Num jogo de sub-11 em Timbó, Santa Catarina, um pai entrou no campo e foi em direção ao árbitro para agredi-lo. Quem o segurou não foi um dirigente, não foi um segurança, não foi outro adulto. Foi o próprio filho, uma criança de menos de onze anos, que largou o jogo, atravessou o campo e travou o corpo do pai para impedir a agressão.
Pare um segundo nessa imagem. Uma criança que deveria estar aprendendo a driblar, a errar um passe sem medo e a apertar a mão do adversário no fim, teve que assumir o papel de adulto da relação. Inverteram-se os lugares: o filho protegeu o pai de si mesmo. Como treinador mental de atletas, posso dizer com segurança que aquele menino perdeu muito mais naquele minuto do que qualquer placar poderia tirar dele.
Este texto não é sobre um pai. É sobre um padrão. Casos assim se repetem pelo Brasil: pais invadindo campos infantis para agredir árbitros já foram registrados em Goiás, em São Paulo e em tantos lugares que viraram rotina. E cada um deles deixa uma marca invisível que nenhum vídeo mostra: a que fica na cabeça da criança.
1. A criança aprende observando, não ouvindo
Nenhum discurso sobre respeito sobrevive a uma cena de violência. Você pode repetir “respeite o juiz” mil vezes em casa, mas se o seu filho vê você xingando a arbitragem, questionando cada decisão e, no limite, partindo para cima de alguém, foi isso que ele aprendeu. A criança não guarda o que você fala; ela guarda o que você faz sob pressão. E o esporte infantil existe, entre outras coisas, justamente para ensinar a lidar com frustração, injustiça e derrota. Quando o pai não suporta essas três coisas na arquibancada, ele sabota exatamente a lição que o filho foi ali buscar.

2. O amor não pode ser confundido com desempenho
O erro mais comum, e mais silencioso, do pai despreparado é vincular o próprio humor ao rendimento do filho. A criança percebe isso rápido: “quando jogo bem, meu pai fica feliz e orgulhoso; quando jogo mal, ele fica calado, irritado, ou explode.” A partir daí, o esporte deixa de ser prazer e vira uma prova de amor. O menino não entra em campo mais para jogar: entra para não decepcionar. Essa é uma das formas mais eficientes de matar uma carreira esportiva antes dos doze anos, porque o medo de errar congela o talento. Atleta com medo de errar não arrisca, não cria, não evolui.
3. O carro de volta para casa é o momento mais importante
Existe um conceito simples que uso com pais e que vale mais do que qualquer treino: o trajeto de volta para casa. É ali, no carro, logo depois do jogo, que a maioria dos estragos acontece. O pai que usa esse tempo para analisar erros, cobrar, comparar com outros jogadores ou reclamar do juiz transforma um momento de conexão numa segunda punição. O filho já sabe quando jogou mal, ele não precisa de um relatório. Pesquisas com atletas que seguiram carreira mostram que a frase que eles mais gostavam de ouvir dos pais era a mais curta possível: “adorei te ver jogar”. Ponto. Sem “mas”. Sem análise técnica. Seu papel no carro não é ser treinador. É ser porto seguro.
4. Cada adulto no campo tem uma função, e a do pai não é arbitrar
No esporte de base existem três papéis, e eles não se misturam. O treinador corrige e ensina. O árbitro aplica a regra e vai errar, porque é humano, assim como seu filho vai errar um gol na cara do gol. E o pai torce, acolhe e dá segurança emocional. O caos começa quando o pai tenta acumular as três funções: vira técnico da arquibancada, juiz da arbitragem e crítico do desempenho ao mesmo tempo. Sobrecarregado desses papéis, ele deixa vago o único que ninguém mais pode ocupar: o de pai. E o filho, sem esse porto, fica sozinho justamente no ambiente em que mais precisava se sentir apoiado.

5. Os sinais de que o preparo está faltando
Vale um espelho honesto. Alguns sinais denunciam o pai que precisa se preparar: sentir o estômago embrulhar quando o filho erra; discutir com outros pais na arquibancada; falar mal do treinador ou do juiz na frente da criança; medir o valor do dia pela vitória ou derrota; dar instruções técnicas gritadas durante o jogo, muitas vezes contradizendo o treinador. Nenhum desses comportamentos vem de falta de amor. Vem de excesso de amor mal direcionado. O pai que invade o campo em Timbó provavelmente ama o filho. O problema nunca foi o tamanho do amor. Foi a ausência de preparo para canalizá-lo.
O que aquele menino carrega dali para frente
Volto à cena do começo, porque ela resume tudo. Aquela criança aprendeu, aos dez anos, que não pode confiar no pai para se controlar: que é ela quem precisa segurar o adulto. Aprendeu que o campo, que deveria ser o lugar mais leve da sua semana, é onde o pai perde o controle. E aprendeu, na frente dos colegas, o que é vergonha. Se ninguém ajudar aquele pai a se transformar, há uma chance real de que o menino simplesmente abandone o esporte, não por falta de talento, mas para proteger a própria paz. É assim que carreiras terminam antes de começar: não num corte de peneira, mas na arquibancada de casa.
A boa notícia é que ser um bom pai de atleta não é dom. É preparo. Assim como a criança treina o passe, o pai pode treinar a própria postura na arquibancada, no carro e em casa. E quando ele faz isso, deixa de ser o obstáculo e vira a maior vantagem competitiva que um jovem atleta pode ter: um lugar seguro para onde voltar, ganhando ou perdendo.
Dê o próximo passo
Se você se reconheceu em algum ponto deste texto, ou se quer garantir que jamais será o pai daquela cena, o Curso Para Pais de Atletas foi feito exatamente para isso. Nele você aprende, de forma prática, como apoiar sem sufocar, como se portar nos jogos, o que dizer (e o que calar) no trajeto de casa e como blindar a cabeça do seu filho contra a pressão, para que o esporte seja fonte de crescimento, e não de trauma. Seu filho não precisa de um pai perfeito. Precisa de um pai preparado. Conheça o Curso Para Pais de Atletas e transforme a sua torcida na maior força da carreira do seu filho.
Leia também: Agressão no futsal de Eusébio: o que ensina sobre caráter e o papel dos pais e Autoconfiança no esporte: como o atleta constrói (e recupera) a confiança.
Perguntas frequentes
O que aconteceu no jogo sub-11 em Timbó?
Durante uma partida de sub-11 na cidade catarinense, um pai entrou no campo em direção ao árbitro para agredi-lo. Quem o conteve foi o próprio filho, que largou o jogo, atravessou o gramado e travou o corpo do pai. As imagens circularam nas redes sociais e os envolvidos não foram identificados publicamente.
Por que o comportamento do pai na arquibancada afeta o filho?
Porque a criança aprende observando, não ouvindo. Ela não guarda o que o pai fala, guarda o que ele faz sob pressão. Nenhum discurso sobre respeito sobrevive a uma cena de violência.
Qual é o momento mais delicado depois de um jogo?
O trajeto de volta para casa. É no carro que a maioria dos estragos acontece, quando o pai usa o tempo para analisar erros, cobrar ou comparar o filho com outros jogadores. O filho já sabe quando jogou mal, ele não precisa de um relatório.
O que dizer para o filho depois da partida?
A frase mais curta possível: “adorei te ver jogar”. Sem “mas”, sem análise técnica. O papel do pai no carro não é ser treinador, é ser porto seguro.
Quais sinais mostram que um pai precisa se preparar melhor?
Sentir o estômago embrulhar quando o filho erra, discutir com outros pais na arquibancada, falar mal do treinador ou do juiz na frente da criança, medir o valor do dia pela vitória ou derrota e gritar instruções técnicas durante o jogo, muitas vezes contradizendo o treinador.
Qual é o papel do pai no esporte de base?
Torcer, acolher e dar segurança emocional. O treinador corrige e ensina, o árbitro aplica a regra, e o pai ocupa o lugar que ninguém mais pode ocupar. O caos começa quando ele tenta acumular as três funções ao mesmo tempo.
Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.
Ser um bom pai de atleta não é dom. É preparo.
O Curso Para Pais de Atletas ensina, na prática, como apoiar sem sufocar, como se portar nos jogos e o que dizer no caminho de casa.






