Durante 40 quilômetros, a Maratona de Berlim 2026 teve cara de dia histórico. Tigst Assefa passou pelo km 40 em 2h03min00s, cerca de 10 segundos à frente do ritmo do recorde mundial, e só precisava de um fim de prova comum para cravar a marca. Não conseguiu. Nos últimos 2,2 km, a etíope perdeu mais de um minuto, cruzou a linha do Portão de Brandemburgo em 2h11min04s e ficou 68 segundos acima dos 2h09min56s de Ruth Chepngetich.
Ainda assim, saiu de Berlim com o título, o novo recorde do percurso e a terceira maratona feminina mais rápida da história. No masculino, neste domingo (27), o também etíope Guye Adola, de 35 anos, venceu pela segunda vez nas ruas da capital alemã, com 2h02min50s, a melhor marca da carreira.
Assefa no ritmo do recorde até o km 40
Como a prévia da Maratona de Berlim 2026 mostrou, a tentativa de recorde declarada do domingo era a feminina. Com clima ideal, segundo a organização, Assefa largou às 8h45 no horário local (3h45 de Brasília), fez o primeiro quilômetro em 3min03s e abriu 25 segundos sobre a queniana Rosemary Wanjiru, campeã de 2025, já nos primeiros 5 km, segundo a emissora alemã RBB.
A partir dali, correu sozinha entre as mulheres, protegida por um grupo de coelhos. As parciais oficiais mostram uma prova quase metronômica:
- 10 km: 30min48s.
- Meia maratona: 1h04min57s, ritmo para 2h09min54s.
- 30 km: 1h32min15s.
- 35 km: 1h47min32s, projeção de 2h09min38s.
- 40 km: 2h03min00s.
Uma leve subida perto do km 25 chegou a tirar a projeção do ritmo do recorde, mas ela recuperou logo depois e manteve a média de pouco mais de 3min por quilômetro até o km 40. Com 2,195 km pela frente, bastava correr esse trecho em 6min56s, um ritmo de 3min10s por quilômetro, mais lento do que qualquer parcial de 5 km que ela havia feito até ali.
O que aconteceu nos últimos dois quilômetros
O corpo cobrou a conta no pior lugar. Segundo a cobertura ao vivo do site FloTrack, Assefa começou a mancar no último quilômetro e seguiu até a linha de chegada. O trecho final, do km 40 à chegada, levou 8min04s, uma média de 3min41s por quilômetro. Em nenhuma parcial de 5 km anterior a média dela tinha passado de 3min06s por quilômetro.
A RBB, que acompanhou a prova em tempo real, chamou de dramática a forma como a marca escapou. Às 10h35 locais, a emissora ainda calculava que Assefa baixaria o recorde em cerca de 20 segundos. Vinte minutos depois, a vitória veio com o recorde fora de alcance.
O tamanho da conquista, mesmo assim, não é pequeno. Os 2h11min04s são a melhor marca da carreira de Assefa, 49 segundos mais rápidos do que os 2h11min53s com que ela bateu o recorde mundial nas mesmas ruas, em 2023. Viram também o novo recorde do percurso de Berlim. Na lista de todos os tempos, só duas mulheres correram mais rápido: Ruth Chepngetich, com 2h09min56s em Chicago, em 2024, e a etíope Fotyen Tesfay, com 2h10min51s em Barcelona, em março deste ano, na estreia dela na distância.
É o terceiro título de Assefa em Berlim, depois de 2022 e 2023. A vantagem para a segunda colocada, a também etíope Bedatu Hirpa, foi de quase seis minutos. Pela tabela de premiação divulgada antes da prova, o bônus de 50 mil euros reservado ao recorde mundial ficou na mesa. A vitória com tempo abaixo de 2h15min vale 60 mil euros, somando prêmio e bônus de tempo.
Adola vence o duelo etíope no masculino
Sem o recordista mundial Sabastian Sawe e sem Kenenisa Bekele, a corrida masculina foi decidida por quem aguentou o ritmo mais tempo. O diretor da prova, Mark Milde, havia prometido um primeiro grupo em ritmo para 2h01min, e o pelotão abriu forte: 14min30s nos 5 km e 28min58s nos 10 km, com o tanzaniano Gabriel Geay e o queniano Erick Sang puxando a fila. A meia maratona saiu em 1h01min01s para os líderes.

Mesmo esse ritmo já deixava fora de alcance o recorde do percurso, os 2h01min09s de Eliud Kipchoge em 2022, e a segunda metade foi mais lenta. No km 30, restavam três etíopes na frente, lado a lado em 1h26min57s: Guye Adola, Selemon Barega e Gemechu Dida Diriba. No km 35, Adola já tinha alguns segundos de vantagem, com 1h41min18s, e não foi mais alcançado.
A vitória fecha uma história longa com Berlim. Em 2017, na estreia na maratona, Adola foi vice atrás de Kipchoge, com 2h03min46s. Em 2021, venceu com 2h05min45s. Em abril deste ano, ganhou em Roterdã com 2h03min54s. Neste domingo, nove anos depois da estreia, finalmente melhorou o tempo daquela primeira maratona, e por 56 segundos.
O resultado da Maratona de Berlim 2026
Os cinco primeiros de cada prova, pela classificação oficial da organização:
| Pos. | Masculino | Tempo | Feminino | Tempo |
|---|---|---|---|---|
| 1º | Guye Adola (ETI) | 2h02min50s | Tigst Assefa (ETI) | 2h11min04s |
| 2º | Gemechu Dida Diriba (ETI) | 2h03min19s | Bedatu Hirpa (ETI) | 2h16min53s |
| 3º | Gabriel Geay (TAN) | 2h03min59s | Dera Dida (ETI) | 2h16min55s |
| 4º | Getaneh Molla (ETI) | 2h04min55s | Bekelech Gudeta (ETI) | 2h18min58s |
| 5º | Selemon Barega (ETI) | 2h04min58s | Alemitu Tariku (ETI) | 2h19min01s |
A tabela esconde algumas histórias. Barega, campeão olímpico dos 10.000 m em Tóquio, ficou para trás no fim, mas baixou a marca pessoal em dois segundos, de 2h05min00s para 2h04min58s, na terceira maratona da carreira. Geay, dono da melhor marca entre os inscritos (2h03min00s), foi ao pódio 59 segundos acima dela. Shura Kitata, campeão de Londres em 2020, terminou em oitavo, com 2h06min04s. O melhor não africano foi o japonês Yuhei Urano, nono, com 2h06min09s.
No feminino, Hirpa e Dera Dida, separadas por dois segundos, correram abaixo das marcas pessoais que tinham antes da prova, 2h18min27s e 2h18min32s. A queniana Rosemary Wanjiru, que defendia o título, foi só a 13ª, com 2h24min05s. A alemã Esther Pfeiffer, de 29 anos, que atacava o recorde nacional de 2h19min19s de Irina Mikitenko e estava no ritmo nos primeiros 10 km, abandonou pouco antes do km 15.
Sem Sawe e sem Bekele
A prova masculina perdeu seus dois nomes mais conhecidos antes da largada. Sawe, campeão de 2025 e dono do recorde mundial de 1h59min30s, desistiu em 27 de agosto por lesão e foi anunciado pela organização como convidado de honra do fim de semana. A marca dele segue como a referência da distância, como mostra a reportagem sobre o primeiro sub-2h homologado da história.

Bekele saiu depois. Anunciado em 18 de setembro como reforço da elite, o etíope de 44 anos, bicampeão em Berlim (2016 e 2019), sofreu uma lesão no tendão de Aquiles esquerdo na reta final da preparação, pouco antes de viajar para a Alemanha, segundo o site especializado Marathon Handbook. O comunicado da organização na sexta-feira (25) confirmou a ausência. Bekele não completa uma maratona desde a Olimpíada de Paris, em 2024: abandonou em Valência naquele ano e em Nova York, em 2025.
Sem os dois, a largada masculina não tinha nenhum atleta com marca pessoal abaixo de 2h03min, algo que não acontecia numa etapa das World Marathon Majors desde 2024, segundo o site LetsRun. O vencedor acabou sendo justamente um dos poucos que já conheciam o caminho do pódio em Berlim.
O brasileiro que correu com Assefa
Não havia brasileiros entre os favoritos da elite, mas um nome conhecido do atletismo nacional aparece bem colocado na classificação oficial. Paulo Roberto Paula, de 47 anos, oitavo colocado na maratona olímpica de Londres 2012, terminou em 30º lugar geral, com 2h12min07s, e venceu a categoria de 45 a 49 anos.
O curioso está nas parciais. Até o km 25, os tempos dele são praticamente os mesmos de Assefa: 15min30s nos 5 km, 1h04min58s na meia maratona (um segundo atrás dela) e 1h17min01s no km 25 (de novo, um segundo). A partir do km 30, a etíope seguiu no ritmo e o brasileiro diminuiu. Com a quebra de Assefa no fim, ele cruzou a linha apenas 63 segundos depois dela.
Ele foi o melhor de uma delegação grande. Segundo a RBB, 1.888 brasileiros se inscreveram para a edição de 2026, que teve mais de 56 mil inscritos de 162 países na distância clássica. Berlim tem um lugar especial na história do país: foi ali que Ronaldo da Costa bateu o recorde mundial da maratona, em 1998, com 2h06min05s.
O que a manhã em Berlim ensina sobre alta performance
Assefa fez quase tudo certo. Declarou o objetivo, correu 40 km no ritmo exato e ficou a pouco mais de dois quilômetros da marca. O recorde escapou num trecho em que o plano não tinha mais o que oferecer, porque o corpo decidiu antes. Para quem compete em qualquer nível, a lição não é desistir de metas grandes. É entender que a meta ambiciosa aceita o risco de quebrar no fim, e que o resultado de um dia não apaga o processo que colocou a atleta ali. Ela saiu com o título, a melhor marca da vida e o recorde do percurso.
Adola deixa a lição inversa. Estreou em 2017 com um tempo que levou nove anos para superar. Entre um ponto e outro, venceu, perdeu, mudou de ciclo e voltou ao mesmo asfalto aos 35 anos. Processo mais tempo, sem atalho, virou a melhor maratona da carreira dele. É o tipo de resultado que não aparece em pico de três meses: aparece em quem continua na largada ano após ano.
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