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Netflix aposta em evento, não em temporada: 21,7 milhões na NFL

Melbourne Cricket Ground lotado durante o jogo da NFL em Melbourne, com telão exibindo a marca da liga

A Netflix tem 21,7 milhões de motivos para continuar fazendo o que faz no esporte. Foi esse o público global do jogo entre Los Angeles Rams e San Francisco 49ers em Melbourne, no dia 10 de setembro, com média de 18,5 milhões de espectadores só nos Estados Unidos e pico de 21,3 milhões. Na Austrália, foi a partida de futebol americano mais vista da história do país.

E ainda assim a Netflix não quer comprar a temporada da NFL. A empresa quer cinco jogos. Cinco, em uma liga que entrega mais de 270 partidas por ano. A escolha não é falta de dinheiro: é uma tese sobre o que streaming faz bem e o que não faz.

Os cinco jogos que a Netflix comprou em 2026

O calendário da temporada 2026 é curto e todo ele cai em data marcada. Melbourne abriu a conta em 10 de setembro. Em 25 de novembro vem o primeiro jogo da véspera de Ação de Graças da história da NFL, com os Green Bay Packers visitando os Rams no SoFi Stadium.

No Natal são dois: Packers contra Chicago Bears, às 13h no horário do leste americano, e Buffalo Bills contra Denver Broncos, às 16h30. Vale a correção, porque a data tem três jogos: o terceiro, Rams contra Seattle Seahawks, é da FOX, não da Netflix. Fecha a lista um confronto da semana 18, ainda indefinido, e o NFL Honors durante a semana do Super Bowl de 2027.

Tudo isso vai para mais de 200 países, com transmissão em inglês, francês, espanhol, português e alemão.

Cerimônia de abertura do jogo da NFL em Melbourne com jogadores do San Francisco 49ers ao fundo
Cerimônia de abertura do jogo de Melbourne, que teve 21,7 milhões de espectadores globais na Netflix. Foto: Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (Cpl. Caleb Goodwin), domínio público.

“Grandes acontecimentos”: a doutrina de Bela Bajaria

Bela Bajaria, diretora de conteúdo da Netflix, resumiu a lógica em entrevista à CNBC Sport: a empresa seleciona ocasiões que funcionem como grandes acontecimentos dentro da plataforma. O critério não é volume de jogos, é relevância cultural e conversa.

A executiva disse ainda que a Netflix olharia com interesse um pacote de jogos internacionais da NFL, caso a liga abra essa fatia quando renegociar seus direitos. Já um pacote extenso e semanal, do tipo Sunday Night Football, está fora do radar.

A diferença entre as duas coisas é o coração da estratégia. Jogo internacional é evento: acontece poucas vezes por ano, em fuso esquisito, e cada um vira notícia sozinho. Temporada é rotina: 18 domingos seguidos, hábito, e uma conta de produção que roda o ano inteiro.

O teste dos 41 milhões veio do boxe

A Netflix não chegou nessa tese por teoria. Em 13 de setembro de 2025, a luta entre Terence Crawford e Canelo Álvarez fez 41,4 milhões de espectadores globais na plataforma, com pico de 24 milhões de streams simultâneos e 20,3 milhões vindos dos Estados Unidos. A luta principal teve 36,6 milhões acompanhando ao vivo. O evento foi o número 1 da Netflix em 30 países.

Uma noite. Um evento. Números que nenhuma rodada de temporada regular entrega.

É esse o padrão que a empresa persegue: o conteúdo que junta quem assiste a esporte com quem não assiste, gera conversa fora da plataforma e aparece no noticiário do dia seguinte. A NFL em Melbourne gerou mais de 340 milhões de impressões e 14,5 milhões de interações nos canais sociais da Netflix e da liga.

A Copa Feminina de 2027 é no Brasil, mas a Netflix comprou os Estados Unidos

No futebol, a Netflix já tem a peça mais valiosa do próximo ciclo: os direitos exclusivos nos Estados Unidos da Copa do Mundo Feminina de 2027 e de 2031. O acordo com a FIFA foi fechado em dezembro de 2024 e é a primeira competição que a Netflix comprou por inteiro, do primeiro jogo à final, com transmissão em inglês e espanhol e uma série documental de bastidores antes de cada edição.

Estádio cheio em jogo entre Brasil e Jamaica na Copa do Mundo Feminina de 2023, no AAMI Park
Brasil e Jamaica na Copa do Mundo Feminina de 2023. A edição de 2027 será disputada no Brasil. Foto: Storm machine, CC BY-SA 4.0.

Detalhe que interessa ao torcedor brasileiro: a Copa de 2027 é aqui. De 24 de junho a 25 de julho, com 32 seleções e oito sedes (Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo). No Brasil quem transmite é a Globo, com todos os jogos no SporTV e 56 na TV aberta, e a CazéTV, com os 64 no YouTube. A Netflix fica com o público americano.

A empresa também sinalizou que pretende avaliar os direitos das Copas masculinas de 2030 e 2034. Avaliar, não comprar: mesmo aí a disputa será por um torneio de um mês, não por um campeonato nacional que roda o ano inteiro.

Na França, o plano B: virar distribuidor

Existe um segundo modelo rodando em paralelo, e ele é menos comentado. Desde 19 de junho de 2026, os assinantes franceses da Netflix acessam dentro do próprio aplicativo os canais do grupo TF1 (TF1, TMC, TFX, TF1 Séries Films e LCI), além do catálogo do TF1+. Junto vêm as transmissões esportivas do grupo, como jogos da seleção francesa e o Rugby Nations Championship, respeitando os limites de cada contrato de direitos.

Aqui a Netflix não compra o esporte: ela hospeda quem comprou. É a mesma tese vista por outro ângulo, porque em nenhum dos dois casos a empresa assume o custo fixo de produzir uma temporada inteira.

Por que fugir da temporada faz sentido para quem tem catálogo

A conta por trás da escolha é simples. Evento ao vivo atrai assinante novo e público que não estava ali. Catálogo de filmes, séries e documentários segura esse assinante nos outros 360 dias do ano. Se a Netflix comprasse uma temporada inteira, pagaria caro para preencher tempo que ela já sabe preencher.

Tem ainda o lado da publicidade. A Netflix afirma que o plano com anúncios passou de 250 milhões de espectadores ativos por mês no mundo, contra 190 milhões em novembro de 2025. Vale entender a métrica antes de comparar com qualquer outra: não são assinantes, e sim membros que assistiram a pelo menos um minuto de conteúdo com anúncio no mês, multiplicados por uma estimativa de quantas pessoas moram na casa. É um número de alcance, não de contas pagantes. Para o anunciante, porém, é exatamente o que importa, e um jogo de NFL no Natal é o inventário mais caro que essa base consegue gerar.

Enquanto a Apple comprou a MLS inteira e a Amazon comprou rodada semanal de NFL e de NBA, a Netflix escolheu o caminho oposto: poucos dias por ano, todos eles inesquecíveis. É o mesmo movimento que vem redesenhando o dinheiro no esporte, dos salários da Fórmula 1 aos bilhões projetados para a Olimpíada de Los Angeles 2028 e aos grandes contratos de patrocínio: o valor se concentra onde a atenção se concentra.

O que isso ensina sobre alta performance

A tentação do atleta é olhar para essa estratégia e concluir que o jogo é aparecer nos dias grandes. É a leitura errada, e ela inverte a causa.

A Netflix pode se dar ao luxo de comprar só cinco jogos porque tem catálogo embaixo. O evento é o pico, mas o que sustenta a operação nos outros 360 dias é o acervo construído ao longo de anos. Sem ele, cinco jogos por ano seriam uma empresa quebrada entre um evento e outro.

No esporte funciona igual. O atleta que só existe no dia da prova não tem catálogo, tem pico. Ele depende de um resultado para valer alguma coisa, e quando o resultado não vem, some. O atleta com catálogo é o que treinou, documentou, apareceu, construiu público e relação com patrocinador na temporada inteira, e que por isso chega no dia grande com uma plataforma pronta para amplificar o resultado.

Vale para o corpo também. Pico de forma qualquer um segura por três meses. O que separa carreira de temporada boa é o que acontece nos meses em que ninguém está filmando.

A Netflix não escolheu o pico em vez da base. Ela escolheu o pico porque já tinha a base.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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