No ranking da WTA divulgado em 20 de julho de 2026, Beatriz Haddad Maia aparece na 149ª posição. É a mesma jogadora que, em 2023, chegou ao 10º lugar do mundo e se tornou a melhor tenista brasileira da história no circuito. A queda foi dura e recente: nas semanas anteriores, ela chegou a sair do top 150 pela primeira vez em quase cinco anos.
Seria de esperar que os patrocinadores recuassem junto com o ranking. Aconteceu o contrário. No começo de 2026, a brasileira fechou um novo contrato de patrocínio, de dois anos, com a FF Seguros, e manteve no portfólio marcas de peso. A pergunta que interessa ao atleta que acompanha de fora é simples: o que essas marcas estão comprando, se não é a posição no ranking?

O que diz o contrato com a FF Seguros
O acordo, anunciado em fevereiro de 2026, vale por duas temporadas, 2026 e 2027. A logomarca da seguradora ocupa um dos espaços mais visíveis do tênis: a viseira da atleta, presente em todas as partidas que ela disputa no circuito mundial.
Não é vitrine à toa. A viseira aparece em cada troca de lado, em cada close de transmissão, em cada foto de agência. Para uma seguradora, um segmento que raramente ganha rosto, colar a marca a uma atleta reconhecida é uma forma barata de virar imagem, e não só apólice.
“Estamos felizes em apoiar uma atleta que inspira milhões de brasileiros dentro e fora das quadras”, afirmou Bruno Camargo, presidente da FF Seguros, no anúncio da parceria. Do outro lado, Bia reforçou a lógica de longo prazo: “É muito importante contar com o apoio de empresas que acreditam no tênis brasileiro.”
A seguradora que decidiu entrar na quadra
A chegada da FF Seguros diz algo sobre o momento do esporte no Brasil. O setor de seguros, tradicionalmente discreto no patrocínio esportivo, passou a enxergar no atleta de alto rendimento um espelho do que vende: planejamento, disciplina e proteção contra o imprevisto.
A marca associa a imagem de Bia a valores como determinação, resiliência e planejamento estratégico. Não é discurso vazio. Uma atleta que já esteve no top 10, caiu para fora do top 150 e segue competindo é, para uma seguradora, a personificação da ideia de se preparar para o risco e continuar jogando quando o cenário vira.
O portfólio que sobrevive à queda no ranking
A FF Seguros não está sozinha. Mesmo em baixa nas quadras, Bia Haddad mantém um conjunto de patrocinadores que muitos jogadores dentro do top 50 gostariam de ter: a fornecedora de material esportivo Asics, o grupo financeiro Prudential, a Stella Pure Gold e o Itaú Personnalité, entre outros.
Nem tudo é ganho. A brasileira perdeu recentemente o patrocínio da Bauducco, um lembrete de que a régua do mercado existe e de que nenhuma marca renova por caridade. Ainda assim, o saldo é revelador: a base de patrocínio de Bia se manteve amplamente intacta enquanto o ranking despencava. Isso só acontece quando o valor da atleta está ancorado em algo mais estável do que a última semana de resultados.
A aposta é na história, não no ranking
Aqui está o ponto que o atleta precisa levar para casa. Marca séria não compra ranking. Compra reconhecimento, consistência de imagem e uma história que o público respeita.
Bia Haddad construiu, ao longo de uma década, um patrimônio que o ranking não apaga de uma temporada para a outra: foi a primeira brasileira a entrar no top 10 da WTA, carregou o país sozinha em Grand Slams e Jogos Olímpicos, e virou sinônimo de tênis feminino no Brasil. Esse tipo de ativo se deprecia devagar. Um mês ruim, ou mesmo um ano ruim, não o zera.
É por isso que uma seguradora assina um contrato de dois anos com uma jogadora fora do top 100. Ela não está apostando na próxima partida. Está apostando na trajetória, na resiliência e na chance concreta de que a atleta volte a subir, levando a marca junto na recuperação. É a mesma lógica que faz o mercado disputar as jovens promessas do tênis brasileiro, como se vê na fila de marcas em volta de João Fonseca.
Um movimento maior no tênis
O caso de Bia não é isolado. O dinheiro está voltando ao tênis feminino em escala global, e o próprio circuito em que ela joga acaba de fechar o maior patrocínio da sua história com a Mercedes-Benz, um acordo que pode chegar a US$ 500 milhões e mira igualar a premiação entre homens e mulheres. Quando a base econômica do esporte cresce, sobra investimento também para as atletas fora do topo do ranking, desde que elas tenham construído uma marca que justifique a aposta.
O que isso ensina sobre alta performance
A lição vale para qualquer atleta que sonha em viver do esporte. O ranking é volátil por natureza: sobe e desce a cada semana, muitas vezes por fatores fora do controle do jogador. A marca pessoal, não. Ela se constrói com anos de comportamento consistente, dentro e fora da quadra, e é ela que segura o patrocínio quando os resultados somem.
Bia Haddad está em 149º e continua sendo um ativo de marca. Isso não é sorte, é consequência. Quem trata a própria imagem como um projeto de longo prazo, e não como reflexo direto do último jogo, constrói uma base que sustenta a carreira justamente nos momentos em que o placar não ajuda.
No tênis, como em qualquer alta performance, o ranking mede o presente. A reputação é que financia o futuro.
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