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Fossati no Tour de France: “não existe mistério no treino deles”

Felipe Fossati com uniforme da NSN e bicicleta Scott na linha de chegada de uma etapa de montanha do Tour de France 2026

Felipe Fossati passou a última semana do Tour de France 2026 dentro de uma equipe World Tour, dormindo nos mesmos hotéis do staff, comendo na mesma cozinha móvel e vendo de perto a rotina que a transmissão nunca mostra. Voltou com uma conclusão que desmonta a fantasia mais confortável do ciclismo amador brasileiro.

“Não existe mistério”, disse ele no episódio do No Topo Podcast publicado nesta terça (18). “A gente sabe o que eles estão fazendo.” Professor doutor da Universidade Federal de Pelotas, ciclista com mais de mil provas e cinco títulos gaúchos, Fossati passou uma hora e vinte destrinchando o que viu na França. O que separa o pelotão do Tour do resto do mundo, na leitura dele, não é informação escondida. É execução.

Uma cidade inteira que se muda todo dia

O primeiro choque é de escala. Na TV aparecem oito ciclistas e dois carros de direção esportiva. Por trás deles, na equipe em que Fossati esteve, trabalhavam mais de 50 pessoas, das primeiras horas da manhã até a hora de dormir.

A frota registrada passava de 18 veículos, entre caminhões, dois ônibus e cerca de nove carros. Um dos caminhões carrega só alimento, porque as equipes levam a própria cozinha e o próprio chef. Elas não compram mantimento na cidade onde estão: ingrediente diferente do habitual é risco desnecessário na véspera de uma etapa de montanha.

À esquerda, o jantar do staff da equipe NSN ao lado do caminhão da equipe; à direita, Felipe Fossati de uniforme dentro do ônibus da NSN
O jantar do staff ao lado do caminhão da NSN e o interior do ônibus da equipe. Fotos: arquivo pessoal

A conta da organização é maior ainda. Segundo Fossati, o Tour precisa acomodar em hotéis cerca de 5 mil pessoas por cidade, todo dia, contando atletas, staff das equipes, imprensa e convidados. Ele era um desses convidados. E a caravana muda de endereço praticamente a cada 24 horas.

O público segue a mesma lógica de esforço. Na etapa 19, no Alpe d’Huez, estimativas da imprensa francesa apontaram entre 500 mil e 600 mil pessoas espremidas nos 13,8 km da subida. Muita gente sobe a montanha de bicicleta de manhã cedo para ver o pelotão passar no fim da tarde, e depois espera a estrada liberar para descer. Outros chegam dois ou três dias antes de motorhome e acampam.

“Todo mundo ama o que faz lá”

O detalhe que mais impressionou o brasileiro não foi logístico. Foi cultural.

“Se você disser para as pessoas que estão lá trabalhando 15 horas por dia que o salário está garantido e que não precisam voltar amanhã, ninguém arreda o pé”, contou. “Todo mundo ama o que faz lá.”

E funciona porque é obsessivamente organizado. O horário de saída do hotel é 8h30, e ninguém chega às 8h31. Os carros estão abastecidos, as malas prontas, cada mala no veículo certo. “Se uma pessoa falha, dá um efeito cascata gigantesco”, resumiu. Foi essa mesma engrenagem que ele descreveu ao portal em julho, quando contou como é a rotina por dentro da equipe durante a prova.

Do pano quente ao gelo: o que mudou em 20 anos

Fossati acompanha o Tour desde os anos 90 e usou uma comparação simples para mostrar o tamanho da virada científica.

No fim daquela década, o protocolo depois da etapa era enrolar uma toalha quente no pescoço do ciclista, mesmo no verão, com medo do choque térmico. Hoje é o contrário: o atleta chega e vai direto resfriar o corpo com gelo. A razão é fisiológica. Quanto mais alta a temperatura interna, mais glicogênio o corpo queima e mais cedo chega a fadiga.

O mesmo raciocínio explica os itens que de fora parecem frescura. Os ciclistas viajam com o próprio colchão, prática que a Team Sky popularizou na década passada e que o pelotão inteiro copiou, e com ar-condicionado portátil, porque a estrutura dos hotéis em cidades pequenas nem sempre dá conta. Dormir mal uma noite custa performance no dia seguinte.

“Não adianta ter talento, não adianta ter paixão”, disse Fossati. “Se você não fizer todos os detalhes possíveis para ganhar um Tour de France, não ganha, porque lá todo mundo está fazendo tudo que é possível.”

O treino não tem segredo. A execução é que falta

Aqui está o ponto que o professor faz questão de martelar, e que vale para quem nunca vai chegar perto de uma equipe World Tour.

Ele conversou com vários atletas sobre treino durante a viagem. Não achou nenhuma fórmula secreta. “Mesmo um Pogačar da vida, não é um treino que ele faça diferente dos outros que faz ele ter essa performance.”

O que existe é um punhado de práticas que a ciência já validou e que o pelotão europeu aplica há anos enquanto o Brasil ignora. O exemplo que ele deu foi o heat training, o treinamento conduzido com o corpo deliberadamente superaquecido. Um estudo publicado em 2022 no Medicine & Science in Sports & Exercise mostrou que o método aumenta a massa de hemoglobina e a performance de endurance em ciclistas de elite, com ganho que se sustenta por semanas.

“Eu não vejo ninguém no Brasil fazendo”, disse. “Agora, o conhecimento está disponível, é tranquilo de fazer.”

A tradução para o atleta amador não é comprar um colchão de viagem. É olhar para a própria rotina e encontrar o detalhe que está sendo deixado de lado, porque, como Fossati observou, quem perde geralmente perde para alguém que pensou em algo que ele não pensou.

O que o pelotão fala sobre Pogačar

A pergunta inevitável apareceu: o esloveno que acabou de conquistar o quinto Tour de France e igualar Anquetil, Merckx, Hinault e Indurain é humano?

Pelotão do Tour de France 2026 espremido entre o público na subida do Alpe d'Huez
Estimativas da imprensa francesa apontaram entre 500 mil e 600 mil pessoas na subida do Alpe d’Huez. Foto: CarsLikesBikes / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Fossati contou o que ouviu de George Bennett, veterano neozelandês de 36 anos que corre na mesma equipe que o recebeu e que foi companheiro de Pogačar na UAE Team Emirates em 2022 e 2023. Em entrevista recente, Bennett disse que a diferença entre ele e Pogačar é mais ou menos a mesma que existe entre ele e os jornalistas que o entrevistavam, gente que não é atleta. Bennett é bicampeão nacional da Nova Zelândia.

Sobre doping, Fossati diz que dentro do pelotão o assunto não é tratado como o brasileiro trata nas redes. A avaliação é de que o esloveno sempre foi diferenciado: aos 20 anos ele terminou a Vuelta de 2019 em terceiro, com três vitórias de etapa, treinando pouco e comendo o que queria. A virada de chave veio depois das derrotas para Jonas Vingegaard.

O contraponto que ele faz é técnico. Nunca houve um pelotão tão controlado: o passaporte biológico está em vigor desde 2008 e permite punir o atleta pela alteração dos indicadores, sem precisar detectar a substância. “Todo mundo reza para não aparecer nada”, disse, lembrando que um caso grande hoje afastaria patrocinador e público como aconteceu na era Armstrong.

A previsão dele sobre o domínio é menos sobre pernas do que sobre cabeça: enquanto Pogačar quiser, ele ganha. O risco é a motivação acabar. O teste começa no sábado (22), quando o esloveno larga na Vuelta a España atrás da única Grande Volta que falta no currículo, sete anos depois da última vez que disputou a prova. Foi neste Tour, aliás, que ele derrubou o recorde de Marco Pantani no Alpe d’Huez.

O Brasil tem duas pontas e falta tudo no meio

O diagnóstico do ciclismo nacional ocupou a parte mais dura da conversa.

No feminino, o país tem representação real: Ana Vitória “Tota” Magalhães, carioca de 25 anos, corre pela Movistar, foi a primeira brasileira a disputar o Tour de France Femmes e a primeira a completar as três Grandes Voltas. Nesta edição ela trabalhou como capitã de estrada e gregária da suíça Marlen Reusser, que brigava pelo pódio até cair na última etapa.

No masculino, a esperança é Henrique Bravo, o Bravinho, de 20 anos, mineiro de Nova Lima, que corre pela equipe de desenvolvimento da Soudal Quick-Step. Só em 2026 ele venceu uma etapa do Tour du Rwanda, a Volta de Antalya, a Oberösterreich Rundfahrt e a classificação geral do Giro Valle d’Aosta, sendo o primeiro brasileiro a vencer as duas últimas.

Entre uma coisa e outra existe um vazio de dez anos. O último brasileiro consolidado no pelotão de elite masculino foi Murilo Fischer, que se aposentou em 2016 depois de 13 Grandes Voltas e cinco Olimpíadas. Antes dele, Luciano Pagliarini. E a única vitória de etapa brasileira no Tour continua sendo a de Mauro Ribeiro, em 14 de julho de 1991, no dia da queda da Bastilha. Quem quiser entender por que a conta fecha tão devagar por aqui pode ver quanto ganha um ciclista profissional nos diferentes níveis do esporte.

Para Fossati, o problema é o mesmo que Bernardinho aponta no vôlei: a base. Ele mencionou ter visto no alto do Alpe d’Huez algo que nunca viu no Brasil, aulas de bicicleta para crianças de 4 e 5 anos, com obstáculos montados na estação de esqui desativada pelo verão. “No Brasil a bicicleta fica sendo apenas um brinquedo para criança”, disse. “Depois esquece a bicicleta.”

A aposta que ele defende é o Racing for Change, projeto criado em 2022 pela equipe que hoje se chama NSN e que em Ruanda construiu um centro de ciclismo projetado para atender até 120 mil jovens de 6 a 18 anos. A versão brasileira, com Murilo Fischer como embaixador, deve começar no segundo semestre apoiando escolinhas que já existem, e prevê até ensino de idiomas, porque quem se destacar vai precisar sair do país.

A conta que ele faz antes de escolher a estrada

O trecho final voltou para o Brasil real, e para uma decisão que todo ciclista de estrada brasileiro reconhece.

Perto de onde mora, Fossati tem duas rotas de treino. A melhor tecnicamente é mais estreita, tem menos movimento e as subidas mais duras. Ele não treina nela. Conhece o perfil de quem dirige por ali: caminhonetes antigas e largas, motoristas que não gostam de sair do centro da pista, visibilidade curta por causa do sobe e desce. Foi exatamente nessa estrada que ele foi atropelado, por um reboque que balançou e o jogou longe. “O cara nem viu que me atropelou.”

A recomendação dele é menos heroica e mais aritmética: se existe outra estrada, vá para a outra estrada. “Não dá de herói”, resumiu. Vale também o hábito que ele adotou de sinalizar para o motorista, mostrar que percebeu o carro atrás, abrir passagem quando dá. Comunicação desarma. O portal reuniu o que a lei garante e o que depende do ciclista no guia de segurança no trânsito.

O que isso ensina sobre alta performance

À esquerda, Felipe Fossati com a credencial no painel oficial do Tour de France; à direita, ele de bicicleta diante do Arco do Triunfo, em Paris
A credencial que dá acesso à caravana e a passagem por Paris, onde o Tour termina. Fotos: arquivo pessoal

O episódio inteiro converge para uma ideia que serve muito além do ciclismo: no alto rendimento moderno, a informação deixou de ser vantagem competitiva. O paper está aberto, o protocolo está publicado, o vídeo do treino está no YouTube. O que continua escasso é a disciplina de aplicar todo dia, no detalhe, sem plateia.

O Tour funciona porque 50 pessoas cumprem um horário que ninguém fiscaliza. O ciclista chega ao topo porque controlou a temperatura do quarto, o carboidrato por hora e a hora de dormir, não porque descobriu um segredo. E o atleta amador que quer evoluir não precisa de acesso privilegiado, precisa parar de tratar como frescura o que a ciência já resolveu.

Perguntado no fim do episódio o que significa chegar ao topo, Fossati recusou a resposta óbvia. “O topo é aberto. Eu defino o que é o topo”, disse, citando no mesmo fôlego a filha que completava 18 anos naquele dia e a defesa do memorial que o levará a professor titular. Ele nunca viveu só de ciclismo, mas garante ter tido atitude profissional por muitos anos. “Não necessariamente eu preciso correr um Tour de France para ter uma atitude profissional.”

Assista ao episódio completo

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