durou cinco horas. Às 18h21, Dirceu Junior cravou 5,117s a 222 km/h e tomou a marca para si.
Outra categoria que mudou de patamar foi a 4×4. Niutom Junior, dono do Audi TTRS conhecido como Bandido, pela NJ Racing Team, marcou 4,770s a 223 km/h. Ele já era o recordista da categoria e vinha perseguindo a barreira dos 4 segundos. A progressão da 4×4 na etapa foi acelerada: o argentino Alejandro Fabián, o “El Pájaro”, campeão do Armageddon, havia baixado a marca para 5,124s na sexta-feira antes de Niutom Junior tomá-la de volta no sábado.
Segundo a transmissão oficial, a Dianteira Turbo B também entrou pela primeira vez na casa dos 5 segundos no sábado, com Júlio Saquete, de Erechim, marcando 5,986s a 226 km/h na quarta bateria classificatória. O autódromo não publicou o card oficial dessa marca até a manhã deste domingo.
Uma etapa com inscrições esgotadas
A 3ª etapa entrou para a história da competição antes mesmo de começar. As inscrições para pilotos se esgotaram e reuniram mais de 200 competidores, o maior número já registrado na Copa FT BR Sport de Arrancada. A premiação da etapa passa de R$ 150 mil em produtos, peças e itens de marcas do setor.
A competição é disputada em cinco etapas ao longo de 2026. Depois desta, restam a 4ª etapa, de 11 a 13 de setembro, e a 5ª etapa somada ao Festival, de 3 a 6 de dezembro.
O que isso ensina sobre alta performance
A arrancada é o esporte que menos perdoa erro. São pouco mais de três segundos entre a largada e a linha de chegada nas categorias mais rápidas, sem tempo para corrigir nada. Um erro de milésimo na largada apaga meses de preparação da equipe.
E é justamente por isso que o sábado no Velopark ensina algo que vale muito além da pista: os melhores resultados não saíram do esforço maior, saíram da leitura correta da condição.
Schnaider e Vilson Ferreira não bateram o próprio recorde à noite porque tentaram mais forte na segunda vez. Bateram porque entenderam que a pista estaria mais rápida quando a temperatura caísse, e reservaram o melhor acerto do carro para aquele momento. Lucival Roulin não fez o tempo mais rápido que conseguia, fez o tempo exato que o regulamento premiava.
O atleta que treina sem ler a própria condição gasta a melhor energia na hora errada. O que aprende a identificar a janela certa, seja a temperatura da pista, o pico de recuperação ou a fase da periodização, extrai mais do mesmo esforço. Performance de ponta é menos sobre intensidade e mais sobre timing.
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