No dia 3 de maio de 2026, a Fórmula 1 correu em Miami e o chefe de serviços da Apple, Eddy Cue, foi perguntado por que o executivo apontado como próximo CEO da empresa não estava no paddock. A resposta veio sem rodeios: ele estava em Laguna Seca, na Califórnia, pilotando o próprio Porsche.
Quatro meses depois, em 1º de setembro, John Ternus assumiu o comando de uma das empresas mais valiosas do mundo no lugar de Tim Cook, que passou a presidente do conselho. Aos 51 anos, Ternus chega ao cargo mais observado da indústria de tecnologia carregando uma linha de currículo que quase nunca aparece em comunicado corporativo: piloto amador de carro de corrida.
Quem é John Ternus
Ternus se formou em engenharia mecânica na Universidade da Pensilvânia em 1997, onde nadou pela equipe universitária. Entrou na Apple em 2001, no time de design de produto, trabalhando no Apple Cinema Display. Virou vice-presidente de engenharia de hardware em 2013 e vice-presidente sênior em 2021.

Antes de assumir a cadeira principal, comandou o desenvolvimento de hardware de iPhone, iPad, Mac, Apple Watch e AirPods, e supervisionou a migração dos processadores Intel para o silício próprio da Apple. É engenheiro de formação e de rotina, alguém que discute especificação técnica com precisão de quem abre o produto.
O carro: um dos 77 Porsche 935 construídos
O carro que Ternus leva para a pista é um Porsche 935 de 2019, segundo apuração do Wall Street Journal. A Porsche construiu exatamente 77 unidades, número escolhido em homenagem ao 935/77 original.

A ficha técnica oficial da Porsche: motor boxer seis cilindros biturbo de 3.800 cc, refrigerado a água e montado atrás, com cerca de 515 kW, o equivalente a 700 cv. Câmbio PDK de sete marchas, diferencial autoblocante de corrida, 1.380 kg. A carroceria é quase toda em compósito de fibra de carbono, com a traseira alongada que cita o 935/78 de Le Mans, o “Moby Dick”.
Dois detalhes importam para entender o tipo de compromisso envolvido. O primeiro é o preço: 701.948 euros, mais impostos de cada país, com base nos Estados Unidos em torno de US$ 829 mil. O segundo é a classificação: a própria Porsche descreve o 935 como um carro de corrida monoposto não homologado, feito para eventos de clube e treino em pista privada. Não é carro de rua, e não disputa campeonato oficial. É um equipamento que existe só para girar.
O tempo de volta que separa turista de piloto
Ternus roda Laguna Seca abaixo de 1min40, de acordo com o Wall Street Journal. Vale o registro de que esse número vem de apuração jornalística, não de cronometragem oficial divulgada pelo circuito.

O traçado tem 3,602 km e 11 curvas, e inclui o Corkscrew, o trecho em que a pista despenca cerca de 18 metros em poucos segundos, com a saída escondida do piloto no momento da entrada. É um dos circuitos mais técnicos dos Estados Unidos justamente porque pune hesitação.
Para dimensionar: o piloto profissional Randy Pobst cravou 1min28s3 no mesmo traçado com um 911 GT2 RS de produção, referência de carro de rua. A comparação não é direta, porque o 935 é carro de corrida e o GT2 RS é homologado para a via pública, mas serve para situar a escala. Abaixo de 1min40 em Laguna Seca não é passeio de track day. É tempo de amador que treina.
Rali na floresta e uma garagem com história
A pista asfaltada não é o único endereço. Ternus já levou integrantes do time da Apple para as florestas do estado de Washington para correr rali fora de estrada.

Antes do Porsche, ele teve um Ford Mustang, e colegas contam que falava de potência e torque com especificidade técnica incomum. A leitura mais interessante sobre o que isso revela veio de Wendell Weeks, presidente da Corning, que trabalha com ele desde o desenvolvimento do iPad.
“Não existem muitas pessoas sem paixão que pilotam carro de corrida, mas, ao mesmo tempo, você precisa ser muito calmo e realmente dedicado à excelência se for bom nisso. E o John é bom nisso”, disse Weeks.
A Apple já está dentro do automobilismo
A paixão pessoal do novo CEO encontra a empresa num momento em que ela já apostou dinheiro pesado no esporte a motor.
Em outubro de 2025, Apple e Fórmula 1 fecharam acordo de cinco anos pelos direitos exclusivos de transmissão nos Estados Unidos, avaliado em cerca de US$ 750 milhões, uma média de US$ 150 milhões por ano. Todos os treinos, classificações, sprints e corridas passaram a sair pelo Apple TV no país a partir de 2026. A ESPN, detentora anterior desde 2018, pagava US$ 90 milhões por ano. A categoria chegou a pedir até US$ 180 milhões.
O movimento segue a lógica que as plataformas de streaming vêm aplicando ao esporte, e que a Netflix testou apostando em evento pontual em vez de temporada inteira. A Apple escolheu o caminho oposto: comprou o calendário completo de uma categoria em que o piloto mais bem pago faturou US$ 76 milhões em 2025.
O mesmo Eddy Cue que explicou a ausência de Ternus em Miami foi direto sobre o que a troca de comando significa para essa relação: “Ele é um fã enorme, enorme de F1”, e “vai estar em mais corridas até do que o Tim”. Cue também disse esperar uma sequência do filme de Fórmula 1 produzido pela empresa.

A ponte entre a marca e o automobilismo, aliás, é mais antiga do que parece. Em maio de 2026, a Porsche Penske Motorsport levou seus dois 963 para a etapa da IMSA em Laguna Seca com pintura retrô “Apple Computer”, celebrando ao mesmo tempo os 75 anos da Porsche no automobilismo e os 50 anos da Apple. O carro 6 foi dividido por Kévin Estre e Laurens Vanthoor, e o 7 pelo francês Julien Andlauer e pelo brasileiro Felipe Nasr.
O desenho não era invenção de marketing recente. Ele recupera as cores que um Porsche 935 K3 da equipe Dick Barbour Racing levou às pistas em 1980, incluindo as 24 Horas de Le Mans.
Foi nesse fim de semana, em Laguna Seca, que Ternus estava, em vez de Miami.
O que isso ensina sobre alta performance
A frase de Weeks é a parte aproveitável da história, e ela não tem nada de motivacional. Pilotar bem exige duas coisas que costumam ser tratadas como opostas: intensidade suficiente para se expor ao risco e serenidade suficiente para processar informação em alta velocidade. Quem só tem a primeira bate. Quem só tem a segunda anda devagar.
O segundo ponto é o critério. Ternus não avalia o próprio desempenho pela sensação de ter ido bem. Ele tem um número, medido no mesmo traçado, comparável de sessão para sessão. É a diferença entre treinar e apenas praticar, e vale igual para o atleta amador que corre 10 km no fim de semana sem nunca ter olhado a evolução do próprio tempo.
E há o ponto da identidade. Ternus construiu 25 anos de carreira dentro de uma empresa e mesmo assim manteve uma competência que não depende dela, medida por um cronômetro que não conhece cargo. Isso não é hobby de fim de semana, é a prática de sustentar uma vida que não cabe inteira dentro de um único papel. Atleta que só existe enquanto resultado descobre o preço disso cedo, geralmente numa lesão ou numa aposentadoria.
Nada disso garante que o novo CEO vá acertar as decisões da Apple. Mas explica por que quem trabalha com ele cita a pista antes de citar o currículo.
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