ARTIGOS E NOTÍCIAS ATLETA PRO

Kelly Slater: os negócios do maior surfista da história

Kelly Slater de roupa de borracha na praia de Pipeline, no Havaí

Kelly Slater parou de disputar o circuito mundial em abril de 2024, aos 52 anos, mas nunca saiu do mercado. Fora d’água, o americano é sócio majoritário de uma fabricante de pranchas, cofundador de uma marca de roupas, dono da tecnologia de piscina de ondas usada em duas etapas do Championship Tour, sócio de um energético orgânico e, desde 30 de julho de 2026, um dos investidores de uma equipe da NASCAR. Os negócios de Kelly Slater somam pelo menos oito empresas ativas, todas de capital fechado.

A conta não fecha por acaso. Slater passou 23 anos como o rosto de uma marca que não era dele, saiu em 2014 e, nos dez anos seguintes, montou uma estrutura em que ele é dono do produto, da fábrica, da tecnologia e, em alguns casos, do próprio ponto de venda. É o caminho oposto ao do atleta que vive de contrato de imagem e descobre, aos 40, que o telefone parou de tocar.

Kelly Slater de roupa de borracha na praia de Pipeline, no Havai
Kelly Slater em Pipeline, no Havai. Foto: Anthony Quintano / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Do Quiksilver ao próprio nome: como Slater virou empresário

A virada tem data. Em 1º de abril de 2014, Slater encerrou uma parceria de 23 anos com a Quiksilver, que o havia contratado em 1990, quando ele tinha 18 anos. O contrato de cinco anos assinado em 2009 era estimado pela imprensa especializada em US$ 400 mil por ano, sem contar royalties da linha de roupas e bônus por resultado. A revista Stab chegou a estimar a receita total dele com patrocínio na casa de US$ 3,4 milhões anuais no auge, sempre em estimativa de imprensa, já que nenhum dos contratos foi divulgado.

Era muito dinheiro. E era, ainda assim, dinheiro de aluguel. Ao sair, Slater não procurou outra marca para vestir: procurou um sócio para construir a dele. Fechou com o grupo francês Kering, dono de Gucci e Saint Laurent, que entrou como investidor minoritário na empresa que viraria a Outerknown.

Antes disso, Slater já tinha experimentado licenciar o próprio nome. Em 2002, a Activision lançou o videogame Kelly Slater’s Pro Surfer, desenvolvido pela Treyarch para GameCube, PlayStation 2, Xbox e Game Boy Advance, com versão para PC em 2003. O jogo funcionou, mas ensinou uma lição de limite: quem fica com a maior parte do valor de um produto licenciado é quem detém o produto, não quem empresta o nome.

Os negócios de Kelly Slater hoje: o mapa das empresas

Hoje o portfólio se divide em três blocos: tecnologia de ondas, marcas de consumo e participações minoritárias. Este é o mapa do que está ativo em 2026.

EmpresaO que éPosição de SlaterDesde
Kelly Slater Wave CompanyTecnologia de piscina de ondas e o Surf RanchFundador e sócio2007
OuterknownRoupas sustentáveisCofundador2015
Firewire SurfboardsFábrica de pranchasAcionista majoritário2015
Slater DesignsLinha de pranchas dentro da FirewireAcionista majoritário2016
EndorfinsQuilhas de pranchaSócio (via holding)2016
KLLYCalçadosFundador2023
PurpsEnergético orgânicoCofundador2015
Legacy Motor ClubEquipe da NASCAR Cup SeriesSócio minoritário2026

Nenhuma dessas empresas tem capital aberto, e nenhuma publica balanço. Todo número de faturamento que circula na internet sobre elas é estimativa.

Kelly Slater Wave Company: a aposta de 20 anos

A tecnologia de ondas é o ativo mais valioso e o mais lento a maturar. Slater procurou Adam Fincham, pesquisador de dinâmica de fluidos da Universidade do Sul da Califórnia, em 2006, e fundou a Kelly Slater Wave Company no ano seguinte. O sistema não usa jatos nem barragens: um hidrofólio de cerca de 100 toneladas é puxado por um trilho de aproximadamente 640 metros e empurra a água contra um fundo desenhado para replicar uma onda de ponta.

O resultado apareceu em dezembro de 2015, quando Slater publicou o vídeo da primeira onda no Surf Ranch, em Lemoore, na Califórnia, a mais de 160 quilômetros do oceano mais próximo. A obra custou cerca de US$ 30 milhões. Em maio de 2016, a World Surf League comprou participação majoritária na empresa. O Surf Ranch recebeu o Founders Cup em 2018 e virou etapa do circuito mundial em 2018, 2019 e 2021.

O ponto comercial não é o campeonato: é o aluguel. Uma diária privativa no Surf Ranch fica em torno de US$ 70 mil na alta temporada e US$ 50 mil na baixa. Dividido por dez surfistas, dá algo entre US$ 5 mil e US$ 7 mil por pessoa por dia. É o produto de nicho mais caro que o surfe já criou.

Kelly Slater sai de dentro do tubo em uma onda grande no Banzai Pipeline
Slater escapa do tubo no Banzai Pipeline. Foto: Foster and sons / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Abu Dhabi e o modelo de licenciamento

O salto de escala veio de fora dos Estados Unidos. Em outubro de 2024, abriu ao público o Surf Abu Dhabi, na ilha de Hudayriyat, construído em parceria com a Modon Holding e movido pela tecnologia da Kelly Slater Wave Company. É a maior piscina de ondas do mundo, usa água do mar e produz a onda artificial mais longa já feita. A revista Time colocou o complexo na lista de melhores lugares do mundo.

Os preços seguem a mesma lógica de escassez: uma sessão privativa de 90 minutos para seis surfistas sai por 15 mil dirhams, cerca de US$ 4 mil, o que dá algo perto de US$ 185 por onda. Sessão aberta para avançados custa 3.500 dirhams, aproximadamente US$ 950. Para iniciantes, 60 minutos saem por 1.800 dirhams, uns US$ 490.

Abu Dhabi virou etapa do Championship Tour em 2025 e volta ao calendário em 2026, com janela de 14 a 18 de outubro. Para a Kelly Slater Wave Company, cada piscina licenciada é receita recorrente sem o custo de operar o parque. Nem tudo saiu do papel: o projeto Coral Mountain, na Califórnia, foi barrado pela oposição de moradores da região.

O Surf Ranch mudou de dono em 2026

A mudança mais relevante do ano aconteceu em silêncio. Em fevereiro de 2026, a Kelly Slater Wave Company deixou de pertencer à WSL Holdings. Não houve comunicado, e a transação só veio a público meses depois, confirmada pelo presidente da piscina, Kaniela Neves.

A explicação oficial da WSL foi curta: “a KSWC foi vendida recentemente pelo grupo controlador anterior, a WSL Holdings, para um fundo imobiliário de Los Angeles em parceria com Kelly Slater”. O fundo apontado por reportagens do setor é a Global Mutual Properties, que informa mais de 600 investimentos em 10 países e US$ 5 bilhões sob gestão. O valor da operação não foi divulgado.

Na prática, Slater vendeu o controle da empresa em 2016 e voltou à sociedade dez anos depois, com um sócio financeiro no lugar de um sócio esportivo. O movimento se encaixa no momento da própria liga: a WSL confirmou que “recebeu um volume significativo de interesse e decidiu explorar alternativas estratégicas”, com o banco Raine Group coordenando as conversas. É o mesmo cenário que levou a liga a colocar o próprio nome à venda em 2026, buscando dinheiro fora do surfe.

Outerknown: a marca que nasceu da briga com o modelo antigo

A Outerknown foi criada em 2015 com o designer John Moore, cofundador e diretor criativo, e o aporte minoritário da Kering. A proposta era desmontar a lógica da roupa de surfe barata e descartável, e a estratégia foi transformar a cadeia de produção em argumento de venda.

A marca publicou a lista das próprias fábricas, trabalha com unidades certificadas pelo selo Fair Trade e diz ter 95% do portfólio de materiais em fibras preferenciais: algodão orgânico com certificação GOTS, poliéster reciclado, cânhamo e o náilon regenerado ECONYL, feito a partir de redes de pesca recolhidas do mar. O produto símbolo é o calção Apex, vendido entre US$ 98 e US$ 145, valor de bermuda de grife, não de loja de praia.

Em 2021, a Outerknown lançou a Outerworn, plataforma de revenda de peças usadas da própria marca. A rede física cresceu com quatro lojas abertas entre 2023 e 2024, em Larkspur, Carlsbad e Palo Alto, na Califórnia, e no bairro de Georgetown, em Washington. Além das lojas próprias, a marca informa mais de 400 pontos de venda multimarcas.

Firewire, Slater Designs e KLLY: a holding que juntou tudo

Em fevereiro de 2015, o veículo de investimentos de Slater, a EcoPivot, comprou a participação majoritária da Firewire Surfboards, fabricante fundada na Austrália e conhecida pelas pranchas de construção alternativa. Slater ficou com cerca de 70% da empresa. No ano seguinte nasceu a Slater Designs, a linha assinada por ele dentro da estrutura industrial e de distribuição da Firewire. Junto veio a Endorfins, a fabricante de quilhas do grupo.

Em 2023, Slater lançou a KLLY, primeira marca de calçados dele. O produto de estreia, o chinelo New Moon, saiu por US$ 89 e usa a espuma BLOOM, derivada de algas, a mesma tecnologia aplicada nos deck pads das pranchas Slater Designs.

A organização veio em maio de 2024, quando Outerknown, Firewire, Slater Designs e Endorfins passaram a responder a uma holding única. Para comandar o grupo foi nomeado Dylan Slater, que já era presidente da Firewire, passou quase duas décadas na Rip Curl e, apesar do sobrenome, não tem parentesco com Kelly. O desenho reduz custo de estrutura e coloca marcas de roupa, prancha, quilha e calçado sob a mesma cadeia de fornecedores.

Kelly Slater faz uma manobra em campeonato com colete de competicao e prancha com adesivo de patrocinador
Slater em competicao na fase de contrato com a Quiksilver. Foto: Pedro Szekely / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Investimentos, energético e agora a NASCAR

Fora das marcas próprias, Slater aparece como investidor minoritário em uma carteira pequena. Ele é cofundador da Purps, energético orgânico sem açúcar e sem caloria criado com PM Tenore, fundador da RVCA, e com o pesquisador Chris Schaumburg, e da Komunity Project, de acessórios como deck pads, capas e leashes. Bases de dados de investimento como a PitchBook listam ainda aportes-anjo em empresas como Hyperice, de recuperação muscular, Vessel Health, Goodwell e Lit Motors.

O anúncio mais recente é de 30 de julho de 2026. A Legacy Motor Club, equipe da NASCAR Cup Series cujo sócio majoritário é o heptacampeão Jimmie Johnson, revelou um grupo de investidores estratégicos que inclui Slater ao lado dos jogadores de beisebol Bryce Harper e Chase Utley, do tenista Andy Roddick, do cantor Darius Rucker, do chef Guy Fieri, dos campeões da IndyCar Scott Dixon, Dario Franchitti e do brasileiro Tony Kanaan, da cofundadora da Away, Jen Rubio, e de Sam Byrne, da gestora CrossHarbor Capital Partners. A equipe pretende operar três carros em tempo integral a partir de 2027. Nenhum percentual de participação foi divulgado.

É a primeira vez que Slater entra como sócio em uma franquia esportiva de outra modalidade. A lógica é a mesma que move o dinheiro que sustenta a NASCAR hoje: audiência garantida, calendário longo e um teto de gastos que torna a conta previsível para investidor.

Quanto vale o patrimônio de Kelly Slater

Não existe resposta auditada. Todas as empresas de Slater são de capital fechado, nenhuma divulga faturamento e as cifras de “patrimônio líquido” que circulam em sites de celebridade não têm fonte primária. O que dá para verificar são os números do negócio, não os da conta bancária.

Esses números ajudam a dimensionar. O Surf Ranch custou cerca de US$ 30 milhões para ser construído e aluga por até US$ 70 mil ao dia. Uma onda em Abu Dhabi custa perto de US$ 185. O calção mais vendido da Outerknown passa de US$ 100. O contrato de patrocínio mais rico da carreira dele, ainda na Quiksilver, era estimado em centenas de milhares de dólares por ano. A diferença entre as duas colunas explica por que Slater trocou o contrato pela sociedade.

Vale a comparação com o mercado atual do surfe brasileiro. O Vivo Rio Pro 2026 pagou R$ 750 mil ao campeão, a maior premiação da história do esporte no país, e Yago Dora fechou com o C6 Bank depois do título mundial. São valores relevantes, e ainda assim de outra ordem de grandeza em relação a quem é dono da fábrica.

O que os negócios de Kelly Slater ensinam sobre alta performance

Slater é o maior vencedor da história do surfe: 11 títulos mundiais, 56 vitórias em etapas do circuito, o campeão mais jovem, aos 20 anos, e o mais velho, aos 39. Em fevereiro de 2022, uma semana antes de completar 50 anos, venceu o Billabong Pro Pipeline com nota 18,77 e virou o vencedor mais velho da etapa. Anunciou a aposentadoria do circuito em abril de 2024, em Margaret River, depois de anos convivendo com a dor de uma cirurgia no quadril, e voltou a competir em janeiro de 2026 no Da Hui Backdoor Shootout, evento especial em Pipeline, um mês antes do aniversário de 54 anos.

A leitura útil para quem treina não está nos títulos. Está no calendário. Slater começou a montar a tecnologia de ondas em 2006, aos 34 anos, no auge competitivo, e a primeira onda só saiu em 2015. Comprou a Firewire em 2015, quando ainda disputava o topo do ranking. Fundou a Outerknown no mesmo ano. Quando a carreira acabou, em 2024, não havia nada para construir do zero: havia empresas de dez anos para administrar.

Atleta de elite tem duas janelas que quase nunca coincidem: a do corpo, que fecha cedo, e a da relevância comercial, que fecha um pouco depois. Quem espera a primeira fechar para começar a pensar na segunda chega ao mercado sem produto, sem sociedade e com uma agenda vazia. Slater usou o pico da carreira como capital de entrada, não como linha de chegada. É a diferença entre ser patrocinado e ser dono.

Perguntas frequentes sobre os negócios de Kelly Slater

Quantas empresas Kelly Slater tem?

Slater tem participação em pelo menos oito negócios ativos: Kelly Slater Wave Company, Outerknown, Firewire Surfboards, Slater Designs, Endorfins, KLLY, Purps e a equipe de NASCAR Legacy Motor Club. Outerknown, Firewire, Slater Designs e Endorfins foram reunidas sob uma holding única em maio de 2024.

Kelly Slater ainda é dono do Surf Ranch?

Sim, como sócio. Em fevereiro de 2026, a Kelly Slater Wave Company foi vendida pela WSL Holdings para um fundo imobiliário de Los Angeles em parceria com Kelly Slater. O valor não foi divulgado. Antes disso, a WSL tinha o controle desde 2016.

Quanto custa surfar no Surf Ranch e no Surf Abu Dhabi?

No Surf Ranch, em Lemoore, a diária privativa gira em torno de US$ 70 mil na alta temporada, o que dá de US$ 5 mil a US$ 7 mil por surfista em um grupo de dez. No Surf Abu Dhabi, uma sessão aberta de 90 minutos para nível avançado custa 3.500 dirhams, cerca de US$ 950, e a sessão de iniciante de 60 minutos sai por 1.800 dirhams, aproximadamente US$ 490.

O que é a Outerknown?

É a marca de roupas fundada por Kelly Slater e pelo designer John Moore em 2015, com aporte minoritário do grupo Kering. Trabalha com fábricas certificadas Fair Trade, publica a lista de fornecedores, usa náilon reciclado de redes de pesca e mantém a Outerworn, plataforma de revenda de peças usadas criada em 2021.

Kelly Slater ainda compete?

Não no circuito mundial. Ele anunciou a aposentadoria do Championship Tour em abril de 2024, aos 52 anos, mas segue disputando eventos convidativos. Em janeiro de 2026 competiu no Da Hui Backdoor Shootout, em Pipeline, e diz pretender participar de eventos por equipe pelos próximos anos.

Quantos títulos mundiais Kelly Slater tem?

Onze, recorde absoluto do surfe. Ele também soma 56 vitórias em etapas do circuito mundial e oito títulos em Pipeline, incluindo o de fevereiro de 2022, conquistado uma semana antes de completar 50 anos.

Carreira de atleta tem prazo. Estrutura, não.

Conheça a Atleta Pro Academy e aprenda a planejar treino, performance e futuro com método.

Conhecer a Atleta Pro Academy

Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Quer receber conteúdos como esse direto no seu e-mail?

Clique no botão abaixo e inscreva-se na Newsletter do Atleta.

Atleta Pro News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados: