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Piastri põe um 2º lugar acima de metade das suas vitórias

Lando Norris e Oscar Piastri lado a lado, acenando no desfile de pilotos do GP da China de 2026

Oscar Piastri tem nove vitórias na Fórmula 1. A primeira veio na Hungria, em 2024. A mais recente, na Holanda, em 2025. E, segundo ele mesmo, pelo menos quatro delas valem menos, na sua conta pessoal, do que um segundo lugar em Suzuka.

O australiano de 25 anos deu uma entrevista de quase uma hora ao podcast britânico High Performance, gravada no centro tecnológico da McLaren e publicada em 26 de abril. Nela, explicou a régua que usa para julgar o próprio trabalho, contou o que aprendeu ao perder o título de 2025 na última corrida e desmontou a ideia de que alta performance tem a ver com pensamento positivo.

A régua não é o resultado, é o controle

O exemplo que ele escolheu foi o GP do Japão de 2026. Piastri largou bem, assumiu a liderança na primeira curva e perdeu a vitória quando um safety car, acionado pela batida de Oliver Bearman, deu a Kimi Antonelli uma parada barata. Terminou em segundo, 15 segundos atrás.

Carro da McLaren de Oscar Piastri em curva do circuito do Grande Prêmio da Áustria de 2026
A McLaren de Piastri no GP da Áustria de 2026. Foto: Lukas Raich / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

“Os livros de história vão dizer que eu fui batido por 15 segundos”, disse. “Mas eu colocaria aquele segundo lugar mais alto na minha lista de conquistas pessoais do que provavelmente 50% das vitórias que tive até agora.”

O motivo não tem nada a ver com a corrida em si.

“Porque eu sei que não deixei nada na mesa naquele fim de semana. Tirei o máximo absoluto de mim nos treinos. Cheguei muito perto do máximo absoluto na classificação. Tirei o máximo absoluto na corrida. Eu, o carro e a equipe, era tudo o que tínhamos.”

E a regra que ele extrai disso vale para qualquer posição na tabela: “Contanto que eu saia do fim de semana sabendo que fiz absolutamente tudo o que estava sob meu controle, isso é suficiente para mim. Independentemente de eu ter vencido a corrida, terminado em décimo ou até em 15º.”

Vencer e, mesmo assim, não ter feito um bom trabalho

A régua funciona nos dois sentidos, e é aí que fica desconfortável. Piastri venceu o GP de Miami em 2025 e classifica aquele fim de semana como um trabalho ruim.

Ele largou em quarto. “Entrei na corrida achando que não tinha a menor chance de vencer largando de quarto. Algumas coisas foram a meu favor, nosso carro estava incrivelmente rápido em Miami.”

A conta que ele fez depois é fria: “Eu poderia fazer isso uma, duas ou três vezes por ano, em 24 corridas, e talvez me safar. Mas eu não conseguiria vencer um campeonato baseado em fins de semana como aquele.”

O erro, na leitura dele, tinha sido na classificação de sábado, não no domingo. “A classificação é uma parte enorme da Fórmula 1. Em 95% das corridas, largando em quarto, você não vence.”

Ele cita uma frase de Niki Lauda que ouviu na mesma época, no prêmio Laureus, sobre aprender mais nas derrotas do que nas vitórias. “É muito difícil, porque quando você perde uma corrida por um erro, aquilo te encara na cara de forma bem óbvia. Mas se você venceu e teve coisas que não foram bem, você tem que procurar um pouco mais.”

O nono lugar que virou a chave

A pergunta do apresentador Jake Humphrey foi direta: você lembra do momento em que passou a chegar na quinta-feira sabendo que ia vencer, em vez de torcer?

A resposta foi uma corrida em que ele terminou em nono.

“Provavelmente depois de Melbourne no ano passado”, disse, sobre o GP da Austrália de 2025, em que cometeu um erro na chuva, caiu para o fundo do pelotão e recuperou até a nona posição, somando dois pontos. Lando Norris venceu.

Oscar Piastri cercado por torcedores e celulares durante o Melbourne Walk do GP da Austrália de 2026
Piastri cercado de torcedores em Melbourne, em 2026. Foto: Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

“Nos livros de história eu terminei em nono, e não foi uma corrida cheia de boas lembranças. Mas eu saí daquele fim de semana sabendo que tinha dado um passo grande em relação ao ano anterior.”

O que mudou ali foi o vocabulário interno. “Nos meus dois primeiros anos de F1, sempre havia uma sensação persistente de um pouco de esperança, de que eu precisava fazer alguma coisa a mais, alguma coisa especial. Depois de Melbourne em 2025, e principalmente depois da China, quando venci, eu sabia que, se eu chegasse perto do meu potencial, eu conseguiria vencer corridas.”

Vale registrar de onde ele partiu. Aos 14 anos, perguntado se acreditava que seria piloto de F1, a resposta teria sido não. “Eu sempre dividi entre o meu sonho e a minha meta. Meu sonho sempre foi ser piloto de F1, mas minha meta era só ser piloto profissional. Eu queria correr de carro para viver.”

Ele só se permitiu transformar o sonho em meta ao chegar à Fórmula 2 e brigar pelo título ali.

O que ninguém vê: horas de simulador para três minutos de pista

Humphrey citou o acrônimo que os jogadores do Saracens carregam por dentro da camisa, sobre o trabalho que ninguém enxerga, e perguntou qual é o dele.

Piastri respondeu que é a preparação, e explicou por que ela é diferente de outros esportes. “Se você quer ficar melhor no tênis, a primeira coisa que vai fazer é ir para a quadra e bater bola. Não dá para fazer isso com automobilismo.”

O detalhe que fecha o argumento é aritmético. Uma sessão de treino livre dura uma hora, mas o piloto tem dois jogos de pneu, sendo um macio que rende uma ou duas voltas boas.

“Todo aquele tempo de preparação para preparar a classificação está indo para, efetivamente, digamos, três minutos na pista. E você precisa estar tão preparado e ter colocado tanto esforço para conseguir fazer isso em tempo real, ao mesmo tempo em que tenta pilotar um carro de corrida a sabe-se lá quantas centenas de quilômetros por hora.”

Sobre dividir informação com o companheiro de equipe, ele é pragmático: “Temos centenas de pessoas trabalhando na nossa equipe. As outras têm o mesmo. Tem câmeras a bordo, GPS. Não existe segredo, não dá para esconder.” E completa: “Se você começa a ir por esse caminho, uma hora aquilo te morde, provavelmente na hora em que você menos quer.”

Norris e a linha que não foi cruzada

Piastri e Norris brigaram pelo título de 2025 até a última corrida. Norris levou. O australiano terminou o ano em terceiro, com 410 pontos, depois de liderar o campeonato durante boa parte da temporada.

Lando Norris e Oscar Piastri lado a lado, acenando no desfile de pilotos do GP da China de 2026
Norris e Piastri no desfile de pilotos do GP da China de 2026. Foto: Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Perguntado se a relação entre os dois mudou quando ficou claro que só um poderia ser campeão, respondeu que não, e reconheceu que quase ninguém acredita nisso.

“Nunca ficou feio. E acho que essa é uma coisa muito importante, porque teria sido muito fácil o ano passado ficar feio”, disse. “Se tivesse ficado realmente ruim, teria a pergunta de se um de nós dois estaria sequer sentado aqui dando esta entrevista de laranja.”

A explicação dele é que a espiral nunca começou. “Não demora muito para entrar naquela sequência de: eu vou fazer isso. E aí o companheiro pensa: ah, tá, eu sei que você fez aquilo, então eu vou fazer isso. E aí escala.”

Sobre a relação com os outros pilotos do grid, ele traça uma linha que raramente se ouve dita em voz alta: “Ter respeito um pelo outro e ser amigo um do outro são duas coisas muito diferentes. Para mim é sempre difícil ser genuinamente amigo de alguém contra quem, 24 vezes por ano, você tem que ir para a pista e provar que é melhor.”

Contra a positividade forçada

Piastri trabalha com a treinadora mental australiana Emma Murray, que ficou conhecida por seu trabalho com o Richmond, clube de futebol australiano, em três títulos da AFL. Perguntado sobre o melhor conselho que recebeu dela, ele foi na direção oposta da autoajuda.

“Talvez algumas pessoas pensem em performance mental, ou até em saúde mental, como tentar ser positivo o tempo todo. Mas, para ser franco, se alguma coisa está lá, não adianta tentar dizer que não está.”

E o exemplo é cru: “Se você bate e sai da corrida, não adianta tentar dizer para si mesmo que não foi tão ruim, ou que na verdade foi bom. Claramente não foi. Você não está enganando ninguém, e não está enganando a si mesmo.”

Ele também rejeita a ideia de estipular um prazo para superar uma derrota. “Você pode dizer para si mesmo que até a meia-noite de domingo vai se lamentar e que às 00h01 de segunda vai se resetar. Mas você pode ter um pensamento às 00h05. A gente é humano. Não funciona assim.”

O filtro que sobra é o mesmo do começo da conversa, aplicado à emoção. “Se eu tenho um problema e posso fazer alguma coisa sobre ele, eu resolvo. Se eu não posso resolver, então tudo bem, vou focar em outra coisa que eu consiga resolver.”

O exemplo prático é uma punição dos comissários. “Eles nunca vão mudar. Ou você reclama pelas próximas 50 voltas e diz como aquilo foi injusto, ou você aceita e tenta fazer o seu trabalho. Se eu sei que posso falar pela próxima meia hora e aquilo não vai mudar uma única coisa, eu não vou gastar a energia.”

Onde essa régua deixou Piastri em 2026

A entrevista foi gravada em abril, no começo de uma temporada que, desde então, não melhorou.

Piastri não completou as duas primeiras corridas de 2026: bateu na volta de apresentação na Austrália e teve um problema elétrico na China. Suzuka, onde terminou em segundo, foi a primeira prova que ele conseguiu levar até o fim, e ele mesmo classificou o fim de semana como um dos melhores da carreira.

Depois das 11 primeiras etapas, a conta está assim: Piastri é o sétimo colocado no Mundial, com 92 pontos. Norris, do outro lado da garagem, é o quinto, com 128. Na frente de todos aparece Kimi Antonelli, com 219, seguido de Lewis Hamilton (169), George Russell (160) e Charles Leclerc (138). A McLaren é a terceira força entre os construtores, com 220 pontos, atrás de Mercedes (379) e Ferrari (307).

Pela régua que ele apresenta na entrevista, nada disso responde à pergunta que interessa. O que interessa é se ele saiu de cada fim de semana sabendo que fez tudo o que estava sob seu controle. É uma métrica que ninguém de fora consegue auditar, e é exatamente esse o ponto.

O que isso ensina sobre alta performance

O que Piastri descreve não é conformismo. É uma separação deliberada entre duas coisas que o esporte insiste em tratar como uma só: o desempenho e o placar.

O placar depende do carro, da estratégia da equipe, do safety car na volta 23, do comissário que decide dar cinco segundos de punição. O desempenho depende das horas de simulador, dos três minutos de pneu macio bem usados, da volta de classificação que coloca o carro na primeira fila em vez da segunda.

Um atleta que só se avalia pelo placar fica refém de variáveis que não controla, e aprende pouco quando vence. Um atleta que se avalia pelo processo consegue sair derrotado de um domingo e ainda assim saber exatamente o que precisa mudar na terça.

A parte difícil, e Piastri é honesto sobre isso, é que a segunda régua não substitui a primeira. Ele quer ser campeão mundial, e sabe que, sem o carro certo, “você pode acreditar o quanto quiser, mas provavelmente não vai acontecer”. A régua do controle não garante o título. Ela garante que, quando o carro aparecer, ele esteja pronto.

Assista à entrevista completa

A conversa de Oscar Piastri com Jake Humphrey no podcast High Performance, gravada no centro tecnológico da McLaren, está disponível na íntegra e em inglês.

As declarações de Oscar Piastri reproduzidas nesta reportagem foram traduzidas livremente do inglês.

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Foto de Diogo Moraes
Diogo Moraes

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