Lucas Castro começou no futebol aos 5 anos, filho de um pai que também jogava muito. Passou por categorias de base no Brasil, morou um tempo em Portugal atrás da carreira e era o aluno que tirava 6, 7 ou 8 nas outras matérias e 10 em educação física. “Mas acabou que não deu certo”, resume.
O futebol não virou profissão, mas virou método. Em episódio publicado nesta terça-feira (13) no No Topo Podcast, com Diogo Moraes e Nicholas Pasqualetto, o fundador da Dr. Peanut contou como saiu da base para o balcão de uma loja de suplementos em Curitiba, criou a marca que tirou a pasta de amendoim da prateleira de obrigação e vendeu a empresa ao Grupo Supley. E por que, para ele, a coisa mais importante que o esporte ensina é perder.

O 10 em educação física
A história que Lucas conta antes da empresa é a de um garoto do esporte. “Eu sempre fui muito ligado ao esporte, desde muito novo. Fiz futebol desde os meus 5 anos de idade”, disse no episódio. “Morei fora do Brasil também um tempinho, fui para Portugal, fiquei um tempo lá, fiz categoria de base em alguns times aqui.”
Não vingou. Na volta de Portugal, ele decidiu que ia empreender e foi estudar nutrição, um curso escolhido pelo mesmo motivo que o levou ao campo. “Sempre quis ser um nutricionista esportivo, meu plano era esse”, contou. A faculdade ficou no meio do caminho quando apareceu uma oportunidade no mercado de suplementos.
O roteiro é comum a milhares de meninos que passam pela base: a maioria não chega ao profissional. O que muda de uma história para outra é o que o jovem leva do campo quando o sonho de jogador acaba.
Do campo para o balcão
Um dos melhores amigos de Lucas tinha a Vita Nutrition, rede de suplementos de Curitiba, e o convidou para ser sócio das lojas físicas. A primeira abriu em 2012, a segunda em 2014 e a terceira em 2016. “Eu entendia do esporte, já consumia suplemento, mas não era um vendedor. E para ficar atrás do balcão você precisa ser vendedor”, lembrou.
Foram cinco anos de formação na prática, até 2017. No balcão ele aprendeu a vender e a ler o cliente. No caixa, aprendeu o que era uma DRE, os impostos, a diferença entre Simples e lucro real. “Quando você é curioso, você vai atrás e aprende na marra. E eu sempre quis aprender as coisas na marra.”
Foi também ali que ele viu o mercado mudar. As vendas online cresciam, a loja física estagnava, e para crescer com o modelo que tinha ele precisaria de 10 ou 15 lojas. A saída era ter uma marca própria.
A pasta de amendoim que ninguém comia por prazer
A ideia saiu da própria prateleira. Em algumas semanas, a loja vendia mais pasta de amendoim do que barra de proteína. Lucas viajou aos Estados Unidos, onde a pasta é consumida como a margarina no Brasil, e voltou com o diagnóstico: as marcas brasileiras falavam de saúde e de performance, nenhuma falava de sabor. Os sabores que existiam eram convencionais, como coco. Chocolate branco, avelã e cookies and cream não existiam.
“A Dr. Peanut não inventou pasta de amendoim, mas inventou um formato diferente de entrega, seja no produto, na embalagem ou na comunicação”, disse. “Você tem que inovar no formato, e não necessariamente no produto.”
O primeiro investimento foi de R$ 50 mil, valor que, segundo ele, cobriu o registro da marca e o primeiro pedido ao fabricante terceirizado. A Dr. Peanut saiu do papel no início de 2017, como registrou a Forbes, e começou sendo vendida dentro da própria loja dele. “Demorei para juntar essa grana e tive que colocar tudo ali. Hoje não me arrependo.”
De 60 para 120 milhões e a hora de passar o bastão
A virada comercial veio com o Grupo Supley, dono de Max Titanium e Probiótica, que primeiro comprou metade da Dr. Peanut e, em janeiro de 2025, anunciou a compra dos 50% restantes. Segundo Lucas, a marca tinha 28 representantes quando a Supley entrou e passou a ter mais de 100 de um mês para o outro. “Quando eles chegaram, a gente tinha feito 60 milhões no ano sozinho. No outro ano a gente dobrou para 120 já com eles.”
Vender, ele diz, sempre esteve no plano. “Desde o começo da Doctor eu já pensava em um dia vender. Tem uma hora que você tem que passar o bastão para o negócio acontecer de verdade.” Depois da venda, ficou cerca de um ano na transição para o novo time e saiu no fim de 2025. Em setembro de 2026, lançou a YASY, marca de pipoca zero açúcar criada com a influenciadora Yasmin Castilho.
No episódio, ele também separou faturamento de resultado: “A galera se ilude muito com o faturamento. No final, o que importa é quanto sobra”. Uma empresa que fatura 500 milhões com margem de 10%, no exemplo dele, vale menos do que uma de 100 milhões com margem de 20%.
“O esporte te ensina a perder”
Nicholas Pasqualetto, que trabalha com preparação mental de atletas, perguntou quanto do sucesso da marca veio da mentalidade construída no futebol. A resposta foi direta. “O esporte te ensina uma coisa muito importante, que é você aprender também a perder. E se levantar das derrotas. Empreender é isso também. Você não vai acertar sempre, não vai ganhar sempre, mas tem que levantar a cabeça, aceitar aquilo e melhorar.”
Hoje ele joga tênis, e usa a quadra como exemplo. “Quando eu jogo tênis, provavelmente eu mais erro a bolinha do que acerto. Mas eu não deixo de ir em toda aula aprender.” O treino, diz, não é o jogo: “Vou jogar um campeonato e não é a mesma coisa. Você fica nervoso, seu bracinho fica curto. No treino é pancada, é smash”. Controlar a emoção sob pressão, segundo ele, é a mesma habilidade que a empresa cobra no dia em que é preciso demitir alguém.
Na conversa, o esporte apareceu como escola da vida: num jogo de 90 minutos, uma criança vive com intensidade o que outra, fora do esporte, às vezes leva anos para viver. Nicholas completou com a própria trajetória. Ele foi piloto de motocross e teve a carreira interrompida cedo, quando estava no nível mais alto. “Aquilo ali foi a grande escola da minha vida”, disse. É o mesmo argumento do episódio anterior do podcast, sobre o que o esporte ensina à criança.
Seis treinos por semana, agora na arquibancada
O futebol voltou para a vida de Lucas pelo filho, que treina de segunda a sábado: três vezes na escolinha e três em aulas particulares. Ele vai a todos. “Todo final de tarde eu estou lá com ele”, contou. Diz que foi para isso que vendeu a empresa.
Por isso a resposta para a pergunta que fecha todo episódio do No Topo, o que é chegar no topo, saiu sem número de faturamento. “Chegar no topo pra mim é onde eu estou hoje. É ir seis vezes no futebol levar meu filho na semana. Eu consegui fazer o que eu quero, que é ter tempo para minha família e ao mesmo tempo cuidar dos meus negócios.”
Parar de trabalhar não está nos planos. Quando os apresentadores disseram que ser humano não foi feito para se aposentar, ele concordou na hora. Conhece gente que vendeu, parou e voltou ao trabalho porque não aguentou ficar sem fazer nada. O conselho final foi sobre erro: “Empresas grandes estão onde estão não porque não erram, mas porque consertam muito rápido o erro”.
O que isso ensina sobre alta performance
A primeira lição é que a carreira que não vinga não apaga a formação. Lucas não chegou ao profissional, mas levou do futebol a rotina, a convivência com a derrota e o interesse pelo corpo que o fez estudar nutrição e entrar no mercado de suplementos. Atleta que constrói identidade além das quatro linhas encontra onde aplicar o que aprendeu quando o jogo acaba.
A segunda é que derrota é evento, não identidade. No tênis amador ou na empresa de nove dígitos, ele trata o erro do mesmo jeito: reconhecer rápido, corrigir rápido e voltar no treino seguinte.
A terceira é sobre prioridade. Lucas escolheu um centro para cada fase: a loja, depois a marca, agora a família e a YASY. Quando um negócio saiu do centro, ele vendeu ou passou adiante, em vez de tentar tocar tudo pela metade. “Eu não consigo ficar meio num, meio em outro. Tenho que entrar de cabeça no negócio.”
Outras histórias de quem levou o esporte para fora do campo estão nos episódios do No Topo com Caio Lopes e Tiago Kfouri, o TK.
O esporte forma mais do que atletas. Forma quem vence fora dele também.
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