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1h59min40s: como Kipchoge quebrou o limite da corrida

Este texto é uma adaptação da edição de 2026 de agosto de 19 da Atleta Pro News, a newsletter gratuita que chega três vezes por semana pra quem leva esporte de alto desempenho a sério.

Em 12 de outubro de 2019, Eliud Kipchoge entrou numa pista fechada no Prater, em Viena, e percorreu 42,195 quilômetros em 1h59min40s: o primeiro ser humano a cruzar a barreira das duas horas numa maratona completa. Quarenta e um pacers em formação de V, tênis com placa de carbono e um carro projetando o ritmo com laser tornaram possível o que a fisiologia do esporte classificava como inalcançável. Fora das pistas, Roger Federer perdeu US$ 52 milhões em poucas horas com a queda das ações da On Holding, João Fonseca desistiu de Cincinnati com lesão no abdômen e o mercado da Fórmula 1 começou a redesenhar o grid para 2027.

1h59min40s: a barreira que caiu em Viena

Eliud Kipchoge nos metros finais do INEOS 1:59 Challenge, em Viena
Kipchoge nos metros finais do INEOS 1:59 Challenge, em Viena (2019) | Foto: Wikimedia Commons / CC

Antes de Viena, o próprio Kipchoge já tinha tentado o sub-2 horas. Em maio de 2017, no projeto Breaking2 da Nike, ele percorreu a maratona em 2h00min25s, chegando a apenas 25 segundos da marca histórica. O resultado não foi reconhecido pela World Athletics pelas mesmas razões que invalidariam Viena dois anos depois: condições controladas, pacers intercambiáveis e ausência de competição aberta.

Kipchoge já era dono do recorde mundial oficial com 2h01min39s, cravado em Berlim em setembro de 2018. A diferença de 1min39s pode parecer pequena em termos de relógio, mas na fisiologia da corrida ela representa uma intensidade que os modelos científicos da época classificavam como além da capacidade humana sustentada por mais de 42 quilômetros.

A Ineos bancou a segunda tentativa em Viena, e nada foi deixado ao acaso. Quarenta e um pacers se revezavam em formação de V para cortar o vento ao redor de Kipchoge, enquanto um carro com laser projetava o ritmo exato no asfalto e a hidratação chegava por bicicleta, sem que ele perdesse um segundo de passada. O percurso, a Hauptallee, tinha apenas 2,4 metros de desnível em toda a extensão, e a temperatura foi calibrada entre 9°C e 14°C.

A façanha foi completada com Kipchoge levantando os braços e sorrindo, um gesto incomum nos metros finais de uma maratona. O tempo: 1h59min40s. Uma margem de 20 segundos dentro de uma barreira que a humanidade levou décadas tentando quebrar.

A World Athletics nunca reconheceu o tempo como recorde oficial. Os pacers intercambiáveis e a ausência de competição formal retiram a validade da marca para os livros do atletismo. O recorde oficial seguiu com o próprio Kipchoge: primeiro os 2h01min39s de Berlim 2018, depois rebaixados pelo queniano para 2h00min35s na mesma cidade, em 2023.

O que mudou para o atletismo mundial foi mais difícil de quantificar. Tênis com placa de carbono viraram padrão em todos os níveis de competição. A barreira psicológica que freava corredores de elite desapareceu. E cada nova temporada de grandes maratonas chega com marcas que, dez anos antes, seriam descartadas como fisicamente impossíveis. O limite, como Kipchoge demonstrou naquela manhã em Viena, era mental.

O que aconteceu no esporte

Roger Federer, dono de 3% da On Running
Federer construiu a maior parte da fortuna fora das quadras | Foto: Reprodução / Atleta Pro

Federer perde e recupera o status de bilionário

No dia 11 de agosto, as ações da On Holding caíram 19% após um resultado trimestral abaixo da expectativa do mercado. Em poucas horas, a fatia de 3% que Roger Federer tem na marca suíça de tênis perdeu cerca de US$ 52 milhões em valor. A Forbes recalculou o patrimônio do suíço para US$ 952,4 milhões, abaixo da linha de bilionário que ele tinha cruzado em agosto de 2025, conforme detalha o portal do Atleta Pro.

O número que revela a dimensão do negócio fora das quadras: os US$ 130,6 milhões que Federer acumulou em 24 anos de prêmios em torneios representam menos de um terço do que só essa participação na On chegou a valer, mais de US$ 375 milhões no pico. Somando contratos como Nike (US$ 150 milhões em 21 anos) e Uniqlo (US$ 300 milhões), o suíço, aposentado desde 2022, segue entre os atletas mais ricos do planeta.

João Fonseca durante jogo no Masters 1000 de Cincinnati 2026
Fonseca venceu a estreia em Cincinnati antes de sentir o abdômen | Foto: Reprodução / CNN Brasil

Fonseca desiste de Cincinnati com lesão no abdômen

João Fonseca estreou bem em Cincinnati: bateu o holandês Botic van de Zandschulp por 6/4, 7/6(7-2) em 16 de agosto e chegou à 10ª vitória em Masters 1000 na temporada de 2026, igualando a marca histórica de Guga Kuerten em 2003.

No dia seguinte, o brasileiro sentiu um incômodo no lado esquerdo do abdômen durante o treino e preferiu não arriscar contra o australiano Christopher O’Connell pela terceira rodada. É o quinto torneio perdido por lesão em 2026. A prioridade agora é chegar inteiro ao US Open, que começa em 30 de agosto, conforme apurou a CNN Brasil.

Corredores na Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro 2026
A Meia Maratona do Rio reuniu milhares de corredores entre Leblon e o Aterro | Foto: Reprodução / oglobo.globo.com

Fábio Correia supera africanos e vence a Meia do Rio

A 28ª edição da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro reuniu milhares de corredores no domingo, 16 de agosto, com largada no Leblon e chegada no Aterro do Flamengo. O vencedor foi o brasileiro Fábio Jesus Correia, com 1h01min53s: melhor marca da carreira.

Correia superou de ponta a ponta o queniano Felix Mursoi Kurui (1h02min05s) e o ugandense Paul Simotwo Korir (1h02min08s). O resultado coloca o carioca na liderança do ranking nacional de meia maratona em provas de rua, de acordo com a Gazeta Esportiva.

Radar do Esporte

Max Verstappen pela Red Bull antes do GP da Holanda 2026
Verstappen na pista antes do GP da Holanda, em Zandvoort | Foto: Reprodução / grandepremio.com

Verstappen fica na Red Bull, grid de 2027 começa a tomar forma

Com o paddock reunido de volta em Zandvoort após a pausa de verão europeu, o mercado de pilotos para 2027 ganhou ritmo. Max Verstappen encerrou as especulações: afirmou que pretende cumprir o contrato com a Red Bull, válido até 2028. Nomes como Mercedes e McLaren foram descartados pelo holandês como destino a curto prazo.

Fernando Alonso avalia se renova com a Aston Martin ou pendura o capacete. Williams deve manter Sainz e Albon, a Alpine segue com Colapinto e Gasly e a Cadillac deve confirmar a dupla Pérez e Bottas. Na Haas, o brasileiro Rafael Câmara, da academia da Ferrari, desponta como favorito para herdar a vaga de Esteban Ocon, de acordo com o Autoracing.

Carro da Stock Car Pro Series com a marca Bradesco na pista
Carro com a marca do Bradesco, novo patrocinador máster da categoria | Foto: Reprodução / Band

Bradesco assume e Globo sai da Stock Car após 26 anos

A categoria mais tradicional do automobilismo brasileiro troca de naming rights: o Bradesco assume o título da série até 2027, batizando a competição de Bradesco Stock Car Pro Series no lugar do BRB. A Mercado Livre foi além e criou equipe própria, a Mercado Livre Racing, revendendo cotas publicitárias pela sua plataforma de anúncios.

A mudança mais sentida foi na televisão: depois de 26 anos, o Grupo Globo não renovou os direitos de transmissão. A Band passa a ser exclusiva na TV aberta, e as corridas migram parcialmente para o YouTube. A categoria também perdeu patrocinadores históricos de combustível, como Ipiranga (17 anos de parceria) e Shell. O sinal é claro: o dinheiro do automobilismo brasileiro migrou da audiência de TV para o engajamento digital, conforme apontou o AutoPapo.

Mercado de suplementos esportivos mira US$ 219 bilhões até 2034

O mercado global de suplementos esportivos deve saltar de US$ 109,2 bilhões em 2026 para US$ 219,33 bilhões até 2034, crescimento de 9,11% ao ano. No Brasil, o setor já movimentava US$ 4,62 bilhões em 2024 e cresce 9,5% ao ano, de acordo com análise publicada no Mega Suplementos. O consumidor mudou de perfil: rastreabilidade, laudo de qualidade e indicação de profissional pesam mais do que o preço na prateleira, abrindo espaço para marcas premium de nicho em detrimento da informalidade.

Insight de Performance

A parte mais inteligente do INEOS 1:59 Challenge não foram as pernas de Kipchoge: foi o sistema montado ao redor delas. Pacers revezando em formação de V, hidratação programada, ritmo marcado por laser. Cada decisão que ele precisaria tomar no meio da corrida já tinha sido resolvida antes da largada. Sobrou para ele uma única tarefa: executar. Disciplina de elite não é aguentar mais dor no momento decisivo, é ter planejado tudo antes, para sobrar menos decisão no meio do percurso.

O princípio vale para quem treina sem equipe de elite. O corredor amador que define o pace na hora, sob pressão da prova, gasta energia mental que deveria ir para as pernas. Definir faixas de pace, plano de hidratação e estratégia de corrida com antecedência retira a dúvida do caminho antes que ela apareça. Kipchoge provou que o limite estava na cabeça: o seu treino também pode começar por lá.

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Diogo Moraes

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