Remco Evenepoel caiu no chão a 36 km do fim, levantou, atacou de novo e chegou à linha lado a lado com Giulio Ciccone. Nenhum dos dois sabia quem tinha ganhado. Só depois do fotofinish veio o veredito: o belga é o novo campeão europeu de ciclismo de estrada, por uma diferença que a empresa que operou o fotofinish calcula entre 2,8 e 3,3 milímetros.
A prova foi no domingo (4), na Eslovênia, e terminou com os dois no mesmo tempo, 4h16min37s. Na segunda-feira (5), Ciccone foi às redes sociais pedir para ver a imagem exata da linha de chegada. A União Europeia de Ciclismo (UEC) respondeu com uma nota técnica e avisou que não vai mais falar do assunto.
Uma queda, dois ataques e um sprint a dois
A corrida largou em Ljubljana e terminou em Sencur, num percurso de 196 km com cerca de 2.500 metros de subida acumulada. O trecho final era um circuito de 22,1 km, percorrido cinco vezes, com a subida de Mozjanca: 2,1 km com inclinação média em torno de 10%.
A seleção belga controlou a prova do início ao fim. A fuga do dia foi alcançada a 82 km da chegada, e a corrida explodiu na penúltima passagem por Mozjanca. A 36 km do fim, Ciccone atacou. Evenepoel respondeu na hora, passou o italiano e, numa curva à esquerda no topo da subida, perdeu a roda dianteira e foi ao chão.
Ele ficou parado cerca de 15 segundos. Uma policial ajudou a levantá-lo, e Evenepoel voltou à bicicleta sem danos aparentes, encaixando-se no grupo dos companheiros Jenthe Debruyne e Maxim Van Gils. “Acho que dei um belo ataque, mas fui um pouco rápido demais na curva e simplesmente escorreguei”, contou depois. “Acho que ali eu poderia ter ido embora, mas no fim mantivemos a calma e voltamos ao plano.”
O plano veio cerca de quatro quilômetros depois. A 32 km da chegada, já na descida, Evenepoel acelerou de novo. Só Ciccone aguentou a roda. Os dois abriram 30 segundos sobre um grupo perseguidor desorganizado, puxado em boa parte pelo esloveno Primoz Roglic, e entraram juntos na última volta.

A curva dos 300 metros
Nos 10 km finais, Ciccone parou de revezar na frente, o que irritou Evenepoel. O italiano explicou o motivo no dia seguinte: o companheiro de seleção Christian Scaroni vinha a cerca de 30 segundos, segundo as informações que ele recebia das lousas de tempo. “Naquele momento eu não podia me pôr a puxar contra um companheiro”, escreveu.
A última curva ficava a 300 metros da linha. Ciccone tinha estudado aquele ponto. “Eu já tinha um plano quando vi essa curva pela primeira vez. Nos últimos dois quilômetros, só conseguia pensar nela”, disse. O italiano percebeu que Evenepoel escolheu a trajetória errada, mudou de linha, contornou por dentro e saiu da curva na frente. Parecia vitória italiana.
Evenepoel acelerou de novo e os dois lançaram a bicicleta na linha. “Achei que não ia mais conseguir, mas aí vi que ele desacelerou bastante, a cem metros do fim, e passei à frente dele bem na linha de chegada”, contou o belga. Scaroni completou o pódio, 59 segundos depois.
3 milímetros ou 2,8 milésimos
Dois números circulam sobre a margem. No post em que contestou o resultado, Ciccone escreveu que o título foi decidido por 0,0028 segundo, ou 2,8 milésimos, o mesmo valor divulgado pela imprensa italiana. Já a EvoData, empresa que operou o fotofinish da prova, informou ao site italiano tuttoBICI uma diferença medida de 0,0002 segundo. Convertida em distância na velocidade de um sprint, segundo a empresa, a vantagem fica entre 2,8 e 3,3 milímetros.
Paolo Orestilli, cofundador da EvoData, explicou que a câmera do fotofinish não tira uma foto comum. Ela escaneia uma faixa de um único pixel exatamente sobre a linha de chegada, milhares de vezes por segundo, e cola essas faixas lado a lado. Na imagem final, o eixo horizontal mostra o tempo, não o espaço.
Por isso a bicicleta de Ciccone parecia menor e os raios apareciam tortos na imagem que circulou nas redes. O que vale para o resultado é só a borda mais avançada da roda dianteira.
O que pede Ciccone
Logo depois da corrida, o italiano de 31 anos, da Lidl-Trek, reagiu com calma. Contou que viu a primeira imagem e não estava clara, depois viu a segunda e essa estava. Parabenizou Evenepoel e resumiu: “Isso é ciclismo.” O técnico da seleção italiana, Elia Viviani, foi aos juízes conferir a imagem e aceitou o veredito, segundo o tuttoBICI.
Na segunda-feira, Ciccone mudou o tom no Instagram. Começou pelo rival. “Remco ontem foi o corredor mais forte. Correu como um campeão, soube interpretar e administrar uma corrida complexa e fez uma apresentação extraordinária”, escreveu. Depois veio a dúvida. “Revi centenas de vezes as imagens disponíveis e, nas tomadas em que a linha de chegada aparece, continuo vendo uma dinâmica que não consigo conciliar com aquele veredito.”
Ele contou que, pela manhã, os comissários e técnicos da federação explicaram como o fotofinish funciona e como foi interpretado. “Então não estou pedindo outra explicação. Estou pedindo para ver o fotofinish correspondente exatamente à linha de chegada real”, escreveu. “Se um título europeu é decidido por 2,8 milésimos de segundo, acho legítimo pedir que justamente essa passagem possa ser mostrada com a mesma precisão com que o resultado foi determinado.”
Ciccone deixou claro o limite do pedido. “Não estou pedindo que uma imagem de televisão substitua o fotofinish. Não estou questionando o valor de Remco nem a corrida extraordinária que ele fez.” E fechou: “Se aquela imagem confirmar o veredito, não haverá mais nada a acrescentar. Mas enquanto essa correspondência não me for mostrada, para mim continua sendo uma pergunta à qual ainda não recebi resposta.”

O que diz a UEC
A UEC respondeu com uma nota. Segundo a entidade, o sistema usado no Europeu, o EtherLynx Vision PRO X, registra a linha de chegada 13 mil vezes por segundo, o que permite definir a ordem de chegada “com extrema precisão, mesmo em caso de diferenças mínimas”.
A nota repete que o fotofinish “não é uma fotografia tradicional” e que as distorções de rodas, bicicletas e ciclistas acontecem “sem nenhuma consequência para a precisão do resultado”. A entidade informou ainda que dois sistemas independentes, um de cada lado da pista, geraram duas imagens separadas para a verificação. Um porta-voz disse que as duas foram mostradas à equipe italiana. A última frase da nota encerra o caso do lado da UEC: a entidade “não fará outras declarações sobre o assunto”.
A última camisa da coleção
Para Evenepoel, de 26 anos, o título fecha uma lista rara. Ele já tinha sido campeão belga, mundial e olímpico na estrada e no contrarrelógio, e campeão europeu de contrarrelógio em 2019 e 2025. Faltava só a camisa europeia de estrada, que em 2025 escapou por 31 segundos para Tadej Pogacar. “Isso significa muito para mim. Era a última camisa que eu ainda queria e precisava ganhar no ciclismo”, disse.
A vitória também apaga uma semana ruim. No domingo anterior, 27 de setembro, ele terminou em 12º a prova de estrada do Mundial de Montreal, 25 segundos atrás do campeão, o americano Brandon McNulty, uma semana depois de conquistar o quarto título mundial seguido de contrarrelógio. “Foi uma semana muito dura para mim depois da decepção do Mundial. Acho que isso pesava mais na minha cabeça do que eu estava mostrando”, admitiu. “É um grande alívio voltar a um bom nível hoje.”
A temporada do ciclista da Red Bull-Bora-hansgrohe já tinha sido a melhor da carreira em grandes voltas. No Tour de France, ele terminou em segundo, 6min26s atrás de Pogacar, e venceu duas etapas seguidas: a 15ª, em Plateau de Solaison, no dia da queda que tirou Vingegaard do Tour, e o contrarrelógio da 16ª etapa.
Pogacar foi o grande ausente na primeira vez em que a Eslovênia recebeu um campeonato internacional de grande porte no ciclismo de estrada. O atual campeão europeu ainda se recupera das fraturas sofridas na queda na oitava etapa da Vuelta e acompanhou a prova de fora. Evenepoel também não corre o contrarrelógio do Europeu, para se concentrar no Il Lombardia, no próximo domingo (11).
O que o fotofinish de Sencur ensina sobre alta performance
Uma corrida de 196 km e mais de quatro horas foi decidida em milímetros. É a medida exata de por que nenhum gesto do final é detalhe. Evenepoel disse que, a cem metros da linha, achou que já tinha perdido. Mesmo assim manteve o sprint até o fim e lançou a bicicleta. Quem desacelera um metro antes da linha, convencido de que a corrida está decidida, entrega exatamente os 3 milímetros que separam o ouro da prata.
A queda conta a mesma história por outro ângulo. Evenepoel errou a curva, foi ao chão e ficou 15 segundos parado. A resposta não foi culpar o asfalto nem a curva: ele voltou ao grupo, esperou o momento e atacou quatro quilômetros depois. O erro virou um evento da corrida, não o resumo dela. É a mesma leitura que vale para a semana anterior, quando o 12º lugar no Mundial pesou na cabeça e não definiu o que viria em seguida.
Do lado de Ciccone, a lição é mais difícil, porque a derrota foi por uma margem que o olho humano não enxerga. O italiano separou as coisas: reconheceu que o rival foi o mais forte, assumiu a escolha tática de não puxar por causa de Scaroni e fez uma pergunta objetiva sobre o processo, sem acusar ninguém. Pedir transparência é legítimo. Mas a imagem, seja qual for, está fora do alcance do atleta. O que está sob controle é o que ele faz até a linha: a curva estudada, o momento de abrir o sprint, a decisão de revezar ou não. Ciccone executou quase tudo o que planejou e ainda assim ficou a milímetros. É nesse quase, e não no fotofinish, que está o trabalho para a próxima vez.
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