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Fossati por dentro do Tour de France: o bastidor que a TV não mostra

Tadej Pogačar com a camisa de campeão mundial puxa o pelotão da UAE em etapa do Tour de France

É 1 da manhã em um hotel dos Alpes franceses, e Felipe Fossati fala baixo para não acordar os vizinhos de quarto. Terminou mais um dia dentro do Tour de France 2026, o maior evento do ciclismo mundial, e o ciclista e professor da Universidade Federal de Pelotas ligou a câmera antes de dormir. Não para narrar quem venceu, porque isso a TV já mostrou. Para contar o que a transmissão nunca filma: como é viver a última semana da Volta da França por dentro de uma equipe World Tour.

Fossati está embarcado com a NSN Cycling Team, a formação do velocista eritreu Biniam Girmay, e vai acompanhar cada etapa até Paris hospedado com o staff, de crachá no pescoço e bicicleta própria. O que ele viu nos bastidores da 16ª etapa, um contrarrelógio de 26 quilômetros, é uma aula sobre o que separa o esporte de elite do amador. Não são só as pernas. É a logística.

O relato de Felipe Fossati direto dos bastidores do Tour de France 2026.

Um crachá que dá acesso ao que o público não vê

Horas antes da largada, enquanto o público começava a se posicionar na estrada, Fossati fez algo que quase nenhum torcedor consegue: pedalou o percurso inteiro do contrarrelógio. Foram os 26,1 quilômetros entre Évian-les-Bains e Thonon-les-Bains, com largada subindo por quase 10 quilômetros de rampa constante, uma longa descida técnica cheia de curvas e uma reta final para a chegada.

Felipe Fossati pedala em estrada de montanha durante a cobertura do Tour de France 2026
Felipe Fossati acompanha o Tour de France 2026 por dentro de uma equipe World Tour. Foto: @felipefossati_

“Excepcional, muito legal”, resumiu, ainda impressionado com o ritmo dos profissionais. Os melhores fecharam o dia a cerca de 48 quilômetros por hora de média, um número que, num percurso com 10 quilômetros de subida, obriga o atleta a escalar perto de 40 por hora. Fossati desceu com cautela e mesmo assim marcou 60 por hora sem pedalar, o que dá a dimensão do quão rápido é aquilo em uma bicicleta de contrarrelógio.

O crachá da equipe faz o resto. Com ele, Fossati circula na área de aquecimento dos atletas, onde o público comum não chega. Ficou ao lado de estrelas do pelotão, dividiu hotel com o italiano Filippo Ganna, um dos maiores contrarrelogistas do mundo, e até filmou o campeão dando entrevista bem do seu lado, “como se a entrevista fosse para mim”, brincou. É o tipo de acesso que nenhum portal concorrente consegue oferecer. Não é a primeira vez: dias antes, ele já tinha revelado o controle antidoping noturno que a transmissão não filmou.

O contrarrelógio que apertou a briga pela amarela

Dentro da estrada, o dia teve dono. Remco Evenepoel voou nos 26 quilômetros, cravou 32min19s e venceu sua segunda etapa consecutiva no Tour, depois de já ter triunfado na 15ª. “O esperado para mim era que o Remco vencesse”, disse Fossati, que acompanhou tudo da área restrita.

Tadej Pogačar, o líder, foi o segundo mais rápido, a 28 segundos, depois de errar uma curva e perder segundos importantes. Mattias Skjelmose completou o pódio da etapa, a 1min04s. Mesmo cedendo terreno pela primeira vez, Pogačar seguiu de amarelo, agora com 4min32s de vantagem sobre Evenepoel na classificação geral.

Ciclista da UAE na posição aerodinâmica sobre a bicicleta de contrarrelógio
A posição de contrarrelógio, aerodinâmica e implacável, que decidiu a 16ª etapa do Tour. Foto: Kakoula10 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A leitura de quem está lá dentro é direta: a camisa amarela é de Pogačar, a não ser que ele caia ou fique doente. O que ainda está em aberto é o resto do pódio. Isaac del Toro aparece em terceiro, e o francês Paul Seixas logo atrás, em quarto, a 30 segundos. Os dois têm menos de 25 anos e disputam ao mesmo tempo o lugar no pódio e a camisa branca de melhor jovem, separados por apenas 20 segundos nessa classificação. E vem chumbo pela frente: as etapas de sexta e sábado são, nas palavras de Fossati, “duríssimas”, com a de sábado sendo a mais dura de todas.

A curva que tirou Lipowitz do Tour

Ao pedalar o percurso de manhã, Fossati já tinha identificado os pontos perigosos da descida. Eram curvas onde nem os profissionais conseguiam descer o tempo todo com o pé preso ao pedal. Uma delas cobrou o preço mais alto do dia.

Florian Lipowitz, então quinto colocado na geral, escorregou nas faixas brancas pintadas de uma travessia de pedestres, numa curva à direita fechada, a cerca de 12 quilômetros da chegada. A roda da frente deslizou, ele bateu na guia e nas grades de proteção e foi levado de ambulância. O diagnóstico: fratura da clavícula direita e abandono do Tour. O próprio Pogačar quase caiu no mesmo ponto. Um tombo de aparência boba, como observou Fossati, encerrou a participação de um dos homens mais bem posicionados da corrida.

34 pessoas, um hotel novo por dia e jantar às 11 da noite

Aqui está o coração do que Fossati foi mostrar. Uma equipe World Tour leva 34 pessoas de staff ao Tour, sem contar os atletas. E, da 16ª etapa até Paris, é um hotel diferente a cada noite. Ficar duas noites no mesmo lugar, como aconteceu em torno do dia de descanso, é raridade.

A rotina não tem folga. Acordar às 7 da manhã no máximo, café da manhã em horário marcado, despachar as bolsas em um veículo específico, entrar em outro carro e rodar cerca de uma hora até um ponto combinado. De lá, todos descem e pegam as bicicletas. No caso de Fossati e do grupo de convidados, o programa do dia seguinte era pedalar os últimos 100 quilômetros da 17ª etapa antes de assistir à chegada.

Camisa amarela protegida pelos companheiros de equipe da UAE numa subida do Tour de France
A máquina em ação: o líder da geral blindado pelos companheiros de equipe numa subida do Tour. Foto: Hugo LUC / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

“É uma loucura a logística desse negócio”, resume ele. Jantar às 11 da noite, dormir depois da meia-noite, acordar às 7. Tudo cronometrado, tudo planejado, cada bolsa em cada carro na hora certa. Quem não é organizado ao extremo não sobrevive a três semanas assim. Até a internet, ironicamente, é um problema constante: Wi-Fi, 4G ou 5G, nada funciona direito na estrada.

A mesa de jantar onde as etapas são decididas

O detalhe mais saboroso vem da mesa de jantar, que Fossati descreve como “mesa de boteco”. É ali, na véspera, que as equipes leem a etapa seguinte em voz alta. A 17ª etapa, entre Chambéry e Voiron, era plana, 174,7 quilômetros, desenhada para os velocistas. E a conversa girou em torno de uma disputa quente: a camisa verde de melhor pontuador.

Mads Pedersen liderava a classificação por pontos, mas Jasper Philipsen encostou nas últimas etapas. Girmay, o líder da NSN e “colega de equipe” de Fossati na semana, aparecia em terceiro, com chances remotas. O cálculo da mesa era claro: equipes como a de Philipsen e a própria NSN queriam neutralizar qualquer fuga e levar a etapa para um sprint. Se Pedersen escapasse numa fuga, pontuaria sozinho e liquidaria a briga pelo verde. Havia até um trecho de estrada estreita, entre os quilômetros 13 e 11, apontado como o ponto onde uma fuga poderia nascer ou ser abortada.

Foi exatamente o que o boteco previu. A fuga não vingou, a etapa terminou em sprint e Philipsen cruzou na frente. Pedersen ainda levou o sprint intermediário, mas se perdeu no tumulto da chegada e caiu para oitavo. Resultado: a diferença pela camisa verde despencou para 7 pontos, e a decisão foi empurrada para os últimos dias. “É um lado que a gente não vê na prova”, diz Fossati, que correu provas como a Volta de Santa Catarina, do Paraná e do Rio Grande do Sul e reconhece o mesmo jogo, em outra escala, nas estradas gaúchas.

O que o bastidor do Tour ensina sobre alta performance

A corrida que aparece na tela é a ponta de um iceberg. Embaixo dela há uma máquina de 34 pessoas, uma logística de nível militar e uma disciplina que não dá trégua entre a meia-noite e as 7 da manhã. O talento e as pernas colocam o atleta na largada. O que o mantém competitivo por três semanas é a organização.

Essa é a lição que atravessa o vlog de Fossati e que vale para qualquer atleta, profissional ou amador: performance de ponta se constrói fora da prova. No sono, na alimentação, no planejamento da semana, na capacidade de respeitar um cronograma quando o corpo só quer descanso. O Tour de France é, no fim, uma prova de execução tanto quanto de força. E é isso que a transmissão, com toda a beleza das imagens aéreas, quase nunca consegue mostrar.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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