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Alison dos Santos bate o recorde mundial com 45s80 em Zurique

Alison dos Santos cruza a linha de chegada em 45s80 e bate o recorde mundial dos 400 m com barreiras em Zurique

O relógio do Letzigrund parou em 45s80 e o atletismo brasileiro recuperou algo que não tinha havia 51 anos: um recorde mundial. Na noite desta quinta-feira (27), na etapa de Zurique da Liga Diamante, Alison dos Santos correu os 400 metros com barreiras mais rápidos da história e tirou 14 centésimos da marca que Karsten Warholm havia cravado na final olímpica de Tóquio, em 2021.

Não foi uma corrida apertada. Warholm, dono do recorde por cinco anos e o rival que Alison persegue desde 2019, cruzou em segundo com 46s69, quase nove décimos atrás. O nigeriano Ezekiel Nathaniel completou o pódio com 47s50.

A prova: a diferença apareceu na metade

Alison largou atrás do norueguês na compensação das raias e anulou a vantagem antes da metade do percurso. Dali em diante, só abriu. Segundo o relatório oficial da World Athletics, o brasileiro alcançou Warholm na metade da prova e seguiu ampliando a distância até a linha.

“A torcida e a energia estavam perfeitas”, disse Alison. “Essa noite foi incrível para mim e para todo mundo que veio assistir, e para quem estava vendo de casa. Espero que o Brasil tenha parado para ver.”

O tempo de Warholm, 46s69, segue sendo um dos mais rápidos já registrados na prova. Só que a noite era do brasileiro.

Alison dos Santos aponta para o painel do Letzigrund que mostra o novo recorde mundial de 45.80 nos 400 m com barreiras
O painel do Letzigrund confirma o recorde mundial: 45.80. Foto: Getty Images

45s80: um número que reorganiza a prova

A melhor marca de Alison antes de Zurique era 46s29, do título mundial de Eugene, em 2022. Ele tirou 49 centésimos do próprio recorde pessoal em uma única corrida, o tipo de salto que praticamente não acontece nessa altura da carreira de um velocista.

Com 45s80, Alison passa a ser o homem mais rápido da história nos 400 m com barreiras. Ele e Warholm, com 45s94, são os dois únicos que já correram a prova abaixo dos 46 segundos. O americano Rai Benjamin, terceiro da lista de todos os tempos, tem 46s17. Os três dividem entre si as 34 melhores marcas já registradas.

A corrida ainda rendeu recorde da Liga Diamante e recorde da etapa de Zurique de uma vez só, além de um bônus de US$ 80 mil pago pela competição a quem quebra recorde mundial.

Veja o momento do recorde no perfil oficial da Wanda Diamond League

A rivalidade que empurrou a prova em cinco anos

Para entender o tamanho de 45s80, vale olhar onde essa prova estava há pouco tempo. Entre 1992 e 2021, o recorde mundial dos 400 m com barreiras foram os 46s78 que o americano Kevin Young fez na final olímpica de Barcelona. Ficou 29 anos de pé, sem ninguém chegar perto.

Warholm derrubou a marca em julho de 2021, com 46s70 em Oslo. Um mês depois, na final olímpica de Tóquio, a prova virou de cabeça para baixo: o norueguês fez 45s94, Rai Benjamin cravou 46s17 e Alison, em terceiro, marcou 46s72. Três homens correram abaixo do recorde de Young na mesma corrida, e dois deles ficaram fora do topo do pódio.

De lá para cá, o trio se revezou empurrando o limite. Alison levou o ouro mundial de Eugene em 2022 com 46s29. Benjamin ficou com o título olímpico de Paris em 2024. Warholm seguiu como o homem a ser batido. Em cinco anos, a prova andou 98 centésimos, uma barbaridade para uma distância em que ganhos costumam ser contados de dois em dois centésimos.

O que Alison fez em Zurique foi fechar esse ciclo do lado brasileiro. Ele entrou nessa disputa como o terceiro nome e saiu dela como o primeiro.

A noite em que Zurique teve dois recordes mundiais

O recorde de Alison abriu a sequência, e menos de 40 minutos depois veio o segundo. A americana Masai Russell correu os 100 m com barreiras em 12s09 e tirou três centésimos do recorde mundial que pertencia à nigeriana Tobi Amusan. Amusan foi a segunda, com 12s23, e a holandesa Nadine Visser ficou em terceiro, com 12s34.

Russell contou que a corrida do brasileiro mudou a leitura dela sobre a noite. “Quando ouvi que o Alison dos Santos tinha quebrado o recorde mundial, isso confirmou que a pista estava quente. Peguei muita motivação com ele, com certeza.”

O resto do programa acompanhou. No salto com vara, Mondo Duplantis passou 6,25 m, melhor marca do ano ao ar livre, enquanto o grego Emmanouil Karalis fez 6,20 m e bateu o recorde nacional. Nos 800 m, a suíça Audrey Werro venceu em casa com 1min53s70, novo recorde da Liga Diamante. Foi a última etapa da temporada regular do circuito.

O ano em que Piu virou velocista

2026 é um ano sem Olimpíada e sem Campeonato Mundial no calendário tradicional do atletismo. Foi exatamente por isso que Alison e o treinador Felipe de Siqueira decidiram usar a temporada para atacar o que faltava: velocidade pura.

O plano apareceu primeiro nos 400 metros rasos, sem barreira nenhuma. Em abril, Alison correu 44s38, a segunda melhor marca da história do Brasil na distância. Em julho, no Troféu Brasil, no Ibirapuera, ele bateu o recorde da competição duas vezes em dois dias: 44s76 na semifinal e 44s60 na final, derrubando os 44s82 que Sanderlei Parrela tinha feito em 1999. Foi o primeiro título individual dele na competição nacional, sete anos depois da última vez que havia pisado em uma pista brasileira.

Quatro dias antes de Zurique, na etapa da Silésia, na Polônia, ele venceu com 46s43. O próprio Alison avaliou que tinha errado quase tudo naquela corrida e que, executando direito, o recorde viria.

“Mudamos muita coisa no treino e nas corridas”, disse ele em Zurique. “Estou começando mais rápido e terminando mais forte, e era isso que eu precisava fazer para quebrar um recorde mundial.”

Alison dos Santos comemora o recorde mundial dos 400 m com barreiras segurando as sapatilhas no estádio Letzigrund, em Zurique
A comemoração de Alison dos Santos no Letzigrund após os 45s80. Foto: AFP

De São Joaquim da Barra ao topo da história

Alison Brendom Alves dos Santos nasceu em 3 de junho de 2000, em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, e defende o Pinheiros. O apelido Piu vem de casa e virou marca registrada no circuito internacional.

A carreira dele tem uma curva pouco comum. Ouro no Pan de Lima, em 2019. Bronze na final olímpica de Tóquio, em 2021. Campeão mundial em Eugene, em 2022, com os 46s29 que foram o recorde pessoal dele por quatro anos. Em fevereiro de 2023, uma cirurgia no menisco do joelho direito tirou meses da preparação e ele terminou o Mundial de Budapeste em quinto, depois de bater em duas barreiras. Voltou ao pódio olímpico com o bronze de Paris, em 2024, e ficou com a prata no Mundial de Tóquio, em 2025.

Agora, aos 26 anos, é o dono da prova.

51 anos depois de João do Pulo

O último recorde mundial do atletismo brasileiro tinha data de 1975. Foi quando João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, saltou 17,89 m no salto triplo durante os Jogos Pan-Americanos da Cidade do México. Aquela marca resistiu por dez anos.

De lá para cá, o Brasil colecionou medalhas olímpicas e títulos mundiais no atletismo, de Vanderlei Cordeiro de Lima em Atenas em diante, mas nenhum atleta havia voltado a ser dono de um recorde mundial. Alison encerrou a espera.

Na zona mista, ele fez questão de dividir o crédito.

“Eu estava procurando o meu treinador assim que cruzei a linha de chegada. Eu era quem estava correndo, mas ele é quem tornou isso possível. Ele acreditou em mim quando eu era mais novo e me ajudou a evoluir como atleta e como pessoa.”

O que vem agora

A temporada não acabou. A final da Liga Diamante acontece em Bruxelas na semana seguinte a Zurique, e logo depois vem o World Athletics Ultimate Championship, marcado para Budapeste entre 11 e 13 de setembro. Atenção ao nome: essa competição não é o Campeonato Mundial de Atletismo, que é bienal e volta a ser disputado em Pequim, em 2027.

Warholm, que perdeu o recorde mas segue sendo o adversário mais difícil do circuito, tem as duas datas para responder.

O que isso ensina sobre alta performance

Alison não ganhou 49 centésimos com um ajuste de última hora. Ele ganhou em um ano sem grande campeonato, quando não havia medalha em jogo e quase ninguém estava olhando. A temporada considerada vazia no calendário virou a temporada em que ele reconstruiu a base de velocidade nos 400 rasos. O recorde de agosto foi pago em abril.

A frase dele resume o método: começar mais rápido e terminar mais forte. Não é uma correção pontual em uma barreira específica, é ganho nas duas pontas da prova, o que só aparece quando o trabalho é de base e não de retoque. É a mesma lógica que aparece em toda quebra de barreira histórica no atletismo: o limite cai quando alguém trata o teto atual como um problema de execução, não como um dado da natureza.

Vale guardar também um detalhe de Tóquio 2021. Naquela final, Alison fez 46s72 e terminou em terceiro. Aquele tempo teria sido recorde mundial em qualquer dia dos 29 anos anteriores, quando os 46s78 de Kevin Young ainda mandavam na prova. Ele saiu do pódio olímpico com um bronze e a informação de que o teto tinha subido. Levou cinco anos para chegar do outro lado.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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