Às 5h50 deste domingo (20), ainda antes de o sol aparecer, os primeiros profissionais saltam na raia olímpica da USP. Atrás deles vêm 1.800 triatletas de 19 países, que até o fim da manhã vão nadar 1,9 km, pedalar 90 km por avenidas fechadas de São Paulo e correr uma meia maratona dentro do campus.
É a 6ª edição do Nubank Ultravioleta Ironman 70.3 São Paulo. E ela chega ao dia da largada com um nome que o triatlo brasileiro esperava ver de volta: Fernando Toldi, que abriu mão do 70.3 do Rio em agosto por causa de uma lesão na panturrilha.
Uma prova de 19 países dentro de um campus
São 1.800 inscritos. Além do Brasil, a lista tem atletas da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, Emirados Árabes Unidos, França, Itália, México, Portugal, Uruguai, Paraguai, Peru, Sérvia, Estados Unidos, Reino Unido e Suíça.
A história da etapa é curta e com um buraco no meio. A primeira edição foi em 2019, e a prova só voltou ao calendário em 2022. Desde então, virou fixa no mês de setembro, sempre com base na Cidade Universitária.
Para montar a estrutura, a organizadora Unlimited Sports mobiliza 900 colaboradores e espalha 4.500 cones e 3.800 grades pelo percurso. Na água, a segurança fica com 55 caiaques, 3 barcos e 4 jet skis. Na hidratação, são 12.350 garrafas de água, 6.650 isotônicos, 96 mil copos e 13 toneladas de gelo. A equipe médica conta com 9 ambulâncias e 8 motolâncias.
“Cada detalhe dessa infraestrutura é planejado para que tudo funcione em perfeita sintonia”, disse Carlos Galvão, CEO da Unlimited Sports.

O percurso: raia olímpica, Marginal e meia maratona na USP
A distância 70.3 leva esse nome porque soma 70,3 milhas, ou 113 km. Em São Paulo, ela é dividida assim:
Natação (1,9 km). Uma volta única na raia olímpica da USP. É água parada, sem onda e praticamente sem correnteza, o que tira da natação a variável que costuma desmontar amadores no mar.
Ciclismo (90,1 km). A bike sai da USP em direção à Marginal Pinheiros e passa por diferentes regiões da cidade, incluindo o Parque Ibirapuera e as avenidas Juscelino Kubitschek, Rubem Berta e 23 de Maio. É um traçado técnico, com muitas curvas, retornos e trechos estreitos, e com asfalto irregular em alguns pontos, segundo assessorias que preparam atletas para a prova.
Corrida (21,1 km). Três voltas dentro do campus, em ida e volta por retas, num percurso plano e rápido. O problema é o relógio: a corrida acontece no fim da manhã, com pouca sombra, e as edições anteriores foram marcadas por calor e sensação térmica alta.
Para quem está do lado de dentro, a leitura é clara. A natação protegida e a corrida plana convidam a acelerar, mas o calor cobra no terceiro giro do campus a conta de quem exagerou nas retas da Marginal. É o mesmo raciocínio de quem monta uma planilha de meia maratona, com três horas de esforço acumulado antes da largada da corrida.
A volta de Fernando Toldi
Toldi era o favorito no Rio, em agosto, e não largou. Anunciou no próprio canal do YouTube que sentiu a panturrilha e preferiu se poupar para o Ironman Kalmar, na Suécia, onde buscava vaga para o Mundial Ironman de 2026. A ausência dele virou a principal notícia da edição carioca.
Em São Paulo, ele está na lista. O currículo explica por que ele volta a ser o nome a ser batido: campeão do Ironman Malásia e do Ironman 70.3 Equador em 2024, venceu o 70.3 Curitiba e foi vice no 70.3 Peru nesta temporada.
Quem pode tirar o título dele
A lista masculina concentra quem ganhou quase tudo no triatlo sul-americano nos últimos anos.
Luciano Taccone, da Argentina, é o adversário de currículo mais recente. Venceu o Ironman Brasil em 2023 e 2025, ganhou o 70.3 Rio no ano passado com 3h31min24s (a marca mais rápida já registrada naquela prova) e, em 2026, foi campeão do 70.3 Brasília e vice em Pucón.
Reinaldo Colucci chega com a bagagem de dois Jogos Olímpicos, Pequim 2008 e Londres 2012, e dois títulos do Ironman Brasil (2022 e 2024). Neste ano, foi vice justamente atrás de Toldi em Curitiba.
Igor Amorelli, campeão do Ironman Brasil em 2014 e do Ironman Holanda em 2016, soma sete vitórias em provas 70.3 pelo mundo.
Entre os estrangeiros, aparecem ainda o uruguaio Federico Scarabino, campeão do 70.3 Punta del Este e terceiro no Ironman Brasil nesta temporada, e o português Filipe Azevedo, bicampeão do 70.3 Shanghai (2018 e 2019) e vice em Brasília em 2026.
A geração seguinte tem Enzo Krauss, vice no 70.3 Rio deste ano e terceiro em Curitiba, e André Lopes, terceiro em Brasília.

No feminino, uma olímpica argentina contra a experiência brasileira
Romina Biagioli é a atleta de maior currículo na largada feminina. Representou a Argentina em Tóquio 2020 e Paris 2024, já venceu o Ironman Brasil e, em 2026, foi vice em três provas 70.3: Pucón, Puerto Varas e Brasília.
A americana Rachel Olson, terceira no Ironman Brasil de 2025, e duas brasileiras com histórico de pódio completam o grupo de frente. Mariana Borges de Andrade foi vice no Ironman Brasil em 2023 e 2024 e campeã do 70.3 Rio em 2015. Bruna Stolf foi terceira no Ironman Brasil de 2024, quarta em 2025 e vice no 70.3 Punta del Este nesta temporada.
A referência de 2025 é brasileira e olímpica. Manuel Messias venceu no masculino, com 3h36min27s, e Djenyfer Arnold no feminino, com 4h14min01s. Os dois disputaram o triatlo em Paris 2024.
Os vencedores de cada edição
| Ano | Masculino | Feminino |
|---|---|---|
| 2019 | José Belarmino | Fernanda Palma |
| 2022 | Felipe Bergamini | Patrícia Franco |
| 2023 | José Belarmino | Carolina Carvalho |
| 2024 | Santiago Ascenço | Ana Laura Almeida |
| 2025 | Manuel Messias | Djenyfer Arnold |
José Belarmino é o único a vencer duas vezes, em 2019 e 2023. Todos os vencedores da história da prova são brasileiros.
52 vagas para Chattanooga e US$ 15 mil em prêmios
A etapa distribui 52 vagas para o Campeonato Mundial Ironman 70.3 de 2027: 50 para amadores, divididas em 25 masculinas e 25 femininas, e duas para profissionais, uma por gênero.
O Mundial será em Chattanooga, no Tennessee (EUA), nos dias 28 e 29 de agosto de 2027.
Para os profissionais, a premiação em dinheiro é de US$ 15 mil no total, o mesmo valor do 70.3 Rio. É a segunda edição consecutiva de São Paulo com a categoria profissional. Quanto isso representa na carreira de um triatleta está no nosso levantamento sobre quanto ganha um atleta de Ironman.
A programação do fim de semana
| Dia | Horário | O que acontece |
|---|---|---|
| Quinta (17/9) | 12h | Abertura do Ironman Village e entrega de kits, em frente à Praça do Relógio da Reitoria |
| Sábado (19/9) | 8h | Nubank Ultravioleta Ironkids Brasil |
| Sábado (19/9) | 10h30 | Coletiva de imprensa |
| Domingo (20/9) | 5h50 | Largada da elite masculina |
| Domingo (20/9) | 5h55 | Largada da elite feminina |
| Domingo (20/9) | 6h05 às 6h20 | Largada dos amadores |
A prova fecha vias das zonas Oeste e Sul na madrugada e na manhã de domingo. No ano passado, a CET monitorou o trânsito das 0h30 às 11h. O esquema de 2026 costuma ser divulgado pela prefeitura na semana da prova.

O que isso ensina sobre alta performance
A decisão de Toldi em agosto é a melhor aula desta edição. Ele abriu mão de uma prova em que era favorito para não comprometer um objetivo maior, e volta um mês depois para disputar outra. Calendário não é lista de obrigações. Quem larga em tudo chega inteiro em nada.
A outra lição está no grid amador. A grande maioria dos 1.800 inscritos não vive do esporte. Treina antes do expediente, encaixa o longão no fim de semana e paga do próprio bolso para estar ali. A distância entre eles e os profissionais não está no quanto querem, mas no processo que sustentam semana após semana. É a mesma teimosia que construiu histórias como a de Fernanda Keller no Havaí e que remonta à origem do Ironman, em 1978.
Domingo, às 6h20, o último amador entra na água. O relógio da USP marca o mesmo tempo para todos.
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