Em poucas semanas, o tênis brasileiro viu suas duas maiores referências apertarem o botão de pausa quase ao mesmo tempo. Bia Haddad Maia, aos 30 anos, anunciou em agosto uma parada por tempo indeterminado. João Fonseca, no fim de setembro, desistiu da temporada asiática (abriu mão do ATP 500 de Tóquio e do Masters 1000 de Xangai) para, nas palavras dele, “dar um tempo para o meu corpo e para a minha cabeça”. Dois momentos de carreira opostos: ela veterana, recolhendo-se depois de uma sequência dura; ele jovem, número 28 do mundo, freando no meio de uma ascensão. Mesma decisão de fundo.
Este texto não entra no mérito de as decisões estarem certas ou erradas: essa é uma escolha íntima, que só cada atleta e sua equipe têm informação para fazer. O que interessa aqui, na leitura de quem trabalha com a mente do atleta, é outra coisa: os dois episódios expõem, com uma clareza rara, um princípio que costuma ficar escondido atrás dos resultados. A saúde mental não é um “detalhe de bastidor” do alto rendimento. Ela é estrutura. E quando essa estrutura cede, o físico e o técnico cedem logo em seguida, nessa ordem.
O mental não é o andar de cima do corpo, é o alicerce
Existe uma ideia intuitiva, e errada, de que o atleta primeiro cuida do corpo e da técnica, e a cabeça vem por cima, como um acabamento. A prática mostra o inverso. A cabeça é o alicerce sobre o qual o corpo executa. Um gesto técnico de elite (um saque de 200 km/h, um giro completo no ar, uma manobra numa onda de seis metros) depende de um sistema nervoso calibrado, de foco, de leitura de tempo e espaço, de ausência de ruído interno. Quando a mente está sobrecarregada, esse sistema perde precisão antes mesmo de o atleta perceber. O erro não aparece primeiro como “erro de cabeça”; aparece disfarçado de erro físico ou técnico. É por isso que o esgotamento mental é tão perigoso: ele se manifesta na quadra, não na entrevista.

O caso Bia Haddad: o corpo entregando a conta da mente
A fala de Bia é quase um estudo de caso desse mecanismo. Ela foi explícita ao dizer que não foram as derrotas que a levaram à decisão (foram oito no circuito, é verdade, com a última eliminação já na primeira rodada de Wimbledon), mas sim o fato de não estar “conseguindo desfrutar do dia a dia”. O esgotamento, segundo ela, vinha sendo carregado “há um tempo”. E o ponto de virada não foi uma escolha racional: “já não era uma questão de escolha, era o meu corpo colapsando dentro da quadra”. Em Seul, relatou tremores nas mãos, falta de ar e mal-estar durante os jogos.
Repare na sequência. Primeiro veio o desgaste emocional: a sensação que ela resumiu como “uma dívida constante”, a lógica do ranking que sempre cobra mais. Só depois esse desgaste transbordou para o corpo, em sintomas físicos concretos que sabotam qualquer execução técnica: mão que treme não controla a raquete, respiração curta derruba a resistência, mal-estar tira a leitura de jogo. O corpo não estava fraco por acaso. Estava entregando a conta acumulada da mente. É o princípio do item anterior acontecendo ao vivo.
O caso João Fonseca: prevenir antes do colapso
O episódio de João Fonseca ilumina o mesmo princípio por outro ângulo: o da prevenção. No caso dele, o gatilho visível foi físico: uma temporada 2026 marcada por lesões, incluindo um problema abdominal do qual ainda não se recuperou totalmente, mesmo tendo voltado para defender o Brasil na Copa Davis. Mas a justificativa que ele deu não separou corpo e cabeça: falou em dar tempo “para o corpo e para a cabeça”, e admitiu que a interrupção “não deixa de ser frustrante”.
Aqui está a diferença de estágio. Enquanto Bia descreveu um colapso já instalado, João parece agir antes de o acúmulo virar colapso: a lesão física funcionando como um alarme para também tratar o desgaste mental que uma temporada frustrante deixa. Do ponto de vista da performance, isso é significativo: reconhecer o esgotamento na fase de alarme, e não na fase de pane, é justamente o que permite voltar sem sequelas. Para um atleta de 20 anos em plena curva de ascensão, aprender esse gerenciamento cedo pode valer mais, no longo prazo, do que dois torneios asiáticos.
O limite que não escolhe a modalidade
Não é fenômeno do tênis. No início de 2022, Gabriel Medina (tricampeão mundial de surfe, um dos atletas mais competitivos que o Brasil já produziu) anunciou uma pausa nas competições para cuidar da saúde mental, resumindo o momento com uma frase direta: “cheguei no meu limite”. Ele se afastou do circuito e retornou meses depois. O caso de Medina é importante para desfazer um mito: o de que atleta mentalmente forte não precisa parar. É o contrário. Reconhecer o limite exige a mesma força que enfrentar uma bateria decisiva. O que a pausa dele mostrou foi que a blindagem mental não é nunca sentir o peso, é saber a hora de tratá-lo antes que ele contamine tudo.

A prova mais nítida da tese
Se existe um caso que fecha o raciocínio, é o de Simone Biles em Tóquio 2021. A maior ginasta da história desistiu de finais olímpicas por causa dos chamados “twisties”: um bloqueio mental no qual a atleta perde, no ar, a noção espacial do próprio corpo durante os giros. É difícil imaginar demonstração mais literal de como o mental governa o físico: não era medo, não era falta de preparo, era o cérebro deixando de entregar ao corpo a informação de onde ele estava no espaço. Numa modalidade em que aterrissar errado pode significar lesão grave, continuar seria perigoso de verdade. Biles parou, foi criticada, depois passou a ser reconhecida como símbolo do tema, e voltou a competir cerca de dois anos depois. Os “twisties” são a imagem perfeita do princípio: quando o mental falha, o corpo simplesmente não consegue executar, por mais treinado que esteja.

O que esses quatro casos têm em comum
Bia, João, Medina e Biles chegaram à mesma encruzilhada por caminhos diferentes (esgotamento acumulado, lesões, limite competitivo, bloqueio agudo) e todos leram o mesmo sinal: a performance de elite se sustenta sobre a saúde mental, não ao lado dela. Quando um treinador ou um atleta trata a cabeça como pilar, e não como enfeite, a pausa deixa de ser sinônimo de fraqueza e passa a ser o que de fato é: manutenção do alicerce. A lição que atravessa os quatro nomes é simples de enunciar e difícil de praticar: se algo não está bem no mental, não vai estar bem no físico nem no técnico. O placar é sempre a última coisa a ceder, e a primeira que todo mundo enxerga. O trabalho de quem cuida da mente é agir antes disso.
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Perguntas frequentes
Por que Bia Haddad Maia parou a carreira?
Segundo a própria tenista, não foram as derrotas. Ela disse que não estava conseguindo desfrutar do dia a dia e que carregava o esgotamento havia um tempo, até ele aparecer no corpo: tremores nas mãos, falta de ar e mal-estar durante os jogos. A pausa foi anunciada em agosto, por tempo indeterminado.
Por que João Fonseca desistiu da gira asiática?
A temporada 2026 dele foi marcada por lesões, incluindo um problema abdominal ainda não totalmente curado. Ele ficou fora do ATP 500 de Tóquio e do Masters 1000 de Xangai para, nas palavras dele, dar um tempo para o corpo e para a cabeça.
A saúde mental afeta o desempenho físico do atleta?
Sim. A cabeça é o alicerce sobre o qual o corpo executa: quando a mente está sobrecarregada, o sistema nervoso perde precisão antes mesmo de o atleta perceber. O erro costuma aparecer disfarçado de erro físico ou técnico, e não como “erro de cabeça”.
O que são os “twisties” de Simone Biles?
É um bloqueio mental em que a ginasta perde, no ar, a noção espacial do próprio corpo durante os giros. Foi por causa dele que Biles desistiu de finais olímpicas em Tóquio 2021. Ela voltou a competir cerca de dois anos depois.
Gabriel Medina já parou por saúde mental?
Sim. No início de 2022, o tricampeão mundial de surfe anunciou uma pausa nas competições para cuidar da saúde mental, com a frase “cheguei no meu limite”. Ele se afastou do circuito e retornou meses depois.
Parar para cuidar da cabeça é sinal de fraqueza?
Não. Reconhecer o limite exige a mesma força que enfrentar um momento decisivo da competição. A pausa é manutenção do alicerce, e agir na fase de alarme, antes da pane, é o que permite voltar sem sequelas.
Por Nicholas Pasqualetto, Treinador Mental de Atletas.
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