ARTIGOS E NOTÍCIAS ATLETA PRO

Roger Federer virou bilionário com 3% de uma marca de corrida

Roger Federer executa um forehand durante treino, em close, com a bola próxima à raquete

Na manhã de 11 de agosto de 2026, Roger Federer deixou de ser bilionário. Não perdeu um torneio, não rompeu contrato, não vendeu nada. As ações da On Holding, a fabricante suíça de calçados em que ele investiu sete anos antes, despencaram 19% depois de um balanço abaixo do esperado, e o patrimônio do suíço, calculado em tempo real pela Forbes, caiu para US$ 952,4 milhões. Cerca de US$ 52 milhões evaporaram antes do almoço.

O episódio explica melhor do que qualquer manchete como o dinheiro de Federer é construído hoje. Ele acumulou US$ 130.594.339 em prêmios ao longo de 24 anos de circuito, o terceiro maior valor da história do tênis. E isso representa menos de 12% de tudo que ganhou na vida. O que levou Roger Federer ao clube dos bilionários não foi a raquete: foi uma fatia de aproximadamente 3% de uma empresa que quase ninguém conhecia em 2019.

A conta que a raquete nunca fecharia

Prêmio de torneio nunca faria de Federer um bilionário, e ele entendeu isso cedo.

Os US$ 130,6 milhões de premiação da carreira ficam atrás apenas de Novak Djokovic (cerca de US$ 189 milhões) e de Rafael Nadal (cerca de US$ 135 milhões). Federer se aposentou em 2022 como o terceiro maior ganhador de prêmios da história do esporte, e ainda assim esse é o menor número da planilha dele.

Fora da quadra, a Forbes estima que Federer arrecadou cerca de US$ 1 bilhão em contratos, aparições e negócios, antes de impostos e comissões. Ele foi o tenista mais bem pago do mundo por 16 anos seguidos, até parar. Em 2020 liderou a lista geral dos atletas mais bem pagos do planeta, com US$ 106,3 milhões, o único ano em que terminou em primeiro. Para efeito de comparação, veja quanto ganha Novak Djokovic fora da quadra, o tenista que hoje ocupa o posto que era dele.

LinhaValor estimadoO que é
Prêmios em quadraUS$ 130,6 milhõesReceita acumulada entre 1998 e 2022
Fora da quadraCerca de US$ 1 bilhãoContratos, aparições e negócios, antes de impostos
Contrato NikeCerca de US$ 150 milhõesVinte anos de vínculo, encerrado em 2018
Contrato UniqloUS$ 300 milhõesDez anos, assinado em 2018
Fatia na OnMais de US$ 375 milhõesValor da participação em agosto de 2025

Os 21 anos de Nike e o cheque de US$ 300 milhões

A primeira grande decisão financeira de Federer foi trocar a marca mais poderosa do esporte por quem pagava mais.

Roger Federer devolve a bola de backhand usando uniforme Nike em Indian Wells
Federer vestiu Nike por 21 anos. A Forbes estima que o vínculo rendeu cerca de US$ 150 milhões em duas décadas. Foto: Mike McCune (CC BY 2.0), via Wikimedia Commons.

O contrato venceu em março de 2018. A Nike teve a chance de cobrir a proposta concorrente e recusou. Em julho daquele ano, Federer entrou na quadra central de Wimbledon vestindo Uniqlo, e a foto correu o mundo.

O acordo com a marca japonesa: dez anos e mais de US$ 300 milhões, com uma cláusula que garantia o valor integral mesmo que ele parasse de jogar antes do fim do contrato. Federer tinha 36 anos quando assinou e pendurou a raquete quatro anos depois, em 2022. O contrato segue rodando.

Roger Federer de camisa preta da Uniqlo durante treino no US Open
A troca da Nike pela Uniqlo, em 2018, rendeu US$ 300 milhões por dez anos e o direito de vender espaço na própria camisa. Foto: Carine06 (CC BY-SA 2.0), via Wikimedia Commons.

O detalhe menos comentado é outro. A Uniqlo liberou a venda de patches no uniforme, algo que a Nike não permitia. Na prática, Federer passou a poder vender o próprio peito em pedaços, o que empurra o valor real do contrato para cima do número anunciado.

Tony Godsick, empresário dele há mais de duas décadas, conta a saída de um jeito diferente da versão popular. “A Nike meio que o deixou”, afirmou. “A gente estava tentando renovar, e eles escolheram não renovar.” Vale lembrar que a marca americana raramente age por pedido: entenda como funciona o patrocínio da Nike e por que ela procura o atleta, e não o contrário.

2019: quando ele trocou patrocínio por participação

A virada patrimonial de Federer aconteceu no dia em que ele parou de aceitar dinheiro de marca e passou a aceitar pedaço de empresa.

A história começa banal. Mirka, mulher de Federer, passou a usar tênis de uma marca suíça pequena. Ele procurou os fundadores, Olivier Bernhard, David Allemann e Caspar Coppetti. Bernhard tinha sido triatleta profissional. As conversas entre compatriotas viraram negócio.

Em novembro de 2019, Federer ficou com aproximadamente 3% da companhia. A imprensa especializada estima que ele desembolsou perto de US$ 50 milhões pela fatia, número nunca confirmado oficialmente pela empresa nem por ele.

O que não é estimativa é a natureza do acordo. Não era patrocínio. Bernhard descreveu na época como algo que “não é o patrocínio tradicional de atleta”. Federer entrou para trabalhar: assinou a linha THE ROGER, de tênis inspirados na quadra, que deu à marca o primeiro empurrão grande fora do universo da corrida, e participou do desenvolvimento do calçado de jogo.

Em setembro de 2021, a On abriu capital na Bolsa de Nova York avaliada em cerca de US$ 11 bilhões. Em agosto de 2025, com a empresa valendo perto de US$ 15 bilhões e as ações 86% acima do preço de estreia, a Forbes cravou o número: a fatia de Federer valia mais de US$ 375 milhões, e o patrimônio dele chegava a US$ 1,1 bilhão.

Uma participação comprada em 2019 passou a valer quase o triplo de tudo que ele ganhou em prêmios em 24 anos de circuito.

Team8, Laver Cup e o resto do portfólio

A On é o ativo maior, mas está longe de ser o único.

Em 2013, ainda em atividade, Federer fundou a Team8 ao lado de Godsick, Ian McKinnon e Dirk Ziff. A empresa administra atletas, assessora marcas e, principalmente, criou e controla a Laver Cup, o torneio no formato Europa contra Resto do Mundo que estreou em 2017 e entrou no calendário oficial da ATP. A Forbes projetava receita acima de US$ 20 milhões para a edição de 2025.

Federer também entrou como investidor na NotCo, empresa chilena de alimentos à base de plantas, na rodada Série D de 2021, que levantou US$ 235 milhões e avaliou a companhia em US$ 1,5 bilhão.

E a lista de marcas ativas continua longa: Rolex, Mercedes-Benz, Lindt, Moët & Chandon, NetJets, Oliver Peoples e o UBS, banco que comprou o Credit Suisse em 2023 e herdou o contrato. O vínculo com a Rolex, aliás, é um dos mais antigos do circuito, e aparece no levantamento dos relógios que os tenistas usam em quadra.

O dia em que o bilhão evaporou

Patrimônio que mora em ação não se comporta como salário, e a semana passada deixou isso explícito.

Em 11 de agosto de 2026, a On divulgou o resultado do segundo trimestre: vendas líquidas de 850,4 milhões de francos suíços (cerca de US$ 1,04 bilhão), alta de 13% sobre o mesmo período do ano anterior, mas abaixo dos 878,4 milhões de francos que o mercado esperava. A projeção de vendas para o ano inteiro, entre 3,47 e 3,56 bilhões de francos, também ficou ligeiramente aquém das estimativas.

A ação chegou a cair 22% durante o pregão, o pior dia da história da companhia, e a queda se firmou perto de 19%. O patrimônio de Federer, medido em tempo real pela Forbes, foi para US$ 952,4 milhões.

O detalhe que a manchete não conta: o trimestre não foi ruim. A On registrou lucro líquido de 105 milhões de francos, contra prejuízo de 40,9 milhões um ano antes, e margem bruta de 65,4%, acima dos 61,5% do período anterior. O mercado puniu a desaceleração do crescimento nas Américas, não a saúde do negócio.

Na semana seguinte a ação subiu 6,8%, mas ainda acumula queda de cerca de 32% em doze meses. Na prática, Federer transita em torno da linha do bilhão conforme o pregão. Ele não vendeu, não gastou, não fez nada. O número muda sozinho todo dia.

Os sete atletas que chegaram ao bilhão

Federer entrou em um grupo pequeno. Pela contagem da Forbes, sete atletas cruzaram a marca de US$ 1 bilhão em patrimônio.

AtletaEsportePatrimônio
Michael JordanBasqueteUS$ 3,8 bilhões
Ion TiriacTênisUS$ 2,3 bilhões
Magic JohnsonBasqueteUS$ 1,5 bilhão
Junior BridgemanBasqueteUS$ 1,4 bilhão
Tiger WoodsGolfeUS$ 1,3 bilhão
LeBron JamesBasqueteUS$ 1,2 bilhão
Roger FedererTênisUS$ 1,1 bilhão

A lista pede duas ressalvas. Ion Tiriac, romeno, foi tenista e jogador de hóquei, mas construiu a fortuna fora do esporte: montou o primeiro banco privado da Romênia depois de 1990 e cresceu com concessionárias, leasing e seguros. Junior Bridgeman, ex-Milwaukee Bucks, ficou bilionário com centenas de restaurantes de fast food e com engarrafamento de Coca-Cola, e morreu em março de 2025, aos 71 anos.

Federer é o caso mais direto de atleta que virou bilionário usando o próprio nome como moeda de entrada em um negócio, e não como garoto-propaganda dele.

O que isso ensina sobre alta performance

A lição não é “invista em startup”. É mais dura que isso, e serve para atleta de qualquer nível.

Cachê e participação são jogos diferentes. Cachê paga pelo tempo e pela imagem do atleta hoje. Participação paga pelo que aquele nome constrói na empresa ao longo de anos. Federer passou duas décadas recebendo cachê e virou bilionário na primeira vez que aceitou receber em pedaço de negócio. O contrato de US$ 300 milhões com a Uniqlo é maior em números absolutos que a fatia na On, e mesmo assim foi a fatia que mudou o patamar dele.

O segundo ponto é o que estava sendo vendido. A On não comprou audiência de Federer, comprou credibilidade técnica em calçado esportivo, construída ao longo de 24 anos de circuito e conservada com um comportamento público sem crise. Reputação é ativo lento: leva uma carreira para acumular e uma temporada para queimar. É o único ativo que o atleta amador e o profissional constroem exatamente da mesma forma, entregando o combinado, ano após ano, com quem confiou nele. O caminho de Kelly Slater fora da prancha segue a mesma lógica: virar sócio, não apenas rosto.

E o terceiro ponto é o preço de tudo isso. Quem troca cachê por participação troca previsibilidade por exposição. Federer perdeu US$ 52 milhões em uma manhã sem cometer um erro sequer, porque o mercado americano da On cresceu menos que o esperado. Cachê é salário, participação é risco. Ele escolheu o risco na hora certa, com a marca certa, e por isso a conta fechou.

Perguntas frequentes

Como Roger Federer virou bilionário?
Principalmente por uma participação de aproximadamente 3% na On Holding, marca suíça de calçados esportivos, comprada em 2019 e valorizada depois da abertura de capital em 2021. A Forbes declarou Federer bilionário em agosto de 2025, com US$ 1,1 bilhão.

Quanto Roger Federer ganhou em prêmios na carreira?
US$ 130.594.339, segundo o perfil oficial dele na ATP. É o terceiro maior valor da história do tênis, atrás de Novak Djokovic e Rafael Nadal, e representa menos de 12% do que ele arrecadou na carreira.

Roger Federer ainda é bilionário?
Depende do dia. Em 11 de agosto de 2026, a queda de 19% das ações da On levou o patrimônio dele a US$ 952,4 milhões, abaixo da marca de US$ 1 bilhão. Como quase metade da fortuna está em ações, o número oscila com o mercado.

Quanto vale o contrato de Federer com a Uniqlo?
Mais de US$ 300 milhões por dez anos, assinado em 2018, com cláusula que garante o pagamento integral mesmo depois da aposentadoria dele, em 2022.

Federer é dono da Laver Cup?
A Laver Cup foi criada e é controlada pela Team8, empresa que ele fundou em 2013 com o empresário Tony Godsick e os investidores Ian McKinnon e Dirk Ziff. O torneio estreou em 2017 e integra o calendário da ATP.

Sua carreira esportiva também pode ser tratada como um ativo

Conheça a Atleta Pro Academy e aprenda a construir performance, reputação e patrocínio com método.

Conhecer a Atleta Pro Academy

Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

Compartilhe:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Quer receber conteúdos como esse direto no seu e-mail?

Clique no botão abaixo e inscreva-se na Newsletter do Atleta.

Atleta Pro News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados:

Maria Bueno em quadra durante partida de tênis

Maria Esther Bueno: o legado que Fonseca herda em Cincinnati

Em 1959, Maria Esther Bueno venceu Wimbledon aos 19 anos sem nenhuma brasileira pra copiar o caminho. Em agosto de 2026, João Fonseca iguala Guga Kuerten em Cincinnati e herda esse legado. A edição traz ainda Ítalo Ferreira assumindo a liderança da WSL e Jakob Ingebrigtsen de volta com ouro no Europeu após 11 meses fora.

Leia agora »