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Tomaz Gonçalves e a mentalidade que levou 12 finais até o Freio de Ouro

Tomaz Gonçalves, com o número 65, comemora o Freio de Ouro 2026 de mãos dadas com o irmão Rodrigo Gonçalves na arena da Expointer

Dois dias antes de viajar para Esteio, o cavalo com que Tomaz Gonçalves ganharia o Freio de Ouro 2026 apareceu mancando, com uma broca no casco. A decisão já estava tomada: Leon Salvaje não iria. O ginete tinha até ligado para o proprietário avisando.

Os animais precisavam entrar no parque da Expointer até as 20h. Leon Salvaje chegou às 19h45. Dias depois, no sábado 5 de setembro, fechou a final com 21,265 pontos e deu a Tomaz o primeiro Ouro da carreira, na 12ª temporada seguida em que ele chegava à final. A história dos bastidores foi contada pelo próprio ginete no episódio do podcast No Topo publicado em 15 de setembro, em conversa com Nicholas Pasqualetto e Diogo Moraes.

“Carrega o cavalo”: a decisão das 19h45

A lesão não teve a ver com excesso nem com falta de treino. Nicholas Pasqualetto, treinador mental de Tomaz desde 2019, comparou a broca a uma unha encravada no ser humano: aparece do nada.

Tomaz conta que a equipe inteira estava em volta do animal, com veterinários, ferreiro e os funcionários do centro de treinamento, quando o grupo resolveu arriscar. “Nós se olhamos e: carrega, já viemos até aqui, carrega o cavalo”, lembrou. Ao chegar ao parque, a primeira pessoa que encontrou foi justamente o proprietário, surpreso por ver o cavalo ali. “Resolvi trazer. Vamos tentar até o último tiro. Se não der, não deu.”

Não foi o único obstáculo da temporada. Tomaz sofreu um acidente sério durante o ciclo, que ainda hoje causa dores, e voltou a competir 18 dias depois, segundo Nicholas. A melhor égua do plantel ficou fora do Freio, preservada para o ciclo seguinte. “É um dos anos mais vitoriosos da minha carreira, mas é um dos anos mais duros mentalmente”, resumiu o ginete, que venceu provas na Argentina e no Uruguai ao longo da temporada.

Primeiro chegar à final, depois atacar

Com um cavalo jovem, de primeiro ciclo e voltando de lesão, Tomaz mudou a estratégia durante a semana. Na primeira fase, o objetivo era só um: ficar entre os 16 conjuntos que avançam à decisão de sábado. “Ali qualquer deslize fica fora da final.”

Quando a vaga veio, a chave virou. “Agora é comigo”, pensou. E a cabeça não foi para os adversários. “Eu nunca olhei pros meus adversários como buscando eles. Eu olhei pra prova como uma oportunidade de mostrar o tamanho do cavalo que eu tinha embaixo de mim.”

Tomaz descreve a final como diferente de todas as anteriores, porque competiu apoiado no menino que, aos 5 anos, disputou a primeira final do Freio Jovem na própria Expointer. “Muito mais me agarrei nessa criança do que num profissional. Uma coisa muito mais sem culpa, sem julgamento, apenas fazendo o que eu amo fazer.”

Tomaz Gonçalves montando Leon Salvaje em prova do Freio de Ouro 2026 e comemorando o título sobre o cavalo campeão
Tomaz Gonçalves e Leon Salvaje na Expointer 2026: em prova (Foto: Felipe Ulbrich/ABCCC) e na comemoração do título (Foto: reprodução/Instagram @tomazgoncalves8).

A Prata de 2025 e a nota morfológica

O Ouro de 2026 começou a ser construído em uma derrota apertada. Na Expointer de 2025, Tomaz ficou com o Freio de Prata montando Campana Echo a Mano, com 20,183 pontos, 35 milésimos atrás de Ópio da Baraúna (20,218), segundo o resultado oficial da ABCCC.

Na leitura dele, o erro foi de preparação. Campana Echo a Mano, um cavalo de cinco ciclos, precisou disputar a última classificatória para a Expointer 30 dias antes da final. Venceu, mas chegou ao Freio mais leve e desgastado, e perdeu pontos na avaliação morfológica. “A gente não perdeu um ouro, a gente ganhou uma prata, porque tinha tudo para dar errado.”

A conclusão virou método: não depender de um único cavalo veterano e renovar o plantel. Em Leon Salvaje, Tomaz diz ter corrigido “todos os detalhes de experiências passadas”, do preparo físico à morfologia. “Eu nunca tive um cavalo tão bem treinado, tão bem de saúde, tão projetado.”

“Eu dei margem para perder”

O ginete assume a responsabilidade pela Prata sem culpar os jurados. “O ano passado eu não ganhei porque eu dei margem para não ganhar. Não foi porque me julgaram errado, porque a nota estava errada.”

Nem sempre foi assim. Nicholas lembrou no episódio um Freio de cerca de quatro anos atrás em que Tomaz reagiu mal a uma nota na mangueira e acabou citado na súmula, com risco de punição. O próprio ginete define o Tomaz daquela época como “muito bravo” e “reativo”, com dificuldade de autocontrole e uma cobrança excessiva sobre si mesmo e sobre a equipe.

Foi esse o motivo que o levou a procurar o treinamento mental em 2019, três semanas antes da final daquele ano, em que terminou em 11º. Ele tinha cinco finais nas costas e competia contra ginetes com 20 ou 30 anos de carreira. “Eu tenho que ser mais inteligente, me preparar melhor. Como me tornar mais competitivo num menor espaço de tempo.”

Hoje a resposta à nota injusta é outra: “Tu baixa a cabeça, fica quieto, toma teu mate. A melhor reação é trabalhar mais, treinar mais e não deixar dúvida.”

Tomaz Gonçalves conta no podcast No Topo como construiu a mentalidade que rendeu o Freio de Ouro 2026
Tomaz Gonçalves (ao centro) no podcast No Topo, com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto. Frame do episódio no canal No Topo Podcast.

Oito provas em uma, julgadas por humanos

Parte da dificuldade está no formato. Ao contrário do salto, em que manda o cronômetro, e dos três tambores, decididos pelo tempo, o Freio de Ouro é avaliado por jurados em várias etapas. Tomaz e Nicholas o descrevem como “oito provas dentro de uma prova só”, com um animal de cerca de 500 kg que também sente a pressão.

O goleiro uruguaio Sergio Rochet, do Internacional, amigo do ginete, acompanhou a final. Tomaz perguntou se a pressão chegava perto de uma decisão de Libertadores. A resposta: “É igual. E não sei se não é pior, porque ali tu tá sozinho.”

A rotina acompanha o tamanho da prova. Tomaz monta das 6h30 às 11h30 e repete a jornada à tarde, cerca de 10 horas por dia em cima do cavalo. O centro de treinamento que mantém em Porto Alegre existe há 13 anos, e a viagem com a mulher e as filhas marcada para depois do Freio é a primeira de férias em família desde então. Antes, só parava no Natal e no Ano-Novo.

A sela como escritório

O ajuste que Tomaz aponta como ponto de virada da carreira foi cortar excessos. Ele corria 15 km quase todos os dias, chegava dolorido para montar e ainda jogava futebol e tênis “como se valesse a vida”. Nicholas conta que, no ano passado, encontrou o ginete mancando no centro de treinamento depois de uma pelada.

A regra combinada entre os dois foi simples: o escritório de Tomaz é a sela. A preparação física continuou, mas passou para três ou quatro sessões por semana. “Mantém o ativo e diminui o risco de lesão. Fica muito mais leve, muito mais divertido e até melhor.” Na avaliação dele, saber dosar as prioridades “muda completamente o jogo”.

Menos Telas, Mais Selas

Na parte final do episódio, Tomaz falou da escola de equitação que mantém na Zona Sul de Porto Alegre, o Menos Telas, Mais Selas. O projeto social nasceu de um menino que assistia aos treinos e pedia para montar. Tomaz procurou os pais, deu a bolsa e, num churrasco, contou a história para Rochet, que se ofereceu para apadrinhar mais crianças. Hoje são cerca de 30 crianças no projeto social, e algumas já competem no Freio Jovem.

Sobre o futuro da raça, o ginete se diz otimista com a arena, os leilões e a entrada de público novo, mas faz questão de reconhecer os veteranos: “O cara que permanece 20, 30 anos numa competição desse nível é um animal. Se tu bobear, eles vão seguir nos ganhando.”

O que a trajetória de Tomaz ensina sobre alta performance

O resultado ruim é diagnóstico, não sentença. A Prata por 35 milésimos virou uma lista de correções: renovar o plantel, preservar o cavalo antes da final, cuidar da morfologia. O Ouro de 2026 é a lista executada.

Responsabilidade tira o atleta do lugar de vítima. Dá para culpar jurado, calendário e lesão. Tomaz preferiu “eu dei margem”, e é aí que está o que ele controla.

Prioridade vence intensidade em tudo. Correr 15 km por dia parecia disciplina e só gerava dor. Quando a sela virou o centro da rotina, o físico passou a servir ao objetivo principal.

O título confirma, não encerra. “Tu chegou, tu é capaz e tu é bom mesmo”, disse Tomaz sobre a sensação depois da vitória. E completou que o objetivo agora é “nunca mais deixar de estar disputando o topo”, sabendo que haverá anos de derrota. O novo ciclo, como ele mesmo lembrou, já começou.

Leia também: a cobertura da final do Freio de Ouro 2026 e o texto de Nicholas Pasqualetto sobre a mente por trás do título.

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