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Menos Telas, Mais Selas: o projeto que troca o celular pelo cavalo

Quatro crianças montadas em cavalos crioulos durante prova do Freio Jovem em arena de areia

Passei este fim de semana em Porto Alegre acompanhando uma prova de Freio Jovem, e vi uma cena que resume tudo o que tento explicar para pais no meu trabalho. Uma criança de sete ou oito anos, de bombacha, guiando sozinha um animal de mais de 400 quilos numa sequência de esbarradas e voltas sobre patas, com a arena olhando. Nenhum celular por perto. Nenhuma notificação para conferir. Só ela, o cavalo e a próxima manobra. Aquela criança estava fazendo, aos sete anos, algo que muitos adultos não conseguem mais: sustentar atenção plena, sem fuga, num momento de pressão real.

A prova é organizada dentro do universo do Cavalo Crioulo. O Freio Jovem é a versão para crianças e adolescentes do tradicional Freio de Ouro, com categorias a partir dos 6 anos. E o que me levou até lá foi o projeto que prepara boa parte desses jovens ginetes: o Menos Telas, Mais Selas, tocado em Porto Alegre pelo Tomaz Gonçalves, meu cliente e atleta do Freio de Ouro. O nome é um trocadilho, mas a proposta é séria. E, na minha leitura de Treinador Mental, é uma das intervenções mais inteligentes que já vi para um problema que virou epidemia. Vou explicar por quê, com os dados na mão.

O diagnóstico: o que as telas estão fazendo com o desenvolvimento

Comecemos pelo tamanho do problema, sem dramatização e sem negação. O Brasil é o segundo país do mundo em tempo de tela, com uma média que passa de nove horas diárias. E a criança não escapa dessa média: entre 5 e 7 anos, o tempo já supera três horas por dia; entre 11 e 13, passa de cinco horas e meia. As recomendações de saúde falam em algo entre uma e três horas, dependendo da idade. Ou seja: a exposição real é o dobro ou o triplo do razoável, justamente na janela em que o cérebro está sendo formado.

E o efeito não é só o tempo perdido: é o tipo de cérebro que se constrói. A literatura associa mais de duas horas diárias de tela a maior prevalência de déficit de atenção, ligada à alternância vertiginosa de estímulos que o conteúdo digital oferece. A luz azul dos aparelhos suprime a melatonina e desorganiza o sono, o pilar em que a criança cresce e se recupera. E o excesso de tela puxa para baixo a atividade física e o desenvolvimento motor. O aparelho não é neutro: ele rouba movimento, rouba sono e recalibra a atenção para o curto prazo.

A saúde mental: os números do Brasil e do mundo

Aqui o quadro fica mais sério. No Brasil, o inquérito Covitel de 2023 apontou que 26,8% da população relatam ansiedade e 12,7%, depressão. E entre os jovens de 18 a 24 anos a ansiedade chega a 31,6%. Um estudo brasileiro encontrou sintomas depressivos significativamente maiores em adolescentes com 4 a 6 horas ou mais de tela por dia, na comparação com quem fica em até duas horas. A tela e o sofrimento psíquico caminham juntos.

No mundo, a fotografia é parecida. As taxas de sintomas depressivos em adolescentes vêm subindo nas últimas duas décadas, e boa parte da comunidade científica associa esse movimento à ascensão dos dispositivos digitais. A Organização Mundial da Saúde, olhando jovens de 11 a 15 anos em vários países, já identificou que mais de um em cada dez apresenta padrão problemático de uso de redes sociais.

Sejamos honestos com a ciência: a maioria dos estudos mostra associação, e o mecanismo mais aceito é o do deslocamento (a tela faz mal porque toma o lugar do que faz bem). Ela desloca a atividade física, o sono e a convivência presencial, e ainda expõe a criança à comparação com padrões irreais e ao cyberbullying. E é exatamente aí que a lente muda de figura: se o dano vem, em grande parte, do que a tela substitui, então a solução não é só proibir a tela, é oferecer algo forte o suficiente para ocupar esse espaço com valor. É aqui que entra o cavalo.

Homem coloca medalha no pescoço de criança durante a premiação de uma prova do Freio Jovem
Premiação das crianças do projeto Menos Telas, Mais Selas. Foto: Spolavori Fotografias

Por que o cavalo é um antídoto tão poderoso

Não é qualquer atividade. O cavalo tem uma característica que quase nenhuma outra ferramenta pedagógica tem: ele é um ser vivo, grande, sensível, que responde ao estado emocional de quem está em cima. E isso muda tudo.

1. Presença obrigatória: não existe montar “no automático”

A tela treina a atenção fragmentada; o cavalo exige o oposto. Você não conduz um animal de quatrocentos quilos com metade da cabeça. Ele percebe distração, insegurança, pressa. Montar impõe presença plena, o famoso “estar no aqui e agora” que passamos a vida tentando ensinar a atletas adultos, e que essas crianças praticam naturalmente toda vez que pegam nas rédeas. É atenção sustentada, treinada na dose certa, pelo motivo mais concreto do mundo: o animal só coopera se você estiver inteiro ali.

2. Autorregulação emocional: o cavalo é um espelho

Este é o pilar que mais me impressiona. O cavalo lê a emoção do cavaleiro e a devolve. Criança ansiosa, apressada, nervosa? O animal fica tenso e não obedece. Criança que aprende a respirar, baixar os ombros e se acalmar? O cavalo relaxa e responde. Não há como enganar. A criança recebe, em tempo real, um retorno físico e honesto do próprio estado interno. E vai, tentativa após tentativa, aprendendo a se regular para conseguir o que quer. Isso é educação emocional de altíssimo nível, sem uma única palestra. Num tempo em que a ansiedade infantil dispara, colocar a criança para gerenciar a própria emoção diante de um espelho de quatrocentos quilos é ouro.

3. Gratificação adiada: o oposto exato do feed

A tela funciona no toque-e-recebe: quer, toca, ganha na hora. O cavalo funciona no regime inverso. Você limpa, sela, cuida, treina, erra, repete (por semanas) para depois colher uma manobra bem-feita. A criança que só conhece a recompensa instantânea desenvolve baixa tolerância à frustração; a que convive com o cavalo aprende, no corpo, que as coisas boas exigem tempo, cuidado e repetição. Essa é a competência que separa quem persiste de quem desiste, dentro e fora do esporte.

4. Responsabilidade real por uma vida

Um bicho depende dela. Precisa ser alimentado, cuidado, respeitado, mesmo nos dias de preguiça, de frio, de chuva. Isso constrói responsabilidade concreta, não a versão abstrata de “seja responsável” que a criança ouve e não sente. Cuidar de outro ser vivo desenvolve empatia, disciplina e senso de consequência, porque aqui a consequência tem cara, tem fome e tem sentimento.

5. Resiliência: cair e voltar a montar, literalmente

No cavalo, mais cedo ou mais tarde, a criança cai. E a lição mais antiga da equitação é também a mais valiosa da vida: você volta a montar. A queda deixa de ser catástrofe e vira parte do processo. A criança aprende, na prática, que errar não é o fim, é um passo. Numa geração que muitas vezes evita o desconforto refugiando-se na tela, treinar o desconforto e a superação com um animal é construir a resiliência que nenhum vídeo ensina.

A escola de pressão que é o Freio Jovem

O que dá liga a tudo isso é a prova. O Freio Jovem não é passeio: é competição funcional, baseada no regulamento do Freio de Ouro, com provas exigentes como andadura, figura, esbarradas, mangueira e prova de campo. A criança treina por um ciclo inteiro, viaja, entra na arena, sente o frio na barriga e executa sob os olhos da plateia e dos jurados. Depois lida com o resultado (o pódio ou a decepção) e recomeça o ciclo.

Cinco meninas em pilcha gaúcha seguram troféus do Freio Jovem ao lado do instrutor agachado
Pódio da categoria Infantil Feminino B do Freio Jovem. Foto: Spolavori Fotografias

Isso é um laboratório de habilidades mentais completo: rotina, disciplina de treino, controle da ansiedade de competição, foco sob pressão e gestão da vitória e da derrota. São exatamente as competências que o mundo adulto vai cobrar dessas crianças (no esporte, no estudo, no trabalho), construídas cedo, no lombo de um cavalo, e não numa cartilha.

O projeto do Tomaz Gonçalves

O Menos Telas, Mais Selas nasceu dessa convicção e virou estrutura. Tocado pelo Tomaz Gonçalves na zona sul de Porto Alegre, o projeto reúne cerca de 70 alunos, dos quais 28 fazem parte de uma frente social, que começou apoiando cinco crianças e cresceu com o apadrinhamento de parceiros e o respaldo da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC). Não é só uma escola de equitação; é uma porta de entrada que tira a criança da tela e a coloca em contato com a natureza, com o animal e com uma comunidade que ensina valores enquanto ensina a montar.

O mérito do projeto está em ter entendido o problema pela raiz. Ele não briga com a tela no grito, nem faz sermão sobre celular. Ele oferece algo mais forte que a tela (mais intenso, mais real, mais recompensador no longo prazo) e deixa a criança escolher, no corpo, o que é melhor. Vinte e oito famílias que talvez nunca tivessem acesso a isso hoje têm. E, pela minha leitura, o que essas crianças estão levando dali não é a habilidade de montar. É caráter.

O que fica

Saí de Porto Alegre convencido de uma coisa que já suspeitava: o antídoto para a tela não é outra tela com “controle parental”. É experiência real, com pele, suor, risco e recompensa adiada. O cavalo é um professor severo e honesto de tudo aquilo que a infância digital anda deixando de construir: atenção, autorregulação, paciência, responsabilidade e resiliência.

Nem toda criança terá um cavalo, e o ponto maior nem é o animal, é o princípio. Substituir horas de tela por qualquer prática que exija presença, esforço e convívio com o mundo real é devolver à criança o solo em que o caráter cresce. O Menos Telas, Mais Selas apenas escolheu, para isso, um dos professores mais poderosos que existem. E dá gosto de ver.

Leia também: Três Tambores: o que é, as regras e por que cresce no Brasil · O menino que segurou o pai para não agredir o árbitro em Timbó · Agressão no futsal de Eusébio: o que ensina sobre caráter e o papel dos pais

Perguntas frequentes

O que é o projeto Menos Telas, Mais Selas?

É uma escola de equitação na zona sul de Porto Alegre, tocada pelo atleta do Freio de Ouro Tomaz Gonçalves, que usa o cavalo como alternativa ao tempo de tela na infância. Reúne cerca de 70 alunos, dos quais 28 fazem parte de uma frente social que começou apoiando cinco crianças e cresceu com o apadrinhamento de parceiros e o respaldo da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC).

O que é o Freio Jovem?

É a versão para crianças e adolescentes do Freio de Ouro, a principal competição de seleção do Cavalo Crioulo. O regulamento é muito parecido com o da prova adulta, com etapas credenciadoras, classificatórias e finais, e provas de andadura, figura, esbarradas, mangueira e prova de campo. As categorias começam aos 6 anos e vão até os 16, divididas em Infantil A (6 a 8 anos), Infantil B (9 a 11), Juvenil A (12 a 14) e Juvenil B (15 a 16).

Quanto tempo de tela é recomendado para crianças e adolescentes?

As recomendações de saúde falam em algo entre uma e três horas por dia, dependendo da idade. A exposição real no Brasil é o dobro ou o triplo disso: entre 5 e 7 anos já passa de três horas diárias, e entre 11 e 13 anos chega a mais de cinco horas e meia. O país é o segundo do mundo em tempo de tela, com média acima de nove horas por dia entre os adultos.

A tela causa ansiedade e depressão em adolescentes?

A maioria dos estudos mostra associação, não causa direta. O mecanismo mais aceito é o do deslocamento: a tela faz mal principalmente porque toma o lugar do que faz bem, ou seja, da atividade física, do sono e da convivência presencial. Um estudo brasileiro encontrou sintomas depressivos significativamente maiores em adolescentes com 4 a 6 horas ou mais de tela por dia, na comparação com quem fica em até duas horas.

Por que montar a cavalo ajuda no desenvolvimento emocional da criança?

Porque o cavalo é um ser vivo que responde ao estado emocional de quem está em cima. Ele exige presença plena, devolve em tempo real o nervosismo ou a calma do cavaleiro, funciona no regime da recompensa adiada, cobra responsabilidade concreta por outra vida e ensina resiliência de forma literal: quando a criança cai, ela volta a montar.

É preciso ter um cavalo para aplicar o princípio do projeto?

Não. O ponto maior não é o animal, é o princípio. Substituir horas de tela por qualquer prática que exija presença, esforço e convívio com o mundo real devolve à criança o terreno em que se constroem atenção, autorregulação, paciência, responsabilidade e resiliência. O cavalo é só um dos professores mais poderosos disponíveis para isso.

Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.

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Nicholas Pasqualetto

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